Porque é que a Inflação dos Estados Unidos é tão baixa?

inflacao-nos-euainflacao-nos-euajuros-nos-eua

  • Os dados acima confirmam a hipótese neofisheriana de André Lara Resende, “vanguarda do pensamento econômico mundial” (sic)? 
  • Porque é que a flexibilização quantitativa tem coexistido com a estabilidade de preços nos Estados Unidos?
  • Porque é que a emissão monetária por parte da Reserva Federal não provocou uma inflação mais elevada?

Martin Feldstein, professor de Economia em Harvard, foi presidente do Conselho de Assessores de Economia de Ronald Reagan. Ele é também ex-presidente do National Bureau for Economic Research dos Estados Unidos.

Para responder essas intrigantes questões, naturalmente, ele não faz uma abordagem estruturalista a la Escola Desenvolvimentista Latino-Americana. Assim, não alerta sobre a especificidade da capacidade de emissão monetária por parte do governo dos EUA. Imprime papéis pintados de “dólar”, para fazer a monetização da dívida pública ou “afrouxamento monetário, e o resto mundo os aceita em troca de mercadorias! Além disso, os títulos de dívida pública norte-americanos são absorvidos em reservas cambiais dos países emergentes como China, Japão, Rússia, Brasil, Petro-Estados, etc. Logo, o resto do mundo financia o imenso déficit comercial norte-americano.

Obviamente, esta experiência é única e não pode ser generalizada como uma “nova teoria monetária”!

Os Estados Unidos fecharam 2016 com um déficit no balanço comercial de US$ 502,3 bilhões, o maior dos últimos quatro anos. Por países, o saldo negativo no comércio com a China caiu 5,5% em 2016, ficando em US$ 347 bilhões, abaixo do recorde de US$ 367 bilhões de 2015. Já com o México, as importações superaram as exportações em US$ 63,2 bilhões, uma alta de 4,2% e o valor mais alto desde 2011, de acordo com o Departamento de Comércio.

O presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu penalizar países como China e México, que acusa de práticas comerciais injustas, responsáveis pela perda de milhões de empregos americanos. Trump pretende renegociar o mais rápido possível o Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), assinado há mais de 20 anos com o México e o Canadá. Resta a simples pergunta: com o fim do livre-comércio global a inflação nos EUA permanecerá baixa?!

Reproduzo abaixo o artigo de Martin Feldstein.

A inflação tem estado certamente em níveis muito baixos. Durante os últimos cinco anos, o índice de preços ao consumidor aumentou a uma taxa anual de apenas 1,5%. A medida de inflação preferida da Fed – o índice de preços para gastos com o consumo pessoal, excluindo alimentação e energia – também aumentou a uma taxa anual de apenas 1,5%.

Por outro lado, a compra de obrigações com maturidades a longo prazo por parte da Fed durante este período tem sido invulgarmente elevada. A Fed adquiriu mais de dois bilhões de Obrigações do Tesouro e títulos garantidos por hipotecas, quase dez vezes a taxa anual de compra de títulos durante a década anterior. Só no último ano, a quantidade de Obrigações no balanço da Fed aumentou mais de 20%.

Os dados históricos mostram que um rápido crescimento monetário impulsiona elevados níveis de inflação. Tal fato ficou bem claro durante a hiperinflação da Alemanha na década de 1920 e da América Latina na década de 1980. Mas mesmo mudanças ainda mais moderadas na taxa de crescimento monetário dos Estados Unidos traduziram-se em mudanças correspondentes na taxa de inflação.

Na década de 1970, a oferta monetária dos Estados Unidos cresceu a uma taxa média anual de 9,6%, o valor mais elevado registado durante a metade anterior do século, e a inflação cresceu a uma média de 7,4%, também o valor máximo registado na metade anterior do século. Na década de 1990, a taxa média do crescimento monetário anual era de apenas 3,9% e a taxa média de inflação foi apenas 2,9%.

É por isso que a ausência de qualquer resposta por parte da inflação aos enormes volumes de compras de títulos pela Fed nos últimos cincos anos parece tão intrigante. Mas o enigma desaparece quando reconhecemos que a flexibilização quantitativa não é a mesma coisa que a emissão de moeda, ou, mais precisamente, o aumento das reservas de dinheiro.

As reservas de dinheiro que mais de perto se relacionam com a inflação consistem principalmente nos depósitos que as empresas e as famílias detêm nos bancos. Tradicionalmente, as grandes quantidades de compras de obrigações pela Fed conduziram a um crescimento mais rápido desta reserva de dinheiro. Mas uma mudança fundamental nas regras da Fed em 2008 anulou a ligação entre a compra de títulos e o volume monetário subsequente. Como resultado, a Fed comprou uma enorme quantidade de obrigações sem fazer com que as reservas de moeda – e, portanto, a taxa de inflação – aumentassem.

O vínculo entre a compra de títulos e as reservas de dinheiro depende do funcionamento do “excedente de reservas” dos bancos. Quando a Fed compra Obrigações do Tesouro ou outros ativos, como obrigações com garantias hipotecárias, o resultado é a criação de “reservas” para os bancos, que estes depositam na Fed.

Os bancos comerciais são obrigados a manter um nível de reservas equivalente a uma parte dos seus depósitos. Até 2008, a Fed não pagava taxas pelo excedente de reservas acima da quantia necessária, o que incentivava os bancos a outorgar empréstimos a particulares e empresas, até que o crescimento resultante dos depósitos esgotou o excesso de reservas. Esse aumento de depósitos nos bancos era, por definição, um aumento substancial das reservas de dinheiro.

Um aumento dos empréstimos bancários permite às famílias e às empresas aumentar os seus gastos. Essa despesa extra traduz-se em um aumento do PIB nominal (o valor da produção a preços de mercado). Parte desse aumento do PIB nominal manifesta-se como um incremento do PIB real (ajustado à inflação), enquanto que o resto se manifesta como inflação. Historicamente, é desta forma que a compra de obrigações pela Fed provocava um aumento das reservas de moeda e da taxa de inflação.

O vínculo entre a compra de obrigações pela Fed e consequente aumento das reservas monetárias alterou-se depois de 2008, porque a Fed começou a pagar juros sobre o excedente de reservas.  A taxa de juro oferecida por estes depósitos líquidos e totalmente seguros induziu os bancos a manter o excedente de reservas ao cuidado da Fed em vez de os converter em empréstimos e criar depósitos para absorverem o aumento das reservas, tal como teriam feito antes de 2008.

Como resultado, o volume de reservas excedentes detido pela Fed aumentou drasticamente de menos de 2 milhões de dólares em 2008 para 1,8 bilhões actualmente. Mas a nova política da Fed de pagar juros sobre o excesso de reservas significou que apesar de haver uma maior disponibilidade das reservas em excesso, tanto o ritmo de crescimento dos depósitos como o ritmo do crescimento das reservas monetárias foram limitados.

O tamanho amplo das reservas monetárias (conhecidas como M2) cresceu a uma taxa média de apenas 6,2% ao ano desde o final de 2008 até ao final de 2012. Normalmente, o PIB nominal cresce por longos períodos de tempo ao mesmo ritmo que as reservas de moeda, mas como as taxas de juro eram tão baixas e estavam constantemente a ser diminuídas, depois de 2008 os particulares e as empresas preferiram conservar consigo uma porção de dinheiro maior em relação ao PIB nominal total. Assim, enquanto o M2 cresceu mais de 6%, o PIB nominal avançou apenas 3,5% e o índice de preços do PIB aumentou apenas 1,7%.

Portanto, não é surpreendente que a inflação se tenha mantido em valores tão moderados – de fato, mais baixos que em qualquer década desde o fim da II Guerra Mundial. Também não é de estranhar que a flexibilização quantitativa [“afrouxamento monetário”] tenha feito tão pouco para aumentar a despesa nominal e a atividade econômica real.

A ausência de uma inflação significativa nos últimos anos não significa que esta não venha a aumentar no futuro. Quando as empresas e as famílias aumentarem, eventualmente, a sua procura por empréstimos, os bancos que tenham capital suficiente podem atender a essa procura com novos empréstimos, sem exceder os limites que em outras condições poderiam resultar em um nível inadequado de reservas. O crescimento resultante dos gastos por parte das empresas e das famílias pode ser bem-vindo em um primeiro momento, mas em curto prazo pode tornar-se uma fonte de inflação indesejada.

Para limitar o efeito inflacionário destes empréstimos, a Fed poderia, em princípio:

  1. aumentar a taxa de juro sobre o excesso de reservas ou
  2. aumentar a taxa de juro dos fundos federais de curto prazo por meio de operações em mercado aberto.

Mas o Fed pode hesitar em agir, ou pode agir com força insuficiente, devido à sua dupla obrigação de se concentrar no emprego bem como na estabilidade dos preços.

Esse resultado é mais provável se as elevadas taxas de desemprego de longa duração persistirem, assim como sub-emprego, mesmo que a taxa de inflação aumente. E é por isso que os investidores estão certos em se preocuparem com o regresso da inflação, mesmo que a compra massiva de obrigações pela Fed nos últimos anos não tenha conduzido a um aumento inflacionista.”

PS:

Faltou a Martin Feldstein salientar a pressão do comércio exterior para segurar a inflação. Por exemplo, um acordo comercial suposto “ruim” pela direita republicana, como o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), é responsável apenas por uma extremamente pequena fração da perda de empregos nos últimos 30 anos nos EUA. Apenas 0,1 ponto percentual da queda de 21,4 pontos percentuais na participação do setor de manufatura durante esse período é atribuível ao Nafta, que entrou em vigor em dezembro de 1993.

Meio século atrás, a economia americana assegurava uma abundância de empregos em manufatura a uma força de trabalho bem preparada para ocupá-los. Hoje, muitas dessas oportunidades não existem mais. Esse é, sem dúvida, um problema significativo; mas qualquer pessoa que afirme que o colapso do emprego no setor de manufatura americano resultou de acordos comerciais “ruins” está dizendo tolice.

Os fatos sobre o declínio do emprego no setor de manufatura americano são evidentes: não há “alternativas”. Os culpados são, fundamentalmente:

  1. o crescimento da produtividade e
  2. a demanda limitada, que reduziram a participação dos trabalhadores fora do setor agrícola na indústria manufatureira de 30% na década de 1960 para 12% uma geração mais tarde.

Essa participação caiu ainda mais, para 9%, devido a políticas macroeconômicas equivocadas, especialmente durante a era Reagan, quando o déficit orçamentário e a política monetária excessivamente rígida fizeram com que o dólar subisse, prejudicando a competitividade.

Após esse período:

  1. os Estados Unidos abdicaram de seu papel de exportador líquido de capital e finanças, e
  2. as economias menos desenvolvidas tornaram-se fontes líquidas de recursos para investimento.

Finalmente, o crescimento extraordinariamente rápido da China fez com que a proporção do emprego no setor de manufatura caísse para 8,7%; o Nafta levou-o para 8,6%.

As prioridades da política econômica de Trump (estímulo fiscal, corte de impostos corporativos e taxação de importações) pressionarão o Fed a elevar os juros e apenas fortalecerão o dólar. É uma mensagem clara aos fabricantes norte-americanos: vocês sem competitividade não são desejados!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s