Trabalhar para Produzir ou Produzir para Trabalhar?

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Na linguagem oficial, não é mais o trabalho que cria os produtos, mas a produção que cria o trabalho. Não se trata mais de trabalhar para produzir, mas sim de produzir para trabalhar.

A economia de guerra e a própria guerra foram, até o presente do capitalismo globalizado, os únicos métodos encontrados para assegurar o pleno emprego da população economicamente ativa e das máquinas criadas, quando a capacidade produtiva ultrapassou a capacidade de consumir.

Os teóricos da sociedade informatizada, no entanto, garantem que métodos menos bárbaros podem “criar trabalho”: consistem essencialmente em fazer com que profissionais especializados e pagos façam o que até aqui as pessoas faziam por sua própria conta e segundo sua fantasia como os cuidados pessoais com saúde, beleza, sexualidade, bebês, educação de crianças, etc.

No momento mesmo em que a automatização e/ou a robotização “arrisca” a dar à população a possibilidade e o tempo de cuidar mais de si mesma, propõe-se a migração massiva de trabalhadores para se transformarem em profissionais do novo Setor Terciário, isto é, em prestadores de serviços pessoais. São chamados a dissuadir as pessoas de fazerem qualquer coisa por conta própria, até mesmo criar seus filhos, deixando tudo para “especialistas”.

É possível criar milhões de ocupações de “cuidadores”, abrindo segmentos de mercado inexplorados para as trocas mercantis, fazendo de cada desocupado o prestador de um único serviço especializado? Em contrapartida, todos virarão consumidores passivos das prestações de serviços oferecidas por outros especialistas?

Segundo André Gorz, certamente, essas novas ocupações não serão produtivas, pois reduzirão a autonomia das pessoas, aumentando sua alienação e sua dependência de outros. Têm como única função tornar pago o que até então não o era, garantindo assim a circulação monetária entre trabalhadores com baixíssima produtividade, pois “de um para um”, isto é, do produtor direto para o consumidor. Cada um executará, em tempo integral, tarefas sem nenhum atrativo a serviço dos outros de modo a pagar também os serviços igualmente fastidiosos que outros executam para ele.

Por exemplo, duas mães tomam conda, cada uma, do filho da outra, e pagam-se mutuamente por esse serviço. Aos olhos dos economistas, o PIB aumenta em 2 salários, ao passo que, na verdade, nada foi produzido nesse “jogo de soma zero”, muito pelo contrário, filhos são criados sem o carinho da mãe…

E se cada indivíduo não tivesse tanto dinheiro, mas tivesse mais tempo para melhor cuidar de sua própria vida e/ou da vida de sua família ou comunidade, não estaria todo o mundo em situação melhor? Realizaríamos menos trabalhos que nos são indiferentes ou que nos pesam e mais trabalhos que nos mobilizam, que nos expressam, que nos liberam.

Não viveríamos à espera do tempo vazio do lazer e da aposentadoria, mas sim usufruiríamos do tempo liberado para uma vida ativa de outra natureza. Não seria o tradicional desemprego, mas sim o “desemprego criador”!

Gorz defende a tese de que a liberação e a realização dos indivíduos serão mais favorecidas pela alternância entre trabalhos rotineiros e atividades que, ao contrário, pode haver entrega total. Não se trata de suprimir os primeiros em favor dos segundos, mas apenas de reduzi-los a uma fração do nosso tempo. Gorz acha que “a alternância está em conformidade com a própria respiração da vida”.

Diz que a proporção de trabalhadores em tempo parcial seria bem mais elevada se a população tivesse à sua disposição oficinas que lhe permitisse montar, consertar e talvez mesmo fabricar por si mesma produtos cuja montagem na fábrica constitui um trabalho insuportavelmente repetitivo e embrutecedor para os que se limitam a ele no dia a dia. Propõe o desenvolvimento de atividades de reparo e de manutenção tanto dos equipamentos mecânicos ou eletrodomésticos quanto das moradias e vizinhanças.

Microcomputadores permitem, atualmente, que uma pequena oficina produza tão eficazmente quanto a grande fábrica de outrora, sem ter que fazer face aos mesmos gastos de transporte, de instalações, de administração. A produção pode se aproximar do consumo, os esbanjamentos e os desperdícios que a centralização envolve podem ser reduzidos.

A transição para esse novo modo de produção (e de vida), para Gorz, supõe uma ação consciente ao mesmo tempo no nível da sociedade civil organizada (famílias, associações, cooperativas, etc.), do movimento dos trabalhadores sindicalizados, das forças políticas e do Estado.

Qual seria o obstáculo a esse tipo de reorientação? É que ela toca nos pontos mais íntimos do capitalismo:

  • levaria a investir não para vender mais, mas para consumir e, por consequência, para vender menos;
  • levaria a uma redução da grande produção mercantil em lugar de levar a seu aumento;
  • substituiria capital por trabalho humano, valor de troca por valor de uso;
  • acabaria por subtrair espaços crescentes à lógica da acumulação capitalista.

Esta é a razão pela qual a sociedade do tempo livre depende, fundamentalmente, de um projeto anticapitalista, ou seja, de um projeto de esquerda democrática e igualitária!

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