O Brasil Holandês (1630-1654)

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EVALDO CABRAL DE MELLO nasceu no Recife em 1936 e atualmente mora no Rio de Janeiro. Estudou Filosofia da História em Madri e Londres. Em 1960, ingressou no Instituto Rio Branco e dois anos depois iniciou a carreira diplomática. Serviu nas embaixadas do Brasil em Washington, Madri, Paris, Lima e Barbados, e também nas missões do Brasil em Nova York e Genebra e nos consulados gerais do Brasil em Lisboa e Marselha.

É um dos maiores historiadores brasileiros, especialista em História regional e no período de domínio holandês em Pernambuco no século XVII, assunto sobre o qual escreveu vários livros, como Olinda restaurada (1975), sua primeira obra, Rubro veio (1986), sobre o imaginário da guerra entre Portugal e Holanda, e O negócio do Brasil (1998), sobre os aspectos econômicos e diplomáticos do conflito entre portugueses e holandeses. Sobre a Guerra dos Mascates e a rivalidade entre brasileiros e portugueses em seu Estado natal publicou A fronda dos mazombos (1995). Escreveu também O norte agrário e o Império (1984), O nome e o sangue (1989), A ferida de Narciso (2001) e Nassau: governador do Brasil Holandês (2006), este para a Coleção Perfis Brasileiros, da Companhia das Letras. É organizador do volume Essencial Joaquim Nabuco, da Penguin – Companhia das Letras.

Em 2010, Evaldo Cabral de Mello organizou a obra “O Brasil holandês (1630-1654)” pela Penguin – Companhia das Letras. Na série de posts preparatórios sobre meu curso Cidadania & Cultura Brasileira, no IE-UNICAMP, preparando-me para discutir no primeiro semestre letivo do ano corrente vários filmes nacionais de época com base nas principais Interpretações do Brasil encontradas na historiografia clássica brasileira, cabe uma resenha desta relevante obra.

Inicialmente, dado o desconhecimento geral, vale contextualizar historicamente o assunto através de uma Cronologia factual.

1621 Fim da trégua hispano-neerlandesa dos doze anos e fundação da Companhia das Índias Ocidentais (WIC), sociedade por ações com matriz em Amsterdã.

1624 Armada da Companhia conquista a cidade de Salvador.

1625 Armada hispano-portuguesa recupera a capital da América portuguesa.

1628 Armada da Companhia captura a frota espanhola da prata em Matanzas (Cuba), o que permite à WIC distribuir polpudos dividendos aos acionistas e financiar novo ataque ao Brasil.

1630 Armada da Companhia conquista Olinda e o Recife.

1631 Expedição neerlandesa ergue o forte de Orange na extremidade meridional da ilha de Itamaracá.

1632-4 Depois de ataques pontuais ao interior e ao litoral do Nordeste, o exército da WIC conquista a cidade da Paraíba.

1635 Conquista neerlandesa do Arraial do Bom Jesus e do Cabo de Santo Agostinho, principais bases da resistência hispano-luso-brasileira.

1636 Vitória batava na Mata Redonda. O exército hispano-luso-brasileiro permanece em Alagoas.

1637 O conde João Maurício de Nassau-Siegen assume o governo do Brasil holandês, expulsa o exército inimigo para a margem direita do rio São Francisco e enceta a reativação da economia açucareira e a reorganização do governo da colônia.

1638 Nassau sitia a cidade de Salvador, mas tem de retirar-se devido à insuficiência das forças que trouxera do Recife.

1639 Nassau inicia a urbanização da ilha de Antônio Vaz, no Recife, a qual passará a chamar-se Mauritstadt.

1640 Uma armada hispano-portuguesa, sob o comando do conde da Torre, tenta recuperar Pernambuco, mas é repelida pela esquadra neerlandesa depois de uma sucessão de batalhas navais que tiveram lugar entre Itamaracá e o Rio Grande do Norte. Restauração da independência de Portugal, que se torna assim aliado dos Países Baixos contra a Espanha.

1641 Sergipe é anexado ao Brasil holandês, ao passo que expedições partidas do Recife conquistam o Maranhão, Luanda e São Tomé. Nassau e o governo da Bahia assinam acordo de trégua, ao mesmo tempo em que Portugal e os Países Baixos firmam também o tratado de Haia, estabelecendo uma trégua de dez anos entre ambos os países.

1642 Crise comercial no Brasil holandês. A WIC resolve reduzir seus efetivos na colônia, ignorando a opinião de Nassau. Revolta do Maranhão e de São Tomé contra o domínio holandês. Chega a Salvador o governador-geral Antônio Teles da Silva, encarregado pela Coroa portuguesa de promover uma insurreição no Brasil holandês.

1643 Uma armada da WIC ataca o Chile, mas não logra consolidar a conquista. Nassau é finalmente dispensado do governo do Brasil holandês.

1644 Nassau retorna aos Países Baixos, sendo substituído por junta provisória. Missões procedentes de Salvador estimulam a insurreição luso-brasileira, fazendo os necessários contatos em nome de d. João IV.

1645 Inicia-se a insurreição pernambucana, que em poucas semanas e depois das batalhas das Tabocas e da Casa Forte reduz a presença holandesa no Nordeste ao Recife e às guarnições litorâneas.

1646 Depois de meses de sítio, o Recife é salvo por uma expedição vinda dos Países Baixos, trazendo ajuda militar e o novo governo colegiado do Brasil holandês.

1647 Uma força da WIC ocupa a ilha de Itaparica na entrada do Recôncavo baiano para forçar o governo-geral de Salvador a retirar tropas de Pernambuco. D. João IV envia em socorro à Bahia uma armada sob o comando do conde de Vila Pouca de Aguiar, cuja chegada induz os neerlandeses a abandonarem Itaparica.

1648 Chega ao Recife uma armada do Estado neerlandês, comandada pelo almirante Witte de With. Primeira batalha dos Guararapes, que redunda em vitória luso-brasileira. Uma esquadra lusitana restaura Luanda e São Tomé. Em Portugal, os conselhos da Coroa manifestam-se unanimemente contra a projetada entrega do Nordeste à Companhia das Índias Ocidentais.

1649 Segunda batalha dos Guararapes, nova vitória luso-brasileira. A armada de De With bloqueia Salvador e chega até a entrada da baía da Guanabara. Sem produzir os resultados esperados, regressa aos Países Baixos. Em Portugal, criação da Companhia Geral de Comércio, destinada a defender a navegação entre Lisboa e o Brasil.

1650 O governo neerlandês adota uma estratégia defensiva no Brasil e ofensiva contra Portugal, a qual, contudo, não pôde ser aplicada de imediato devido à crise constitucional e política nos Países Baixos. As armadas anuais da Companhia Geral de Comércio escalam regularmente no Cabo de Santo Agostinho. Uma armada do Parlamento inglês bloqueia a foz do Tejo.

1651-2 Continuação do status quo militar no Brasil. Primeira guerra anglo-neerlandesa. Entendimentos visando à partilha do Nordeste.

1653 Aproveitando o estado de guerra entre a Inglaterra e os Países Baixos, d. João IV autoriza a armada anual da Companhia Geral de Comércio a bloquear o Recife, que, por terra, seria expugnado pelo exército luso-brasileiro.

1654 Fim do Brasil holandês na esteira da capitulação do Recife e das guarnições costeiras. Tratado de Westminster, que pôs fim à primeira guerra anglo-neerlandesa.

1657 Uma armada neerlandesa sob o comando de Van Wassenaar-Obdam bloqueia a foz do Tejo e intima o governo português a devolver o Nordeste. A intervenção dos embaixadores da França e da Inglaterra e a chegada do inverno obrigam o almirante neerlandês a levantar o bloqueio.

1658-61 Começam em Haia as negociações luso-neerlandesas que levaram à assinatura do primeiro Tratado de Paz (1661). Em troca da cessão do Brasil holandês, ele previa o pagamento de pesada indenização pela Coroa portuguesa. Também em 1661 Portugal assina com a Inglaterra um tratado de aliança que lhe permitirá recusar-se a pagar a indenização aos Países Baixos, a pretexto das dificuldades financeiras decorrentes da guerra contra a Espanha.

1669 Tendo a guerra contra a Espanha concluído no ano anterior com o reconhecimento da independência lusitana, o governo inglês pressiona com êxito o governo neerlandês no sentido de retomar as negociações com Portugal que permitiram a assinatura do segundo tratado de paz de Haia pelo qual o governo de Lisboa cede Cochim e Cananor na Índia à Companhia holandesa das Índias Orientais (VOC) e obtém a redução do montante da indenização prevista pelo tratado de 1661, indenização cujo pagamento Portugal só completará nos primeiros anos do século XVIII.

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