Justificativa Oficiosa do Governo Golpista sobre a Disparatada Taxa de Juros

ouroboros3

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação do jornal Valor. Em sua coluna (Valor, 10/02/17) atuou como “porta-voz oficiosa” ao retransmitir o recado em off de “economista do governo (golpista)” aos debatedores sobre a taxa de juros disparatada no Brasil. Reproduzo a mensagem oficiosa abaixo: quando não tem nenhum resultado presente positivo, ele culpa o passado. Antes, é bom lembrar que a taxa de inflação ficou abaixo do teto da meta anual de 6,50% por 10 anos na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014).

Metas de Inflação 1999-2013

“No início do regime de metas para a inflação, em 1999, foi traçado um cronograma de rápida redução da meta, que partia de 8% para chegar em 3,25% em 2003. Não deu. As eleições de 2002 geraram muita tensão, forte desvalorização da taxa de câmbio e elevação da inflação. O BC optou por operar com meta ajustada e subiu a taxa básica de juros (Selic) de 18% ao ano para 26,50% ao ano entre outubro de 2002 e fevereiro de 2003, para conter a escalada dos preços. O IPCA encerrou o último ano de FHC na Presidência em 12,53% e caiu para 9,30% no primeiro ano do mandato de Lula.

A gestão da política monetária e certo rigor no trato das contas públicas levaram a inflação para 3,14% em 2006, a menor taxa durante o regime de metas. No ano seguinte, porém, o governo jogou fora um bilhete premiado, ao não aproveitar as expectativas de inflação de 3,6% para 2007 e de 3,99% para 2008, para reduzir a meta de 2009. Ainda assim a inflação ficou abaixo da meta em 2007 e em 2009. Nos cinco anos do governo Dilma, o IPCA subiu, distanciando-se dos 4,5%. Nesse período os juros caíram para 7,25% ao ano.

Em abril de 2013, o BC iniciou uma trajetória de aperto monetário que só terminou com a taxa em 14,25% em julho de 2015, onde permaneceu até outubro de 2016, quando a inflação começou a dar trégua. O IPCA, que em setembro acumulava alta de 8,48%, encerrou 2016 em 6,29%. O preço da desinflação foi a recessão, agravada pelas tremendas incertezas políticas e econômicas do período. O IPCA de 3% é o objetivo de longo prazo do BC, ainda distante do horizonte visível das metas de inflação, que agora decidirá sobre 2019.

A possibilidade de o governo [golpista] de Temer retomar a redução da meta, abandonada desde 2005, seria a prova efetiva de que juros altos derrubam a inflação. Será?

O debate sobre se juros altos derrubam ou se, ao contrário, elevam a inflação, foi iniciado por artigo de Andre Lara Resende, publicado pelo Valor. A tese foi rebatida por textos dos economistas Marcos Lisboa e Samuel Pessôa e de Eduardo Loyo. A discussão está aberta e prossegue, com os economistas que se manifestaram até agora argumentando por que consideram a tese – advogada por Lara Resende com base em artigo de John Cochrane – fora do lugar.

O tema será objeto de debate na Casa das Garças, no Rio. Não haverá participação do governo. Os poucos economistas oficiais que se interessaram pela discussão e falaram com o Valor não concordam com a explicação que Lara Resende atribuiu à inflação no Brasil nos últimos 20 anos: a inflação é alta porque os juros nominais são altos. A solução, portanto, seria uma forte queda dos juros. O BC estaria, ao tentar apagar o fogo, jogando mais lenha na fogueira desde 2013. E só começou a acertar de outubro para cá, quando iniciou o ciclo de afrouxamento monetário.

A economia brasileira é, de fato, pouco sensível a taxa de juros por causa de distorções acumuladas há anos. “A mais recente foi a expansão anticíclica do crédito pelos bancos públicos, na gestão do PT, exatamente para se contrapor ao aperto dos juros”, apontou um economista do governo. A indexação também faz com que o efeito direto da elevação dos juros chegue aos preços em menor intensidade e mais lentamente.

De 2014 em diante outros fatores concorreram para agravar o quadro, como a forte deterioração fiscal, elevação dos prêmios de risco e aumento das incertezas políticas, o que culminou com o golpe contra Dilma. Situação que se configurou como um choque de oferta, além do choque tarifário em 2015 para recompor o represamento dos preços administrados. A toda essa confusão se somou a desancoragem das expectativas inflacionárias.

A resistência da inflação à elevação dos juros desde 2013 se explica, assim, pela atormentada realidade econômica e política do período. “Não significa dizer que o Brasil é só mais um exemplo onde a política monetária funcionaria ao contrário, que é o ponto da tese do Lara Resende”, comentou uma fonte.

“A navalha de Occam, segundo o argumento citado por Cochrane, no caso brasileiro está longe de passar pela Teoria Fiscal do Nível de Preços que estaria valendo para os últimos 20 anos”, disse um outro especialista. Navalha de Occam é um princípio que diz que onde há duas alternativas igualmente coerentes para explicar um fenômeno, deve-se optar pela mais simples. A Teoria Fiscal do Nível de Preços corresponde à situação de dominância fiscal, entendida como um quadro de deterioração fiscal de tal ordem que leva ao risco de insolvência. Nesse caso, elevar a taxa de juros geraria mais inflação.

O país esteve próximo a essa situação nos anos de 2014 e 2015, segundo alguns economistas. Tiago Berriel, diretor do BC, em um trabalho elaborado antes de ir para o governo, chamou a atenção para o que qualificou de “antessala da dominância fiscal”, quando o desarranjo das contas públicas começou a contaminar as expectativas sobre a dinâmica da dívida pública e a gerar grande volatilidade nos preços dos ativos.

Nessa hora, se a situação não fosse revertida, a elevação da Selic desvalorizaria o câmbio e elevaria a inflação, mas não só. A inflação explodiria. “Não existe equilíbrio limitado para a inflação. Ela teria explodido”, diz um economista do governo. As fontes sustentam que é praticamente impossível explicar o comportamento da política monetária e da inflação nos últimos 20 anos usando a teoria fiscal do nível de preços.”

2 thoughts on “Justificativa Oficiosa do Governo Golpista sobre a Disparatada Taxa de Juros

  1. Boa Noite, Caro Fernando da Costa!
    Em 03/02/2017, li no seu Blog sobre o seguinte Tema: Debate sobre o Juro Disparatado no Brasil.

    Por reconhecer em Você – Dr. Fernando Nogueira da Costa – uma Autoridade Diferenciada no Assunto, muito iria Contribuir no Evento, bem como nas Publicações e Comparações das Diversas Opiniões em relação as Outras Autoridades que foram convidadas. Perdemos Todos Nós: o Debate não evoluiu, tampouco o Público ficou em condições de formar Conclusões Abalizadas.

    Não obstante este Fato, hoje (20/02/2017) verifiquei que durante todo o dia transcorreu na FGV/RJ – Praia de Botafogo – um Evento que tratou da Discussão da PEC 287, a da Reforma da Previdência. Observei algo preocupante, a falta de precisão e qualidade com que o Governo Federal, através daqueles que Apresentaram seus Trabalhos neste Evento, procurou justificar àquilo que consta na PEC 287.

    Infelizmente, mais Outra Mancada, uma vez que faltou uma Autoridade que expusesse com Proficiência a Realidade Factual acerca da Previdência Social no Brasil. Caso o Professor Dr. Fernando Nogueira da Costa, tivesse sido Convidado e tivesse Participado do referido Evento, creio que em muito teria Eficientizado o Debate, em virtude da sua Visão Acurada da Economia Brasileira, e principalmente pela Profundidade com que elabora suas Pesquisas e sobretudo pela Honestidade Intelectual.

    Enfim, como as Apresentações estão disponíveis para Download, é possível que Todos Nós analisemos o Conteúdo das mesmas e proferirmos uma Opinião acerca do que hoje foi Debatido na FGV/RJ e que sem quaisquer dúvidas: tem influência nos destinos da PEC 287 e impactarão o Futuro da População Brasileira.

    Por último, em muito enriqueceria o Debate desse Tema, as Opiniões e a Criticidade sobre o que vem sendo externalizado, principalmente na FGV/RJ sobre a PEC 287 – aqui nas Postagens constantes do seu Blog.

    É o que Sugiro como seu Leitor Assíduo.

    1. Prezado Wilson,
      agradeço os gentis comentários.

      Tenho insistido neste ponto não só por ser alijado e/ou boicotado no debate público entre economistas quando sei que tenho pontos de vista originais (ou dissidentes) a respeito. O problema maior é o viés da auto-atribuição ou auto-validação ilusória. Ao debater apenas entre economistas ortodoxos, eles se iludem achando que há um consenso profissional a respeito de suas conclusões — e erram!

      Não percebem que há outras óticas e outros pontos-de-vista que os levaria a pensar mais profundamente a respeito dos temas. Um heterodoxo fica admirado quando um ortodoxo descobre algo que há muito tempo era lugar-comum entre seus pares. Por exemplo, que a Teoria Quantitativa da Moeda é falha e a política monetária sempre se fez fixando juros — e não alcançando metas de programação monetária. Depois de décadas, “(re)descobriram a pólvora”!
      Abraço

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