Getúlio, de Lira Neto

Lira Neto escreveu sua extraordinária trilogia biográfica, denominada simplesmente “Getúlio”, como uma investigação jornalística. Embora longa, é uma leitura fluente e interessantíssima sobre um período-chave da História do Brasil.

Ao contrário do que afirmou, em 1950, ao jornalista Rubens Vidal, repórter da extinta Revista do Globo, Getúlio Vargas não era contra biografias. Na verdade, era a favor. Mas, como todo biografado, desde que falassem bem dele.

Em vida, Getúlio já abrira parte de seus arquivos pessoais a pelo menos um trio de biógrafos: André Carrazoni, Paul Frischauer e Leal de Souza. O resultado foram três panegíricos — discursos com elogio pomposo para homenagear alguém — lançados em plena vigência do Estado Novo, o regime ditatorial inaugurado por Vargas em 1937 e que durou até 1945.

Além disso, naquele mesmo período, a máquina de propaganda do getulismo produziu uma série de cartilhas e livretos, alguns deles ilustrados e coloridos, de caráter pretensamente didático e biográfico. Editados pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, tinham como público-alvo as crianças e os jovens. Basta uma conferida nos títulos para se ter a exata noção de seus respectivos conteúdos: História de um menino de São Borja: A história do presidente Getúlio Vargas contada por Tia Olga aos seus sobrinhos, Getúlio Vargas para crianças, Getúlio: Uma biografia para a gente moça, O Brasil Novo: Getúlio Vargas e sua vida para a criança brasileira.

Dono de uma trajetória conturbada e controvertida, Getúlio, voluntariamente ou não, forneceria muito mais material para os pretendentes a biógrafos, fossem eles apologistas ou detratores. Talvez por isso mesmo ele seja, de longe, o personagem histórico sobre o qual mais se escreveu no Brasil. Mesmo assim, curiosamente, em meio a essa profusão de títulos, não existia até a trilogia de Lira Neto, a rigor, nenhuma biografia, na verdadeira acepção do termo, de Getúlio Dornelles Vargas.

O historiador norte-americano Robert Levine, na abertura de Pai dos pobres? (Companhia das Letras, 2001), explicitava todo o incômodo ao constatar a inexistência de “uma biografia completa e atualizada de Vargas”.

O também brasilianista Thomas Skidmore, autor de Brasil: De Getúlio a Castello (republicado pela mesma Companhia das Letras em 2010), já chegou a dizer que a tarefa de biografar Getúlio exigiria “quase toda a vida de um eventual biógrafo”.

Maria Celina D’Araújo, doutora em Ciência Política e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV), em simpósio realizado em Porto Alegre no ano de 2004 — “Da vida para a história: o legado de Getúlio” — chamou a atenção para o fato de a maior parte das “biografias” publicadas sobre o personagem terem caráter ficcional, ou seja, enquadrarem-se no gênero “romance histórico”. “É mais fácil pedir licença à ficção para interpretar o personagem do que lhe dar vida pelos caminhos metodológicos da História e das Ciências Sociais. Com isso se reproduz e se reafirma um Getúlio esfinge”, analisava Maria Celina.

De fato, sempre inquietou a Lira Neto o fato de Getúlio nunca ter sido alvo de uma biografia jornalística exaustiva, moderna, cuidadosa no trato com as fontes primárias, atenta à abundância de estudos acadêmicos a respeito do período e, em especial, sem o impressionismo da maioria dos relatos biográfico-jornalísticos já publicados sobre o personagem. Em se tratando de Getúlio, muitas perguntas permanecem sem resposta. Este livro não se propõe a eliminá-las, esgotá-las ou resolvê-las em definitivo, mas, antes, a oferecer novas contribuições, elementos e possibilidades ao debate.

Afinal, já foram utilizadas toneladas de papel e tinta para se tentar “decifrar” Getúlio. Os biógrafos oficiais, Frischauer, Carrazoni e Leal de Souza, se encarregaram de traçar uma espécie de hagiografia — caudalosa e laudatória — do ex-presidente. No flanco oposto, êmulos como Affonso Henriques e seu cáustico Ascensão e queda de Getúlio Vargas (Record, 1977) apostaram na total desconstrução do biografado. Nesse embate, apologistas e detratores forçosamente se anulam, pela parcialidade dos sinais contrários.

Os historiadores Boris Fausto (Getúlio Vargas: O poder e o sorriso, Companhia das Letras, 2008) e Paulo Brandi (Vargas: Da vida para a história, Zahar, 1983) escreveram perfis biográficos tão sintéticos quanto fundamentais. Entretanto, pela especificidade de seus trabalhos, deliberadamente passaram ao largo da percuciência do detalhe, da dimensão estética da narrativa e da investigação quase arqueológica da esfera privada, matérias-primas de uma biografia jornalística. Esta é obra de Lira Neto.

Hélio Silva, ao compor o extenso “Ciclo de Vargas”, em 16 volumes, preocupou-se em “biografar” toda uma época, e não um homem. E John W. Foster Dulles (Getúlio Vargas: Biografia política, Renes, 1967) estava interessado, como anunciava desde o título da obra, “apenas” na história política do personagem, evitando explorar as demais dimensões do indivíduo.

A todos os autores citados acima, esta trilogia de Lira Neto faz questão de prestar seu tributo, devidamente reiterado nas citações e, principalmente, nas notas incluídas ao final do volume. Não se trata apenas de um dever de honestidade intelectual, mas de reconhecimento sincero. Sem eles, seu trabalho talvez simplesmente não viesse sequer a existir.

Seria impossível citar aqui neste espaço todas as outras obras de referência das quais necessariamente Lira Neto serviu-se para escrever esta biografia. A relação completa, todavia, deve ser consultada na bibliografia que procede as notas. Ali, podem ser encontradas menções a textos de toda natureza. A inclusão deles na lista não significa, obviamente, adesão às ideias e interpretações adotadas pelos respectivos autores.

Muitos são estudos acadêmicos, publicados em livro ou lidos ainda no formato de dissertações de mestrado e, particularmente, teses de doutorado. Getúlio, como não poderia deixar de ser, é um tema que desperta interesse privilegiado na Universidade brasileira. As reflexões e análises desses estudiosos, afirma Lira Neto, ajudaram a estabelecer sua própria compreensão do biografado — e, sobretudo, a duvidar de suas certezas e verdades prévias.

Mas o leitor notará que boa parte da narrativa deste livro foi construída a partir da pesquisa em fontes primárias, no garimpo de arquivos públicos e privados. Durante os dois anos e meio que Lira Neto levou para escrever este livro, percorreu diferentes cidades brasileiras, em busca de documentos, jornais de época, objetos, publicações raras, depoimentos, filmes, músicas e fotografias, qualquer pista que lhe ajudasse a contar a história de Getúlio.

Muitos esclarecimentos de episódios até então nebulosos estão vindo pela primeira vez ao conhecimento do público. Lira Neto não se conformou enquanto não conseguiu localizar, por exemplo, os autos dos processos relativos ao assassinato do jovem paulista Carlos de Almeida Prado em Ouro Preto. O mesmo pode ser dito em relação aos documentos jurídicos referentes à morte criminosa do índio Tibúrcio Fongue, em Inhacorá.

Uma série de outros eventos atinentes à trajetória pessoal e política de Getúlio antes da chegada ao Catete foram obtidos na vasta correspondência existente no arquivo pessoal de Borges de Medeiros, hoje sob a custódia do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Dezenas das cartas e documentos ali depositados eram absolutamente inéditos até este momento.

No caso da Revolução de 30, embora já exista uma sólida bibliografia a respeito do tema, Lira Neto se preocupou, sobretudo, em situar a narrativa a partir de uma perspectiva mais próxima à figura de Getúlio Vargas, salientando aspectos e detalhes pouco explorados ou muitas vezes desprezados pela historiografia.

Já os fatos recuperados no prólogo – o relacionamento amistoso de Getúlio com representantes do fascismo italiano em ascensão pré II Guerra Mundial – não têm apenas o papel de instigar e convidar à leitura do livro, mas também de oferecer alguns possíveis subsídios à eterna questão sobre até que ponto o movimento que levou Getúlio ao poder já carregava o gérmen autoritário, apesar de ao mesmo tempo ter representado o início da modernização do Brasil.

A multiplicidade de fontes, entretanto, teve como fio condutor a correspondência ativa e passiva do próprio Getúlio, organizada e mantida pelo CPDOC-FGV. Os acervos de outras personalidades públicas existentes na mesma instituição também foram alvo de seguidas consultas, a fim de estabelecer as conexões e confrontar as diferentes perspectivas dos atores envolvidos nos episódios relatados.

O plano da obra projetou os três volumes organizados de forma cronológica.

  • O primeiro tomo abrange o percurso do biografado desde o nascimento — e seus antecedentes familiares — até a chegada ao poder, em 1930, estendendo-se ligeiramente, no prólogo, aos primeiros meses de 1931.
  • O segundo tomo versará sobre os quinze anos subsequentes, até 1945, cobrindo o primeiro período da chamada Era Vargas, destacando-se aí a ditadura do Estado Novo.
  • O terceiro e último volume abordará o “exílio” de Getúlio em São Borja após sua derrubada pelos militares e a volta à presidência pelo voto popular, chegando ao trágico desfecho de agosto de 1954.

A divisão por períodos atende a uma questão de ordem estritamente didática e de contingência editorial. Lira Neto compreende que não faz nenhum sentido decompor e conceber a trajetória política e pessoal de Getúlio em tempos estanques, como se houvesse, digamos, três “Getúlios” distintos, um “revolucionário”, um “ditador” e um “democrata”. Ao contrário dos que alguns especulam, Getúlio foi um só, embora ambivalente e contraditório.

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