Adeus ao Proletariado

adieux-ao-proletariatAndré Gorz publicou a primeira edição francesa de Adieux ao Prolétariat em 1980. Há uma tradução brasileira publicada em 1982 pela Editora Forense Universitária. Como estamos em pleno vigor da 4a. Revolução Industrial, embora esse autor se refira à 3a. Revolução Industrial, parece-me que sua tese principal ganhou atualidade. Vou resenhar as ideias originais apresentadas nesse livro vanguardista que se tornou um clássico ao ser lido por leitores das sucessivas gerações.

O tema central é a liberdade do tempo e a abolição do trabalho. Este se refere ao que apareceu com a relação de produção surgida entre capitalistas e assalariados. Designa uma atividade assalariada que se exerce:

  1. por conta de um terceiro;
  2. em troca de um salário;
  3. segundo formas e horários fixados por aquele que paga;
  4. visando fins que não são escolhidos por quem o executa.

adeus-ao-proletariadoAtividade obrigatória, heterodeterminada, heterônoma – sujeita à vontade de outrem ou regulado por leis de conduta vindas do exterior –, o trabalho é percebido pela maioria dos que o procuram e dos que o “têm” como uma venda de tempo, cujo objeto pouco importa. “Tem-se” um bom ou um mau trabalho antes de mais nada conforme o que se ganhe; só depois é que se pensa na natureza das tarefas e nas condições de sua realização.

O trabalho não é a liberdade porque, para o assalariado como para o patrão, o trabalho é apenas um meio de ganhar dinheiro e não uma atividade com o fim em si mesma. A liberdade necessária ao artesão é negada e reprimida pela organização coletiva do trabalho. Por isso, é necessário que nos liberemos no trabalho e não somente do trabalho. Abolição do trabalho e abolição do assalariamento passaram ser associada pelo movimento trabalhista desde quando existe este regime.

Entre trabalho assalariado e atividade autodeterminada existe a mesma diferença que entre valor de troca e valor de uso. Trabalhar por um salário é trabalhar para poder comprar à sociedade em seu conjunto o tempo que se lhe forneceu. A atividade autodeterminada, em contrapartida, é em si mesma seu próprio fim quando se trata de atividades estéticas ou artísticas.

Quando se inclui entre as atividades produtivas, a atividade autodeterminada cria objetos destinados ao consumo ou à utilização as próprias pessoas que a produzem ou do consumidor direto que lhes está próximo. A prestação de um serviço se define pela presença do consumidor em contato direto com o produtor.

André Gorz afirma que “a abolição do trabalho só é liberação quando permite o desenvolvimento das atividades autônomas”.

Abolir o trabalho não significa, por consequência, abolir:

  1. a necessidade do esforço,
  2. o desejo da atividade,
  3. o amor à obra,
  4. a necessidade de cooperar com os outros e de se tornar útil à coletividade.

Ao contrário, a abolição do trabalho é apenas a supressão progressiva, e que jamais será total, da necessidade em que estamos de comprar nosso direito ao salário, alienando nosso tempo, ou seja, nossa vida.

Abolir o trabalho e liberar o tempoliberar o tempo para que os indivíduos possam se tornar senhores de seu corpo, do emprego que fazem de si mesmo, da escolha de suas próprias atividades, de seus objetivos, de suas obras – são exigências que o “direito à preguiça” deu uma tradução infelizmente reducionista.

A exigência de “trabalhar menos” não tem por sentido e por finalidade “descansar mais”, mas “viver mais”, o que quer dizer: poder realizar por si mesmo muitas coisas que o dinheiro não pode comprar e mesmo uma parte das coisas que ele atualmente compra.

A abolição do trabalho é um processo em curso e que parece acelerar-se com a 4a. Revolução Industrial. A automatização e/ou a robótica irão suprimir, logo, milhares de empregos, a menos que haja uma revisão profunda:

  1. da duração da jornada de trabalho,
  2. das finalidades da atividade e de sua natureza.

O dogma keynesiano de que é possível se restabelecer o pleno-emprego através do crescimento econômico está sendo falseado pela realidade da revolução tecnológica atual que elimina ocupações e não gera tantas substitutas. A alternativa apresentada por Gorz está entre as duas formas de gerir a abolição do trabalho:

  1. a que leva a uma sociedade do desemprego e
  2. a que leva a uma sociedade do tempo liberado.

A sociedade do desemprego é a que vem progressivamente se instalando sob nossos olhos:

  1. de um lado, uma massa crescente de desempregados permanentes;
  2. de outro lado, uma aristocracia de trabalhadores protegidos;
  3. entre os dois, um proletariado de trabalhadores precários, que cumprem as tarefas menos qualificadas e mais ingratas.

A sociedade do tempo liberado baseia-se no princípio de trabalhar menos para todos trabalharem e ter mais atividades por conta própria. O trabalho socialmente útil, distribuído por todos que desejam trabalhar, deixa de ser a ocupação exclusiva ou principal de cada um. A ocupação principal pode ser uma atividade ou um conjunto de atividades autodeterminadas, levadas a efeito não por dinheiro, mas em razão do interesse, do prazer ou da vantagem que nelas se possa encontrar.

A necessidade de dissociar o “direito a um emprego” do “direito a um rendimento” já era frisada nos primórdios da 2a. Revolução Industrial (a do taylorismo) e ganha oportunidade histórica agora, durante a 4a. Revolução Industrial (a dos serviços industriais)!

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