Voz do Povo: Eu era feliz durante o Governo Lula… e sabia!

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Os golpistas dos Três Poderes mais os do Quarto Poder (Imprensa) apelam para os mais atrozes golpes baixos contra o ex-Presidente Lula e sua família. Chegou a ponto tal de elevar a pressão sobre Dona Marisa até a levarem à morte. Rasgaram princípios caros ao Estado Democrático de Direito, como o da necessidade de provas em uma acusação. Quebraram sigilos pessoais de sua vida e de sua família, sem sequer uma prova. Nesse clima de intolerância, os direitistas procuram destruir primeiro as pessoas adversárias para depois ver se tem algum culpado ou não.

Ricardo Mendonça (Valor, 13/02/17) reconhece agora a possibilidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concorrer novamente à Presidência da República. A disputa pelo cargo em 2018 poderá ter um componente eleitoral inédito, sugere uma pesquisa qualitativa feita pela empresa Ideia Inteligência com exclusividade para o Valor: saudades.

A Grande Depressão de 2015 e 2016 empurrou 4,3 milhões de famílias para as Classes D e E em um retrocesso de quatro anos no ciclo de mobilidade social que começou em 2003, quando a base da pirâmide representava 70,2% do total de domicílios do país. A melhor proporção, 51,4%, foi observada em 2014, final da Era Social-Desenvolvimentista, antes da volta da Velha Matriz Neoliberal. No fim do ano de 2016 estava em 56,5%.

Ao explorar os argumentos e as justificativas de um grupo selecionado de eleitores que andam afastados do PT, mas declaram intenção de votar no petista, o levantamento identificou reiterados sinais de um sentimento de nostalgia em relação à sua gestão, de 2003 a 2010. Eleitores não ideológicos que estariam dispostos a guiar a escolha baseados em boas lembranças daquele governo. Lembranças associadas, principalmente, a aspectos econômicos.

Em dezembro de 2016, ano do golpe parlamentarista, em um levantamento quantitativo com 2.828 entrevistas e margem de erro de dois pontos, o Datafolha mostrou que Lula é líder isolado em todos os cenários de primeiro turno. Apesar do noticiário francamente desfavorável em 2016, com a Lava-Jato em seu encalço, impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e derrota do PT nas eleições municipais, as intenções de voto no ex-presidente cresceram, enquanto a taxa de rejeição ao seu nome apresentou tendência de recuo. Em seu melhor cenário, Lula pulou de 17% em março para 26% em dezembro (confira nos gráficos abaixo). Em simulações de segundo turno, só perdeu para a sua ex-ministra Marina Silva (Rede).

Para tentar entender que tipo de fenômeno pode estar sustentando esse desempenho, a empresa Ideia reuniu um grupo específico de eleitores declarados do petista e promoveu uma discussão de uma hora e meia, estimulada por um profissional habilitado. Trata-se de uma técnica muito usada por marqueteiros para captar motivações subjetivas de segmentos de eleitores e orientar rumos publicitários de campanhas eleitorais.

O grupo era composto por dez pessoas, que receberam uma gratificação em dinheiro pela participação, lanche e refrigerante. Optou-se por eleitores das classes C e D de regiões periféricas de São Paulo, de 25 a 55 anos, que não são filiados ou militantes do PT, mas que, embora possam ter restrições ao partido, declaram intenção de votar em Lula numa nova eleição presidencial.

Os eleitores selecionados, conforme ficou demonstrado na sessão, têm interesse por política, mas são pouco informados e nutrem forte rejeição a partidos. Usam como fontes de informação o Facebook e a televisão, principalmente Globo e Record. Todos já votaram em Lula pelo menos uma vez, mas nenhum votou pela reeleição do ex-prefeito de São Paulo

Fernando Haddad (PT) no ano passado. Mais da metade declarou voto no tucano João Doria, três anularam, um foi de Celso Russomanno (PRB). O nome do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que ensaia o lançamento de uma candidatura presidencial, despertou visível interesse nos homens, mas também imediata rejeição entre as mulheres.

No grupo em que só um disse não ter apoiado o impeachment de Dilma, a figura política de Lula foi reverenciada. A discussão em torno de seu nome, conforme assinalam os pesquisadores, é embalada por “forte apelo emocional”, movida por um sentimento de “gratidão extrema, ligada à sensação de boa situação financeira (…) que marcou os governos Lula na memória dos entrevistados”. A pesquisa ocorreu uma semana antes da morte da mulher de Lula, a ex-primeira-dama Marisa Letícia.

Um dos aspectos mais destacados pelos participantes foi o do trabalho, realçado várias vezes durante a sessão. “Havia um equilíbrio entre as coisas, a taxa de desemprego era muito baixa. No governo dele eu arrumava emprego fácil, mesmo sendo menor de idade”, afirmou um dos participantes. “Antes eu escolhia a empresa que eu queria trabalhar”, completou outro. “Era um governo que todo mundo gostava, você não via ninguém fazer baderna”, resumiu mais um. “Só quem não gostou da administração dele foi o pessoal da classe A. Muita gente começou a ter opção e salário melhor e parou de se sujeitar para os patrões.”

Também chama a atenção o aspecto do consumo, em especial o associado à alimentação. “No governo dele dava para fazer um mercado bom”, “Eu comia picanha”, “Um saco de arroz era oito reais”, foram algumas das manifestações extraídas. A ideia ascensão social sob as gestões Lula parece enraizada. “O cara da classe E passou para a D, o da D passou para a C, e o da C passou para a B”, explicou um participante. “Ele [Lula] segurou muito a inflação. Ajudou a diminuir muito a miséria”, disse outro.

Para o diretor da Ideia Inteligência, Mauricio Moura, a boa lembrança do governo Lula na área econômica será o principal ativo eleitoral do petista, caso resolva disputar a Presidência novamente no ano que vem. “As pessoas reconhecem que a vida era melhor quando ele era presidente”, diz. “E gratidão parece ser uma coisa muito forte nesse grupo.” O relatório produzido por sua empresa afirma que os brasileiros com esse perfil parecem buscar “um sentimento de plenitude que sentiram nos antigos governos de Lula”.

Esta é a segunda vez que a Ideia Inteligência faz pesquisa qualitativa por sugestão do Valor. Na primeira, em julho de 2016, o que estava em pauta era a eleição para prefeito de São Paulo. O objetivo era tentar identificar quem ganharia com a possível exclusão de Russomanno da disputa, líder isolado que corria o risco de ter a candidatura vetada em decorrência de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O estudo sugeriu que Doria, na época empatado em quarto lugar com 8%, era quem tinha o maior potencial. Embora a decisão do STF não tenha resultado na retirada de Russomanno, a avaliação acabou sendo confirmada. Quando sua candidatura murchou, quem cresceu foi Doria, que atropelou os rivais e acabou eleito no primeiro turno.

O estudo feito agora com um grupo selecionado de eleitores de Lula também investigou as opiniões sobre a ex-presidente Dilma. A simpatia foi mínima. Entre os participantes, ela foi considerada arrogante, despreparada e, principalmente, inábil. Mas, diferentemente do que pode sugerir o senso comum, isso não parece afetar a imagem do ex-presidente. Foi consensual no grupo que os atuais problemas políticos e econômicos do país surgiram após a saída de Lula da Presidência. Todos os males são atribuídos à inabilidade ou à incapacidade de Dilma.

Algumas frases repetidas expressam bem essa ideia: “A pressão fez ela [Dilma] sair do rumo do governo”, disse um participante. “Ela não passava credibilidade, perdeu os aliados e não conseguia passar uma informação”, opinou outro. Em outros momentos, a tentativa de apartá-la do ex-presidente ficou nítida. “O primeiro governo dela foi bom, ela manteve muitas coisas do Lula”, afirmou uma mulher. “Ela começou a não ouvir o partido, é como eu vejo”, disse outra.

A carga de responsabilidade colocada exclusivamente sobre Dilma é um aspecto que impressionou Renato Dorgan Filho, o profissional que coordenou e conduziu os 90 minutos de discussão entre os eleitores recrutados. “É incrível: eles colocam a culpa de tudo nas costas da Dilma. Tudo de ruim vem da falta de habilidade dela”, disse.

Apesar da repulsa à presidente afastada, não foi detectado qualquer sinal de satisfação com o governo Michel Temer, o vice que trabalhou para o golpe parlamentarista e acabou beneficiado pelo afastamento. “Eu fui a favor [do golpe], mas não queria que entrasse o vice”, disparou um participante. “Para mim não mudou nada”, disse outro. “E só vai piorar.”

A agenda de reformas conduzida por Temer não é percebida com nitidez. Apesar do apoio genérico à ideia de corte de gastos, ninguém pareceu seguro para explicar o que foi a emenda constitucional que congelou os gastos públicos. E alguns apresentaram aversão quando informados pelo mediador que a medida poderia afetar as áreas de saúde e educação. “Tinha que limitar gastos deles [dos políticos]”, protestou uma participante. “Eles ganham casa, carro. Eles ganham mais do que eu e querem um monte de coisas?”, completou.

Já a reforma da Previdência é recebida com mais desconfiança, embora também não tenham informações precisas sobre o conteúdo da proposta. Chamou a atenção a associação imediata de alguns com a saúde e a expectativa de vida. “A gente não tem saúde para isso”, destacou um participante, falando sobre a possibilidade de aumento da idade mínima. “Para poder trabalhar mais, a gente precisa ter mais saúde”.

O aspecto que se mostra mais desfavorável para Lula, segundo Mauricio Moura, é a Lava-Jato. Isso porque há visível apoio à operação, entendida no grupo como uma coisa boa para o país. O juiz Sergio Moro é percebido de forma muito positiva, com respeito. E ninguém parece acreditar na tese segundo a qual o magistrado estaria perseguindo Lula, embora quase todos enxerguem o petista como vítima de algumas perseguições. “Esse eleitorado não se sente bem quando Lula fala mal da Lava-Jato”, diz o pesquisador. “Lula vai ter de equalizar isso, não será fácil”.

Até agora, porém, o ex-presidente é preservado. As citações das prisões de auxiliares muito próximos, como os ex-ministros José Dirceu e Antonio Palocci, não impressionaram os participantes. Nem as acusações diretas contra Lula, envolvendo um apartamento no Guarujá e um sítio em Atibaia.

“Ele [Lula] fechou o olho para alguma coisa e ganhou um presentinho”, minimizou um dos participantes. “O Lula ganhou pelo trabalho dele”, afirmou um rapaz. A ideia de desproporcionalidade é forte. “Pega um vereador, tem muito mais poder aquisitivo que um sítio em Atibaia ou um apartamento no Guarujá”, disse alguém. “Atibaia nem é tudo isso”, completou uma mulher. “Não tem provas concretas”, decretou outro.

Leia mais: Lava-Jato fará de tudo para condenar Lula e impedir sua candidatura

2 thoughts on “Voz do Povo: Eu era feliz durante o Governo Lula… e sabia!

  1. Professor, tenho grande satisfação em ler seu Blog. Apesar de admitir o golpe parlamentar no País, com o que discordo e sustento no meu Blog, os temas são bem escolhidos, o conteúdo é bem subsidiado em fatos e links, muito informativo, tem pauta própria em relação à grande mídia e colabora muito para o debate de ideias de alto nível sobre temas sociais, políticos e econômicos, sob a perspectiva do cidadão, assim como o faz o Blog Perspectiva Crítica. Parabéns pelo seu trabalho!!! O Brasil é melhor tendo mais pessoas bem informadas. Seu Blog promove essa boa informação.

    Grande abraço de seu colega,

    Mário César Pacheco
    Blogger do Blog Perspectiva Crítica

    1. Prezado Mário César,
      “blogueiros com perspectiva crítica, uni-vos!” Senão, o Rei Moro os perseguirá!

      Agradeço os elogios e os retribuo. É necessário oferecermos em blogs, sob essa perspectiva crítica, informações qualificadas e alternativas à imprensa “chapa-branca” para os cidadãos brasileiros se tornarem mais cultos e capazes de fazerem melhores escolhas.

      Quanto ao Golpe Parlamentarista, ele não seria visto assim por mim caso estivéssemos em um regime parlamentarista com Primeiro Ministro e escolha de Ministério com base em maioria. No entanto, o Parlamentarismo foi derrotado em dois plebiscitos e o País é regido pelo Presidencialismo.

      A lembrança do Império faz com que a palavra “Parlamento” se tornasse sinônimo de “Congresso” no Brasil, mas há uma distinção doutrinária e radical entre as duas palavras:
      “Parlamento” se refere às assembleias gerais dos regimes parlamentaristas, detentoras da totalidade dos Poderes Executivos e Legislativos,
      “Congresso” caracteriza o regime bicameral do presidencialismo, no qual os deputados e senadores apenas exercem o Poder Legislativo.

      Assim, em Washington há um Congresso e em Londres funciona um Parlamento. Em Brasília, em mistura típica da Tropicalização Antropofágica Miscigenada, funciona um Presidencialismo Parlamentarista!

      Considero também o Governo Golpista porque ele adotou o Programa Neoliberal que foi derrotado por quatro vezes seguida. Houve um estelionato eleitoral por parte da Dilma ao nomear o Joaquim Levy, porém ela se arrependeu e nomeou Nelson Barbosa depois.
      Abraço

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