Grande Depressão Continua Sem Reação do Governo Golpista

desempenho-da-atividade-2016ibc-br-2016juros-nominais-e-reais-jan-2017dolar-comercial-fev-2017gasto-contido-em-jan-2017freio-nos-gastos-municipais-em-2016queda-do-investimento-estatal

Com queda de 0,89% do Produto Interno Bruto entre o terceiro e o quarto trimestres, na série com ajuste sazonal, a atividade encerrou 2016 com redução de 3,6%, conforme o Monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas, depois de encolher 3,8% em 2015 com a volta da Velha Matriz Neoliberal comandada por Joaquim Levy. Os dois anos de depressão sem precedentes históricos arrastaram o produto de volta ao nível de 2011.

Sergio Lamucci (Valor, 22/02/17) informa que o volume investido pelas estatais federais e pela União encolheu com força nos últimos três anos, puxado especialmente pela redução das despesas da Petrobras. Em 2013, os gastos com investimentos do governo federal e das estatais do setor produtivo totalizaram R$ 173,3 bilhões, o equivalente a 3,25% do PIB, bem acima dos R$ 118,8 bilhões, ou 1,9% do PIB, registrados em 2016.

A queda mais expressiva foi das despesas de capital do grupo Petrobras, que recuaram de quase R$ 100 bilhões, ou 1,86% do PIB, em 2013 para R$ 47,8 bilhões, ou 0,76% do PIB, segundo números do Ministério do Planejamento. Isso ajuda a explicar a forte queda da formação bruta de capital fixo (medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e equipamentos, construção e pesquisa) em 2015 e 2016, um dos motivos para a retração da economia nos últimos dois anos.

A política de tecnocrata neoliberal, dirigindo a Petrobras, coloca toda prioridade nela continuar a reduzir o seu nível de endividamento. Isto indica que o investimento da empresa deverá seguir baixo neste ano e provavelmente também no próximo ano eleitoral. No caso da União, o teto de gastos sugere que as despesas de capital também tendem a ser contidas, para que o limite seja cumprido.

Superendividada, às voltas com as investigações da Lava-Jato, a Petrobras reduziu expressivamente o volume investido nos últimos anos, num cenário marcado também pela queda dos preços do petróleo. Em fase de reestruturação radical, a empresa tem vendido ativos. Essa combinação levou a uma situação atípica no ano passado, fazendo a Petrobras investir menos do que a União, que destinou o equivalente a 1,03% do PIB para gastos de capital em 2016. Em 2009, 2010 e 2013, por exemplo, o montante investido pela estatal petroleira ficou na casa de 1,9% do PIB, muito acima do 1% a 1,2% do PIB dispendidos diretamente pelo governo federal.

Para bancar volumes elevados de investimento até 2013, a empresa se endividou muito, como diz o analista de energia da Tendências Consultoria Integrada, Walter De Vitto. Ele nota que, para mudar esse quadro, a nova gestão da empresa tem adotado uma política agressiva de redução dos níveis de endividamento, o que ajuda a entender a retração dos recursos investidos pela Petrobras. Além disso, as investigações no âmbito da operação Lava-Jato contribuíram para esse movimento, diz ele.

Coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV), Armando Castelar Pinheiro diz que a Petrobras tinha se endividado muito e investiu demais no começo da década. Alguns dos projetos saíram por valores muito acima do planejado, caso da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, que exigiu cerca de dez vezes mais do que o orçado inicialmente, um dos exemplos de má gestão e uso político da empresa.

“É um projeto com retorno absurdamente baixo, se é que chega a ser positivo”, afirma Castelar, citando também os recursos destinados à construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro. Ele também destaca a eclosão do escândalo do petrolão como um dos motivos para o recuo dos gastos de capital da estatal nos últimos três anos.

A forte queda dos preços do petróleo – ocorrido em 2014 e 2015 – completou o quadro adverso para a companhia. Isso reduziu a lucratividade das empresas do setor. Nos últimos meses, as cotações da commodity se recuperaram, mas ainda estão longe dos mais de US$ 100 o barril registrados em 2013. O barril do Brent tem sido negociado acima de US$ 55.

O grupo Eletrobras também reduziu significativamente investimentos depois de 2013. A diferença é que a estatal do setor elétrico investe muito menos que a gigante do petróleo. Os gastos de capital da empresa caíram de R$ 7,3 bilhões, ou 0,14% do PIB, em 2013 para R$ 4,2 bilhões, ou 0,07% do PIB, em 2016.

Já os investimentos da União ainda cresceram de 2013 para 2014. A queda forte ocorreu em 2015, com a volta da Velha Matriz Neoliberal, quando caíram 28%, de R$ 77,5 bilhões, o equivalente a 1,34% do PIB, para R$ 55,5 bilhões, ou 0,93% do PIB. A baixa reflete o corte expressivo das despesas discricionárias (aquelas sobre as quais o governo tem maior controle) promovida pelo ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, no primeiro ano do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Em 2016, houve uma alta de quase 17% no investimento acumulado do ano, para R$ 64,925 bilhões, ou 1,03% do PIB. O aumento, porém, se deu basicamente devido à forte expansão do pagamento de restos a pagar em dezembro. O governo aproveitou o dinheiro do programa de regularização de ativos no exterior, a chamada repatriação, e decidiu quitar uma parcela maior de compromissos pendentes de exercícios anteriores.

De janeiro a novembro de 2016, contudo, o valor investido pela União foi menor do que no mesmo período do ano anterior. Ele totalizava R$ 47 bilhões, 5% a menos que em igual intervalo de 2015. E, embora o total investido em 2016 tenha crescido em relação ao ano anterior, mesmo assim o montante (1,03% do PIB) ficou consideravelmente abaixo do 1,34% do PIB de 2014.

Para o economista Nelson Marconi, da Escola de Economia de São Paulo (EESP) da FGV, o investimento da União é um forte candidato a também ser contido daqui para frente, como forma de se tentar cumprir o projeto que limita o crescimento de despesas do governo federal.

Como os gastos com aposentadorias ainda deverão crescer acima da inflação — mesmo com a aprovação da reforma da Previdência — e os dispêndios com saúde e educação têm que acompanhar no mínimo a variação do índice de preços do ano anterior, os investimentos tendem a ficar sujeitos a cortes, avalia ele.

Castelar diz que isso vai depender do processo político na hora de definir o orçamento. “O país é muito carente de investimento em infraestrutura”, afirma ele, para quem haverá uma “briga boa” para decidir se sobrará mais dinheiro para o investimento da União, em um cenário em que os gastos federais não poderão subir além da variação da inflação do ano anterior.

Na verdade, não é uma “briga boa” decidir entre investimentos em infraestrutura e gastos em educação e saúde, sem falar em Previdência Social e segurança pública. É uma estupidez “amarrar cachorro com linguiça”… Isto será percebido mais adiante.

Quanto às perspectivas para os investimentos da Petrobras, eles deverão se estabilizar num nível baixo neste ano e no próximo. No plano de negócios da empresa, há a meta ambiciosa de reduzir a relação entre a dívida líquida e os lucros antes de impostos, juros, depreciação e amortização (Ebitda) dos 5,3 registrados em 2015 para 2,5 em 2018. A tendência é que, depois do processo de ajuste e desalavancagem da empresa, os investimentos da estatal petrolífera não fiquem nem tão baixos como em 2016, mas nem tão altos como no começo da década.

O tombo dos investimentos da Petrobras e, em menor da medida, da União contribuiu para o recuo da formação bruta de capital fixo nos dois últimos anos. O setor de petróleo e gás tem um grande encadeamento na economia, sendo um dos segmentos com maior peso, assim como o automobilístico, o de alimentos e o químico.

A Petrobras não deverá voltar a investir quase 2% do PIB, mas deve aumentar em relação aos níveis registrados em 2016. Há bastante espaço para gastos em extração e produção, considerando ainda como especialmente importantes as despesas feitas pela companhia no desenvolvimento de novas tecnologias, por causa do impacto positivo sobre o resto da economia.

Observe também que, iustamente quando o Banco Central (BC) intensificou os cortes na taxa básica de juros, o sistema bancário passou a cobrar mais caro pelos empréstimos a empresas e famílias em janeiro de 2017, em meio a uma nova retração no estoque de crédito. Os juros médios dos empréstimos bancários subiram de 32% ao ano, em dezembro, para 32,8% em janeiro, depois de terem caído por dois meses seguidos. Ao mesmo tempo, o BC acelerava de 0,25 ponto percentual para 0,75 ponto o tamanho do corte na taxa Selic – decisão que foi seguida de comunicados dos grandes bancos anunciando reduções nas taxas.

A subida dos juros se deu apesar de uma nova retração nesse mercado. Em janeiro de 2017, o estoque de crédito seguiu em contração e voltou ao patamar de dois anos atrás, ficando em R$ 3,073 trilhões. A baixa foi de 1% em relação ao mês anterior e de 2,4% na comparação com janeiro de 2016.

De fato, os juros subiram nos meses de janeiro em todos os anos desde 2011, início da série estatística. Em fevereiro, costumam devolver pelo menos parte dessas altas. Em quase todo esse período, porém, a economia sofreu apertos monetários – com exceção de janeiro de 2012 e de 2017. Esse padrão não se verifica com as taxas de juros em operações de crédito com recursos direcionados. O Copom vem cortando a Selic desde outubro. A taxa, que então era de 14,25%, caiu a 12,25% ao ano. Essa atitude foi tarde demais! Agora, está em busca do tempo perdido!

Hoje, os únicos setores que não estão com capacidade ociosa são os de óleo e gás, agricultura e infraestrutura. Eles é que podem puxar a recuperação da economia.

Na indústria, a capacidade ociosa é de cerca de 40% e, na área de caminhões e ônibus, responsável por 60% dos financiamentos do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), a ociosidade chega à casa dos 50%. Portanto, não há demanda por financiamentos para projetos industriais.

Na comparação entre as consultas e os desembolsos do BNDES, que dá a dimensão dos pedidos frente à liberação dos recursos, o banco está desembolsando financiamentos de projetos cujas consultas foram feitas há 2 ou 3 anos. O processo de avaliação e aprovação de projetos pelo BNDES é muito lento. Atualmente leva cerca de 600 dias, em média.

De junho de 2016, quando a tecnocrata do governo temeroso assumiu o comando do banco, um longo tempo tem sido dispendido para corrigir problemas de antigas concessões de serviços públicos. Viracopos, Galeão e Concer (rodovia entre Rio e Juiz de Fora) estão com problemas jurídicos, por causa da Lava-Jato, e de crédito pela situação das empresas.

Essa é a parte mais aflitiva da história, pois está atrasando demais a liberação dos financiamentos de longo prazo do BNDES para as concessões e deixando as empresas em grandes dificuldades, mesmo depois de realizados os acordos de leniência com o Ministério Público. Ainda não há acordos de leniência e esse é um dos alegados problemas.

Os acordos feitos até agora foram assinados com o MPF. Faltam, porém, assinar os termos administrativos com os órgãos de controle (CGU, AGU e TCU). Isso as empresas estão fazendo gradativamente. Mesmo depois de homologados, porém, os problemas de crédito não estarão resolvidos e, em alguns casos, vão exigir mudança do controle da companhia ou alongamento dos prazos das concessões.

Acordos de leniência são condição importante para tocar os projetos, mas não suficientes. Qualquer banco, para emprestar, tem que ver a capacidade de pagamento do tomador do crédito. Razão pela qual em alguns casos será necessário mudar o controlador. Daí, com dirigentes de banco que não querem arriscar seus CPFs, esse crédito de confiança jamais sairá…

O Galeão é um exemplo do nível de problema que se enumera: o faturamento não paga a outorga. O consórcio que arrematou o aeroporto do Rio tem que pagar a outorga anual e desde a volta da Velha Matriz Neoliberal, em 2015, a economia deteriorou-se, caiu o número de passageiros, gerando uma combinação de problemas. As empresas pedem o reequilíbrio economico-financeiro do contrato junto à agência reguladora. A solução ainda não saiu. O senso de urgência, no setor público, é relativo.

Os setores que podem impulsionar a economia são a agricultura e a infraestrutura. No ano passado — ano de mais um Golpe de Estado no Brasil –, o BNDES aplicou apenas R$ 17 bilhões em projetos de investimento na agricultura e quase nada em infraestrutura.

Parte da culpa de toda essa Grande Depressão é do próprio “pato amarelo”, i.é, dos industriais da FIESP que estão colhendo o que plantaram

4 thoughts on “Grande Depressão Continua Sem Reação do Governo Golpista

  1. ok…..o negócio agora é jogar a culpa no Levy……assim, o Governo Dilma não tem nada a ver com a degringolada que estamos passando desde 2013

  2. Justamente me baseio nos números. Analisando as derivadas desses números, ou melhor, para ser mais preciso a segunda derivada (condições de segunda ordem) que mede a aceleração dos indicadores, vemos claramente as mudanças de tendências a partir de 2013. Levy entrou num momento onde as curvas ja tinham acelerações negativas. Alem da matemática, é intuitivo que haja retardo nos resultados apresentados de 2015.

    1. Então, Joaquim Levy nada fez? Não deu choques tarifário e cambial que se apresentaram como inflacionários com o IPCA indo de 6,5% a 10,7% no ano? Não combinou corte de gastos fiscais com política monetária ainda mais dura com juros atingindo 14,25% aa em julho de 2015 e permanecendo durante 15 meses? Não paralisou a economia brasileira, registrando uma Grande Depressão já em 2015, aprofundada em 2016?!

      O problema dos neoliberais é que adotaram um falso discurso alarmista, desde 2013, para tirar proveito na eleição de 2014. Não conseguiram convencer e vencê-la. Apelaram então para a pressão empresarial, inclusive via locaute (paralisia em decisões), e o golpe parlamentarista, cooptando o PMDB para aprovar “pautas-bombas”. Tudo isso sob incentivo da mídia golpista e da direita nas ruas.

      Agora, querem reinterpretar essa página vergonhosa da história brasileira de maneira favorável a si, culpando o passado pelas mazelas do estelionato eleitoral seguido de golpe na democracia eleitoral. Sem conseguirem medir e demonstrar a defasagem temporal, brigam contra os números do presente!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s