Raízes da Crise Monetária que levou o “Brasil Holandês” à Derrocada

invasao-holandesainvasoes-holandesas

Segundo Evaldo Cabral de Mello, no livro “O Brasil Holandês (1630-1654)”, o historiador Pierre Chaunu teve a intuição das raízes da crise que levou o Brasil holandês à derrocada, ao afirmar que “o colapso do preço do açúcar em Amsterdã” destruíra o “muro frágil de contentamento” que foi o interregno nassoviano [referência a João Maurício de Nassau-Siegen (em holandês: Johan Maurits van Nassau-Siegen) (1604-1679), responsável por administrar a região do Nordeste Brasileiro entre 1637 e 1644, conquistado pelos holandeses na terceira década do século XVII].

É certo que, a partir da venda dos engenhos confiscados em 1637, esboçou-se um primeiro momento de euforia comercial que, contudo, não resistiria às perspectivas do ataque naval a ser desfechado pela armada luso-espanhola do conde da Torre nem à queda do preço do açúcar, o qual, ao cabo de um período secular de alta, retraiu-se entre 1638 e 1643. Entre 1634 e 1637, a média anual da libra do açúcar mascavado passara de 0,50 florins a 0,67 florins, mas em 1643 achava-se a 0,31.

As curvas do açúcar branco, o retame e o açúcar refinado nos Países Baixos descrevem o mesmo movimento que se tornou típico de especulação com commodities:

  1. queda pronunciada a partir de 1638,
  2. nível mais baixo em 1643; e
  3. recuperação parcial desde 1645, em função da escassez relativa provocada no mercado de Amsterdã pela insurreição luso-brasileira.

A partir de 1641, um segundo momento de euforia seguiu-se ao fiasco da armada restauradora e à trégua luso-neerlandesa, que criou a falsa expectativa de um prolongado período de paz para o Brasil holandês.

“Era tão próspero o estado das finanças da Companhia no Brasil, dada a invulgar competência demonstrada pelo Grande Conselho que, em 1640 e 1641, o governo adquiriu, por conta do erário público, grandes partidas de açúcar para serem enviadas à Holanda. No Recife e na Cidade Maurícia, construíram-se casas magníficas. Havia luxo e abastança, pois toda a gente considerava-se acobertada com relação ao seu passivo, à vista das promissoras perspectivas de aumentar suas fortunas, em face da situação florescente do comércio e do reerguimento da lavoura.

Infelizmente, porém, não durou muito essa situação de prosperidade, pois já em fins de 1642 e começos de 1643, as coisas se apresentavam de maneira diversa. Esgotados os celeiros da Companhia nas várias expedições levadas a efeito contra Angola etc., e, à míngua de novos abastecimentos provenientes da metrópole, viu-se o Grande Conselho obrigado a lançar mão das importâncias devidas à Companhia, a fim de atender ao pagamento das guarnições e dos funcionários, exigindo, portanto, de seus devedores pagamento pronto […]”.

Além disso, os comerciantes da metrópole passaram a exigir de seus representantes e comissários no Brasil importantes somas, em pagamento do que lhes haviam fornecido. Obrigados a remeter às suas matrizes na Holanda todo o dinheiro de que podiam dispor, os negociantes locais passaram a experimentar grande escassez de numerário, o que certamente haveria de afetar de maneira profunda o movimento geral.

Tendo-se repetido periodicamente essa situação, verificou-se finalmente tamanha premência de dinheiro como dificilmente se poderá fazer ideia. Muitos dos senhores de engenho, faltos de recursos com que satisfazer seus débitos nos respectivos vencimentos, viram-se na contingência de tomar dinheiro a juros de 3% a 4% ao mês para saldá-los. Isso reduziu a maioria deles a uma tal penúria que, em pouco tempo, se acharam em situação de não poder pagar nem capital nem juros.

Membros do alto governo em viagem pelo Sul de Pernambuco tentavam cobrar as dívidas dos senhores de engenho. Mas só ouviam gerais queixas dos senhores de engenho sobre a falta de negros, por ter morrido grande número deles, de tal modo que todos os engenhos dificilmente poderiam começar ou continuar a trabalhar.

A maior parte dos senhores de engenho queixava-se de que os negros que desembarcaram eram comprados em leilões pelos judeus do Recife, aos quais, se quiserem comprá-los, teria de oferecer altos preços, o que não lhes era possível fazer. Diziam ainda que os judeus, sabendo que os senhores de engenho tinham necessidade deles, valorizavam-nos tanto que lhes parecia melhor não fazer trabalhar os engenhos do que adquiri-los a tão altos preços.

Na explicação da crise comercial, fonte primária recua até os anos de 1638-9, quando muita gente, principalmente os portugueses do Brasil holandês, havia assumido compromissos excessivos para a aquisição de engenhos, canaviais, escravos e outras utilidades. De fato, chegaram a comprar negros à razão de trezentas e mais peças de oitavo e a pagar preços os mais absurdos por qualquer mercadoria de que tivessem necessidade. Compravam armazéns inteiros sem se dar conta de como poderiam pagá-los.

Assim agiam os portugueses na esperança de vitórias decisivas das grandes armadas que sabiam estar sendo aprestadas na Espanha para reduzir o Brasil à obediência, com o que imaginavam libertar-se de suas dívidas. Ignorando os comissários tais intenções e cegos ante a perspectiva de gordos lucros, continuaram a vender aos portugueses sem restrições.

Entretanto, desfeitas as esperanças dos lusos, viram-se estes ante a necessidade de honrar seus compromissos. Contudo, novos sortimentos chegavam da Holanda e novas compras faziam os portugueses, amontoando dívidas sobre dívidas até que, devido à impontualidade dos pagamentos, sentiram estes seus créditos escassear também com os comerciantes, que passaram a exigir a liquidação de seus débitos.

O comércio do interior, premido pelos comissários e atacadistas que recebiam tais mercadorias de suas matrizes na Holanda, foi forçado a solicitar um acerto de contas dos portugueses aos quais havia vendido a crédito. Por outro lado, como os lusos só haviam feito tais compras com a intenção de as não pagar, o comércio do interior, obrigado a saldar suas contas com o do Recife, era obrigado a cerrar as portas, já que nada recebia dos portugueses.

Assim, devido à imprudência e à inépcia de tais comissários, aos quais os exportadores da metrópole haviam confiado seus haveres, grande foi a confusão resultante e enormes os riscos para os segundos. Quase todas as transações da época passaram para os tribunais e para as bancas dos advogados, o que ainda mais concorria para agravar a derrocada geral, dado o elevado custo do processo judicial no Brasil.

Depois, quando já se tinha sentença e mandado de execução contra os devedores, o difícil era descobrir onde e como cumpri-lo, pois a maioria dos portugueses reclamava a proteção real. Não conseguindo obtê-la [do governo holandês], passavam os lusos a viver incógnitos, principalmente os que não possuíam terras ou bens. Mesmo quando tinham propriedades não era fácil descobrir seus paradeiros.

Ademais, se os credores executavam e recebiam propriedades agrícolas, viam-se na contingência de as arrematar eles próprios e mudaram-se para o interior a fim de administrá-las, circunstância essa altamente inconveniente para os comerciantes cujas atividades exigiam sua presença constante no Recife.

Quando os devedores eram presos, ficavam no cárcere por conta dos credores. Com o correr do tempo, tais despesas montavam a somas tais que os credores eram os primeiros a solicitar o livramento dos prisioneiros e com eles fazer o melhor arranjo possível. 🙂

Como se não bastassem esses contratempos, vários outros vieram a ele se reunir, haja vista a grande mortalidade entre negros e brasilianos, vítimas de uma moléstia infecciosa, endêmica entre os nativos, chamada bexiga e semelhante à varíola europeia. Esses escravos, em sua maioria, eram adquiridos à razão de duzentas ou trezentas peças de oitavo, e, consequentemente, sua perda acarretava a ruína dos lavradores, que ainda tinham que se haver com as pragas e inundações frequentes, causadoras de consideráveis danos aos canaviais.

Essa confusão comercial provocou não raros incidentes entre os homens de negócio que, por falta de pagamento, atiravam-se uns aos outros nas prisões, sem contemplação alguma, tratando cada um de garantir seus créditos em primeiro lugar, por meios clandestinos e com prejuízo para os outros.

Chegavam a oferecer abatimentos consideráveis e vantagens aos que se prestassem a sonegar mercadorias ou transferir ilicitamente seus bens. Tais imoralidades foram largamente fomentadas por indivíduos de má-fé, em detrimento do governo.

Muitos foram os que, por imprudência ou incapacidade, perderam seus haveres, atirando a culpa sobre a regência [isto é, a junta que substituíra Nassau] ou as cortes de justiça, na esperança vã de que aquilo que haviam perdido por imprevidência e desídia lhes fosse restituído pelo Tesouro. E quando acontecia de uma pessoa dever ao mesmo tempo à Companhia e a particulares, surgia grande celeuma quanto à preferência na liquidação.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s