Apropriação Cultural e A Antropofagia de Oswald de Andrade

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“Vou contar o que houve ontem, para entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural:

Eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que estavam me olhando torto, tipo ‘olha lá a branquinha se apropriando da nossa cultura’. Enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante, porque eu era branca. Tirei o turbante e falei ’tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus.’, Peguei e saí e ela ficou com cara de tacho.”

Ao fim do relato, postado no dia 4 de fevereiro, Thauane Cordeiro ainda colocou a hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim. Até o momento, seu post recebeu 104 mil curtidas e foi compartilhado mais de 30 mil vezes.

Valéria Maria Pinheiro é servidora pública na Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco). Formada em Comunicação Social, com habilitação em publicidade e propaganda pelo Centro Universitário – UniCeub e Piano Popular pela Escola de Música de Brasília. Remeteu-nos, gentilmente, uma interessante reflexão sobre o tema “Apropriação Cultural” à luz da inspiração do Manifesto da Tropicalização Antropofágica Miscigenada. Reproduzo-a abaixo.

Diante uma discussão acalorada sobre o tema “Apropriação Cultural”, venho aqui, humildemente, propor uma reflexão. Esse debate ressurgiu nas redes sociais quando uma menina de cor branca foi questionada por usar um turbante. Aliás, é sensato dizer que ela estava usando-o porque fazia um tratamento contra o câncer. Mas esse não é o foco, afinal, a crítica não é só pelo turbante, mas também, pelos dreads, tranças, roupas, enfim.

A grande questão foi a utilização de acessórios identificados à cultura negra e às religiões de raízes africanas por pessoas brancas, motivadas, de acordo com a crítica, apenas por interesses estéticos sem uma consciência em sua utilização, gerando, assim, a invisibilidade de quem produziu aquela cultura.

Sim, realmente, a cultura negra está sendo massificada pela utilização de turbantes e cabelos trançados por modelos da cor branca, como exemplo a marca Farm, citada na reportagem da revista Carta Capital.

Mas o que a antropofagia de Oswald de Andrade tem a ver com isso? Bem, pretendo apenas colocar a questão central da Antropofagia, fundamentada pelo grande escritor, ensaísta e dramaturgo. Sendo assim, o Movimento Antropofágico foi uma manifestação artística da década de 1920, teorizada por Oswald de Andrade que questionava uma saída para o problema da identidade brasileira.

O movimento indagava o que nós, aqui no Brasil, iríamos fazer com a invasão de ideias advindas dos Estados Unidos e da Europa. Iríamos recusar essas coisas?

Oswald de Andrade se baseou em o que os índios faziam aqui. Quando vinham os franceses, eles “devoravam” os franceses. Como assim? Eles incorporavam aquilo que era estrangeiro dentro do seu próprio corpo. E isso criou o significado do movimento antropofágico: nós Brasileiros não vamos nos fechar só nas coisas brasileiras!

Na obra Manifesto Antropófago, o autor afirma que a proposta era fazer a devoração cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação”. Tupy, or not tupy that is the question é uma das frases presentes no manifesto.

O escritor acreditava que os benefícios proporcionados pela cultura estrangeira tornavam possíveis formas primitivas de existência. Para ele, somente com o pensamento antropofágico éramos capazes de distinguir os elementos positivos dessa outra civilização, retirando o que não nos interessa e promovendo a “Revolução Caraíba”.

Portanto, retomando a questão do uso de acessórios de matrizes africanas, por que não nos apropriarmos de algo que é tão nosso? Sim, nosso. Somos um povo mestiço, uma mistura de índios, europeus e africanos, esse é o povo brasileiro.

Por que aqueles que detêm a expertise e a vivência sobre a matriz africana não aproveitam para nos explicar melhor? Afinal, não nos foi explicado na escola, no dia-a-dia, na mídia. “E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil. (…) Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará(…) Uma ignorância real das coisas” (OSWALD DE ANDRADE. Manifesto antropófago. Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

Por que não comer a nossa experiência e tirar dela uma teoria de nós? Quem sabe um sonho de quem queremos ser ou de quem achamos que somos, pois ainda não sabemos. Não temos um projeto comum de Brasil.

Além de tudo, não há mais tantos bloqueios e proibições para podermos ser quem realmente somos, mesmo não sabendo ao certo quem somos. Não há mais vaias nos Festivais de Música Popular Brasileira (aliás, eles não existem mais) ou mesmo à ditadura militar, época na qual não podíamos ser nada.

Passamos muitos anos, décadas e séculos tentando nos encontrar nos europeus, negando veementemente nossas matrizes indígenas e africanas. Mas agora vemos uma juventude optando por adotar e se apropriar de uma cultura dela, por mais que não tenha tanta consciência e conhecimento disso.

Sim, é preciso um respeito imenso para nos apropriarmos, mas talvez seja uma janela de oportunidade para escancarar essa cultura que foi negada, escondida e invisível durante séculos.

Por que não explicar a quem não sabe, aproveitar os mesmos veículos e fazer uma réplica com as devidas explicações. Em vez de agredir, esclarecer, conscientizar os ignorantes reais, que, aliás, somos nós a grande maioria.

É muito difícil explicar o Brasil. É muita cultura, muita história, muita fartura. Mas vamos aproveitar essa oportunidade e ajudar o Brasil a refletir sobre o seu passado e a pensar o seu próprio destino. E, assim, deixarmos de ser um povo sem um sonho comum ou uma ideia de si mesmo, afinal, como afirmava Oswald de Andrade: “A nossa independência ainda não foi proclamada”.

Valéria Maria Pinheiro

Brasília, 22 de fevereiro de 2017.

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Leia mais:

De uma branca para outra: o turbante e o conceito de existir violentamente

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