Formação da Literatura Brasileira

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Benjamin Abdala Júnior, no livro Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota (org.); São Paulo; Editora SENAC; 1999), resenha o livro clássico da historiografia brasileira, Formação da Literatura Brasileira, de autoria de Antônio Cândido.

Antônio Candido de Mello e Souza (Rio de Janeiro, 24 de julho de 1918) é um sociólogo, literato e professor universitário brasileiro. Estudioso da literatura brasileira e estrangeira, possui uma obra crítica extensa, respeitada nas principais universidades do Brasil. À atividade de crítico literário soma-se a atividade acadêmica, como professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É professor-emérito da USP e da UNESP, e doutor honoris causa da Unicamp.

Paralelo às atividades literárias, Candido militou no Partido Socialista Brasileiro e participou do Grupo Radical de Ação Popular, integrado também por Paulo Emílio Salles Gomes, Germinal Feijó, Paulo Zingg e Antônio Costa Correia, editando um jornal clandestino, de oposição ao governo Getúlio Vargas, chamado Resistência. Posteriormente, participou do processo de fundação do Partido dos Trabalhadores, onde, entre outras funções, foi Presidente do 1º Conselho Curador da Fundação Wilson Pinheiro, fundação de apoio partidária instituída pelo PT em 1981, antecessora da Fundação Perseu Abramo. Ainda hoje é filiado ao partido, tendo apoiado a candidatura de Dilma Rousseff em 2010.

O livro Formação da Literatura Brasileira é sobretudo uma definição, através da literatura, dos traços marcantes de como nos, brasileiros, imaginávamos no momento de nossa afirmação com Nação politicamente independente. Depois da II Guerra Mundial, quando se proclama o Princípio de Autodeterminação dos Povos, passa a ser o momento de luta por uma descolonização mais ampla, para ir além de todas as formas de dominação neocoloniais ou imperiais, não restritas apenas a suas implicações políticas, mas também sociais, econômicas e, destacadamente, culturais.

A compreensão desse novo Brasil soberano pedia então novas interpretações de nossa formação, matizando aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais que repercutiam em nossa contemporaneidade. A base dessa reflexão provinha dos anos 30/40, através das obras de Gilberto Freire, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda. Depois, nos anos JK, pós-suicídio de Getúlio Vargas nos anos 50, esses autores foram sucedidos pelas obras de Raymundo Faoro, Celso Furtado e Antônio Cândido.

Desejava-se um novo Brasil a partir dos diagnósticos de nossas carências históricas. Era uma reconfiguração construída à esquerda avessa ao ufanismo que persistia, com seus efeitos imobilistas, no pensamento conservador dos anos 50. Reinterpretava-se o Brasil para sua transformação. O momento era de afirmação política da diferença brasileira, do reconhecimento de nossa Independência também no plano do imaginário.

Para Antônio Cândido, ao contrário do que imaginavam os românticos, nossa literatura – aliás como toda a cultura dominante no Brasil – foi-nos imposta, constituindo um produto da colonização, no caso, cultural. Não era um prolongamento das culturas locais, como sonhavam, mas um transplante da literatura europeia.

Essa condição subalterna aponta, em termos de valoração, para o conjunto da literatura e não para a produção individualizada. Não se exclui, pois, a possibilidade de obras individualmente relevantes.

Para os românticos, colocava-se, então, a necessidade de buscar assuntos diferentes dos veiculados na Europa, mas acabaram restritos a uma operação de substituição como a ocorrida com o indianismo. Era a busca de um equivalente nacional aos pretensamente altivos cavaleiros medievais. Foi mera adaptação dos gêneros literários às necessidades de expressão dos sentimentos nacionais.

No livro Formação da Literatura Brasileira, esta é apresentada como “síntese de tendências universalistas e particularistas”. Distingue entre manifestações literárias e literatura propriamente dita. Esta envolve um “sistema de obras ligadas por denominadores comuns, que permitem reconhecer as notas dominantes em certas fases”. O sistema envolve uma articulação orgânica entre autor-obra-público.

Como se trata de um sistema literário nacional, envolvendo escritores que têm seu horizonte cultural dirigido para a Nação e manifestam em graus variáveis o desejo de fazer uma literatura brasileira, Antônio Cândido não considera literatura, mas manifestações literárias, as produções anteriores à Independência do século XVI até meados do século XIX. Faltaria a elas esse caráter sistêmico:

  1. autores, caracterizando a existência de uma vida literária,
  2. público, permitindo sua veiculação; e
  3. tradição, para dar continuidade ao repertório literário.

De início, houve predominância de valores locais, não se voltando para outras partes do País. O horizonte tornar-se-á nacional de forma mais abrangente, para a intelectualidade brasileira, a partir da descoberta do ouro em Minas Gerais e o deslocamento do eixo político para o Sul-Sudeste. Formaram-se novos centros urbanos e intensificou-se a vida cultural.

A vida literária citadina propiciará o surgimento de grupos de escritores que desejavam ter uma literatura do País. Há, pois, um sentimento de missão, uma tomada de consciência embalada pelo nacionalismo artístico. Configuram-se os horizontes nacionais, o que antes constituía manifestações de caráter local.

Afasta-se de uma perspectiva mecanicista, onde o literário seria uma decorrência do discurso histórico, mas também – pelas articulações entre os intelectuais do Brasil e do exterior – dos condicionantes meramente nacionais do texto literário. As sugestões que vêm de outras literaturas são bastante importantes para a própria dinamização do sistema literário brasileiro.

Antônio Cândido vê com muita desconfiança as manifestações de exotismo literário – a representação da cor local – que atende ao gosto do provinciano ou do estrangeiro que procura em nossa literatura o equivalente a imagens estereotipadas.

Como ocorre, então, na dinâmica do sistema, a síntese entre o discurso sócio histórico e o literário? Para o autor, a situação histórico-cultural, isto é, os fatores externos, tornam-se internos na realização textual. As formas literárias são assim históricas e sociais, sem deixarem de ter sua autonomia específica – uma autonomia relativa capaz de articular o social e o histórico.

A obra literária contém, em suas formas internas, esse social e histórico, evitando-se assim o paralelismo da historiografia positivista que desconsiderava a especificidade dos textos literários ao coloca-los como decorrência passiva dos fatos históricos. É próprio da maneira de ser do texto literário a criatividade, a inovação artística.

Ao refletir assim sobre as relações da nossa literatura com a história da Nação, Antônio Cândido nos mostra os mecanismos pelos quais aprendemos a nos ver e a nos imaginar – mecanismo no sentido prospectivo, atraídos por futuro a ser continuamente inventado. Essa maneira de ver a literatura em sua autonomia relativa é extensiva para todos os campos artísticos e não artísticos de nossa cultura, onde o sistema nacional entra em interação com outros sistemas e, em particular, com um campo intelectual de caráter supranacional.

É evidente que relações de poder simbólico atravessam esse campo com implicações político-culturais. Há sempre a necessidade de se considerar onde o indivíduo, seja ele autor ou crítico, tem os seus pés e por onde circula a sua cabeça.

A consciência crítica da maneira de ser da cultura brasileira nutre-se da dialética contraditória entre o local e o universal:

  • de um lado, há a historicidade da tradição interna, que teve suas origens no processo de inculcação colonial e estabelece uma linha de continuidade;
  • de outro, os repertórios de circulação entre os sistemas culturais articulados ao do Brasil.

Entre os dois polos (interno/externo) abrem-se espaços para relevar as carências, que favorecem uma tomada de consciência. Esta, uma maneira crítica de nos ver e de nos imaginar como comunidade nacional, reúne condições, tanto na literatura quanto em outras áreas culturais, de levar ao aprofundamento das sugestões locais, forma de nosso imaginário que se fazem assim universais.

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