4a. Revolução Industrial: Sociedade do Desemprego ou Sociedade do Tempo Liberado?

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Uma época chega a seu término: a época em que o trabalho humano era fonte de toda riqueza. Começou a 4a. Revolução Industrial. Rompeu-se o vínculo entre crescimento do investimento e crescimento do emprego. Nem o protecionismo do mercado interno nem a retomada do investimento, nada disso conseguirá reduzir o desemprego tecnológico. Cada vez mais será difícil alcançar o “pleno emprego” com políticas keynesianas ou de outras extrações teóricas. Com as neoliberais, a taxa de desemprego só aumenta!

A questão-chave contemporânea é se a 4a. Revolução Industrial levará à Sociedade do Desemprego ou à Sociedade do Tempo Liberado? Vai liberar o ser humano do trabalho mutilante ou vai mutilá-lo ao limite, reduzindo-o à inatividade forçada? Levará à uma Era em que trabalharemos cada vez menos, dispondo de uma massa crescente de riqueza melhor distribuída, para mantermos nosso poder aquisitivo? Condenará uns ao desemprego e outros à hiper produtividade?

Face a tais cenários, a melhor saída, apontada por André Gorz, em Adieux ao Prolétariat (Rio de Janeiro; Editora Forense Universitária; 1982), é a redução progressiva da jornada de trabalho, evidentemente, sem que isso represente uma perda do poder aquisitivo.

Os novos objetivos das lutas sociais e políticas são:

  1. trabalhar menos, produzindo mais,
  2. distribuir melhor os frutos do progresso técnico,
  3. criar um novo equilíbrio entre tempo de trabalho obrigatório e tempo livre disponível para trabalho criativo,
  4. permitir uma vida mais tranquila e atividades mais recompensadoras.

No momento mesmo em que a automatização permite produzir mais em menor número de horas de trabalho, esgota-se a necessidade de produção crescente sem delimitação. A utilidade do crescimento, se ele não gera mais ocupações como antes, torna-se duvidosa em vários domínios, tamanhos são os desperdícios que os níveis de oferta sem demanda já produzem.

O ponto de vista eurocêntrico não observa que subsistem zonas de pobreza e mesmo de miséria na sociedade mundial contemporânea. No sentido de desenvolvê-las, impõe-se um crescimento da produção e renda, em certos lugares, de modo a acabar com as desigualdades sociais e regionais.  Melhorar o nível de vida global não implica apenas em diminuir a pobreza, mas também reduzir a desigualdade social em todo o mundo.

Gorz questiona a argumentação keynesiana de que bastaria aumentar o poder de compra popular para “reativar” a indústria de bens de consumo duráveis e não-duráveis, criando, de imediato, muitos empregos. Alega que este argumento só cabe em políticas anticíclicas de curto prazo, mas não no médio e longo prazo.

Critica o “mercado de substituição” como o principal escoadouro para os produtos industriais, criando necessidades artificiais ou diminuindo a duração da vida dos produtos. Praticamente, “obriga” os consumidores a substituírem seus bens de consumo durável a intervalos cada vez menores – e não só por “obsoletismo tecnológico”.

Será que já chegou o tempo em que os homens não mais farão o que as máquinas podem fazer? O capitalismo caminha, inexoravelmente, para a abolição do trabalho, a qual, por sua vez, engendrará sua substituição por um novo modo de produção, ou melhor, modo de vida?

Os “autonomistas” apontam o tema da abolição (ou da redução) do trabalho obrigatório como o mais subversivo já levantado para o debate público. Haveria uma transformação radical caso todo o mundo tomasse consciência de que, virtualmente, não há mais problema de produção, mas apenas um problema de distribuição de renda e riqueza.

O sistema capitalista atual teria graves dificuldades para se manter caso houvesse:

  1. partilha equitativa da riqueza produzida e
  2. distribuição equitativa por toda a população mundial do trabalho socialmente necessário em escala global.

Se todos soubessem que é tecnicamente possível viver cada vez melhor trabalhando cada vez menos e que o direito a “proventos integrais” não mais precisa estar limitado apenas àqueles que se ocupam em “tempo integral”, o que seria da disciplina do trabalho, da ética do rendimento do trabalho, da ideologia da competição? A ordem atual seria solapada em seus fundamentos ideológicos?

Anuncia-se a 4a. Revolução Industrial, para a população, não com a boa notícia de que ela necessitará trabalhar menos, mas sim com a má notícia que “vai faltar trabalho”, portanto, “faltará renda do trabalho”. Não teremos cada vez mais tempo livre, mas sim “haverá menos ocupação”…

As promessas da automatização e/ou robotização são apresentadas como se fossem ameaças. Com o ilusório “discurso da competência”, típico do individualismo liberal, tenta-se fazer com que os trabalhadores disputem cada vez mais acirradamente entre si os raros empregos, em vez de lutarem em conjunto para que se instaure uma nova racionalidade econômica.

Na verdade, o desemprego não é apenas uma consequência da crise econômica mundial, mas é também uma arma para restabelecer a obediência ao Deus-Mercado. Junto com ela exige-se a disciplina nas empresas exploradoras da mais-valia relativa, incorporando toda a elevação da produtividade para os acionistas, sem distribui-la igualmente entre os trabalhadores via PLR (Participação nos Lucros e Resultados).

A tendência histórica aponta que cada vez menos o trabalhador flexível seguirá carreira na profissão em que se formou. A especialização será transformada pela formação generalista, de maneira simplificada, de modo que a desqualificação, derivada da intercambialidade entre ocupações, seja suprimida pelos avanços tecnológicos.

Pelo desapego que provoca com relação a uma vida de trabalho cada vez mais precária e vazia de sentido, o desemprego tecnológico acaba por se tornar um perigo para a ordem estabelecida. Assim, os seguidores dessa ordem exigem “a criação de empregos” como um fim em si mesma, independente das finalidades a que servem tais empregos. Tudo é válido, mesmo que seja uma “indústria da morte”, desde que se “crie ocupação”!

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