Taxa de Juros Real durante Desinflação 

No Relatório de Inflação de Março 2017, divulgado pelo Banco Central do Brasil, outro boxe muito interessante, de certa forma, falseia aquela hipótese levantada por André Lara Resende no debate recente sobre a elevada taxa de juro no Brasil, como fosse ela que sustentasse a alta taxa de inflação.

O boxe tem como objetivo analisar o comportamento da taxa básica de juros real durante desinflações. Para esse fim, analisa-se o comportamento da taxa Selic real durante episódios anteriores de desinflação no Brasil, complementando-se com a interpretação de tais movimentos no contexto de um Modelo Dinâmico Estocástico de Equilíbrio Geral (DSGE).

O Gráfico 1 mostra a evolução da inflação, medida pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em doze meses, e a taxa Selic nominal desde o final de 2001. Podem-se identificar cinco períodos de redução da inflação associados a movimentos imediatamente anteriores de aperto monetário (áreas hachuradas).

Como pode ser observado, em consonância com a operação de um regime de metas para a inflação, as pressões inflacionárias foram enfrentadas com aumentos da taxa Selic, que resultaram em redução da inflação. Na mesma linha, à medida que as pressões inflacionárias e as expectativas de inflação foram se arrefecendo, a taxa Selic entrou em trajetória de queda.  Continue reading “Taxa de Juros Real durante Desinflação “

Depoimento de Elena Landau sobre o Modelo Neoliberal da Privatização

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Em entrevista concedida aos pesquisadores Gloria Maria Moraes da Costa (coordenadora), Hildete Pereira de Melo e Victor Leonardo de Araújo, no livro “BNDES: Entre o Desenvolvimentismo e o Neoliberalismo (1982-2004)” (Rio de Janeiro: CICEF, 2016), quando lhe perguntam se o BNDES, além de ser um banco presidencialista, no qual o seu presidente teve sempre muito poder, pode também ser caracterizado como o banco dos presidentes da República, Elena Landau afirma que ”a criação do BNDES foi como um braço do Estado, mas cumpriu parte dessa missão. Com o fim do modelo de substituição de importações e do protecionismo, sua forma de atuação também tem de mudar”.

É como fosse um pêndulo político. “Começa no início dos anos 1990 um modelo menos intervencionista, mais liberal, pró-competição, com maior abertura da economia, logo, o BNDES continuou a ser um banco de desenvolvimento, mas com uma atuação distinta. Hoje, novamente, o governo opta por um modelo fechado, protecionista, com subsídio e intervencionismo novamente. Escolhe-se o presidente de acordo com a política que se quer implementar no Banco”.

Reconhece que o projeto do banco é o de desenvolvimento, isso não quer dizer emprestar a um grupo seleto de empresas. “Essa foi uma opção do governo atual. Não gosto do uso de termos como desenvolvimentistas, que tem no Luciano Coutinho sua expressão, nem gosto do termo neoliberal, que usam para classificar a atuação na época do Fernando Henrique. São caricaturas. O BNDES é e sempre será um banco de desenvolvimento, está no nome. Mas o grau de intervenção e a forma de atuação acabam refletindo a própria noção do papel do Estado na economia”. Continue reading “Depoimento de Elena Landau sobre o Modelo Neoliberal da Privatização”

Consequências do “Liberou Geral” Levyano: Enriquecimento de Poucos e Empobrecimento de Muitos

 O Banco Central do Brasil no Relatório de Inflação de Março 2017 apresenta em um boxe a Decomposição da Inflação de 2016.

Com o alarmismo artificial a respeito da “explosão da dívida bruta” (veja quadro comparativo acima), colocou-se como urgente e prioritário um ajuste fiscal draconiano a partir de 2015. Cometeu-se, então, o estelionato eleitoral que levou à queda de apoio popular ao governo Dilma, devido à volta da Velha Matriz Neoliberal, sob a pressão e os aplausos dos colunistas do PIG (Partido da Imprensa Golpista).

Mas a Decomposição da Inflação de 2015 e 2016 comprova a responsabilidade da política econômica levyana no “liberou geral” dos preços administrados. Provocou um choque tarifário que resultou em choque inflacionário e choque cambial, pela fuga de capitais de um ambiente de locaute empresarial golpista.

O choque de juros foi o único instrumento usado para “zerar tudo”, isto é, provocar a Grande Depressão, a maior da história econômica brasileira. O governo golpista, temeroso de não se salvar da Operação Lava-Jato com base no apoio da direita conservadora, manteve durante longo prazo a política de juros disparatados, que levou ao maior enriquecimento com renda do capital financeiro e empobrecimento com renda do trabalho.

Restauração do Poder da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes

Campos Salles foi eleito, em 1898, com 174.578 votos contra 16.534 dados ao candidato da oposição, o paraense Lauro Sodré. Entre outras dificuldades, pegou o Brasil sem dinheiro para honrar seus compromissos internacionais.

Como ministro da Fazenda do governo Campos Salles (1898-1902), Joaquim Murtinho tinha a difícil missão de organizar as finanças públicas e administrar os grandes desequilíbrios provocados pelas políticas desastradas de seu antecessor Rui Barbosa, que culminaram no Encilhamento, e pela inação dos ministros-juristas que o sucederam.

A Crise do Encilhamento foi uma bolha econômica, provocada por excesso de crédito, que ocorreu no Brasil, entre o final da Monarquia e o início da República, e estourou durante o governo provisório de Deodoro da Fonseca (1889-1891), desencadeando então uma crise financeira.

Os então Ministros da Fazenda, Visconde de Ouro Preto e Ruy Barbosa, sob a justificativa de estimular a industrialização no País, adotaram uma política baseada em bancos emissores de moeda lastreada em títulos de dívida pública, ou seja, possibilitaram créditos livres a supostos empreendedores, garantidos por farta emissão monetária. Estes lançavam ações de empreendimentos fictícios adquiridas a crédito por investidores incautos que se beneficiavam de profecias autorrealizáveis. Continue reading “Restauração do Poder da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes”

Depoimento de Elena Landau sobre a Privatização dos Bancos Estaduais

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Em entrevista concedida aos pesquisadores Gloria Maria Moraes da Costa (coordenadora), Hildete Pereira de Melo e Victor Leonardo de Araújo, no livro “BNDES: Entre o Desenvolvimentismo e o Neoliberalismo (1982-2004)” (Rio de Janeiro: CICEF, 2016), Elena Landau recupera um conhecimento histórico relevante. Com o Plano Real, os bancos estaduais ficaram proibidos de financiar os Tesouros estaduais, e, em decorrência, o processo de desestatização atingiria também a eles, pois seria necessário que vendessem ativos considerados desnecessários.

As mudanças acompanhavam:

  1. a entrada no programa de privatização de setores de atividades distintos, especialmente serviços públicos, e
  2. a elevação dos preços dos ativos.

Com essa nova regra fiscal, tornou-se necessário que a venda de ativos pudesse ser administrada pelo setor privado, de modo a gerar recursos para atividades mais típicas dos estados. A Conta Movimento federal tinha sido extinta, e era necessário acabar com as estaduais também. Com isso, teve início uma outra etapa, pois antes o programa de privatização, o PND, era concentrado na esfera federal, e passou a ser um programa nacional, abrangendo também estados e municípios. Isso originou uma nova função dentro da estrutura que eu dirigia no BNDES, uma estrutura que foi criada especificamente para dar apoio aos estados e municípios. Continue reading “Depoimento de Elena Landau sobre a Privatização dos Bancos Estaduais”

Primeiro Governo Civil na Primeira República

Laurentino Gomes, no livro “1889”, avalia que o caos dos primeiros anos da República fez crescer entre a elite civil a constatação de que era preciso afastar os militares da política o mais rapidamente possível. “O militarismo, governo da espada pela espada, arruína as instituições militares”, escreveria o baiano Rui Barbosa em um prognóstico secular do que também levaria ao fim do regime ditatorial militar em 1984: a disputa interna intra corporis entre a linha moderada e a linha dura das Forças Armadas ameaçando a quebra da hierarquia militar.

“O militarismo está para o Exército como o fanatismo para a religião, como o charlatanismo para a ciência, como o industrialismo para a indústria, como o mercantilismo para o comércio, como o cesarismo para a realeza, como o demagogismo para a democracia, como o absolutismo para a ordem, como o egoísmo para o eu”.

Em junho de 1893, com o país ainda às voltas com a Revolução Federalista e a Revolta da Armada, fundou-se no Rio de Janeiro, sob a liderança do paulista Francisco Glicério [nome da principal avenida do centro de Campinas], o Partido Republicano Federal, resultante da fusão do Partido Republicano Paulista com clubes republicanos estaduais. A data marca o início do esforço para colocar ordem na República sob a liderança civil. Continue reading “Primeiro Governo Civil na Primeira República”

Interpretações do Brasil da Primeira República: Restauração da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes

O autor de Retrato do Brasil, publicado em 1928, Paulo da Silva Prado, era um “bem-nascido” em tradicional família de grandes cafeicultores, mas se tornou membro da casta dos sábios-intelectuais. Insurge-se contra a visão que apresentava o Brasil como um paraíso de riquezas e bondades inesgotáveis, quase sem “vícios”, ocupado por um povo pacato e trabalhador, totalmente dedicado a construir uma pátria predestinada a ser perfeita – uma configuração quase épica a la Por que ufano do meu País, publicado por Afonso Celso em 1900.

Paulo Prado desejava entender e sobretudo expor para o grande público os entraves e dilemas que praticamente condenavam o País a uma situação parecia não se distanciar muito da que havia predominado na antiga colônia portuguesa. Incomodava-o que os brasileiros não percebessem o lado problemático da sua formação histórica associado ao passado colonial e à escravidão e banalizassem romanticamente as dificuldades que lhe travavam o progresso.

O Brasil, no fim da década dos 20, era um país em busca de sua identidade nacional.  Enfrentava o cenário composto pela decadência irreversível da velha aliança entre a casta de guerreiros e a casta dos aristocratas governantes, na maior parte proprietária fundiária, que fizera a Proclamação da República, mas já estava desgastada pelo “jogo de cartas marcadas” da “aliança café-com-leite” e dissidência tenentista.

O passado colonial ainda impunha uma dependência de trajetória contra a qual se insurgiam sinais de contestação e movimentação rebelde como, no ano do centenário da Independência, a Semana de Arte Moderna, a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o movimento tenentista. Continue reading “Interpretações do Brasil da Primeira República: Restauração da Casta dos Aristocratas Fundiários Governantes”