Contexto Político-Familiar da Infância de Getúlio

Para o rio-grandense, a carneação sempre foi um rito no qual a necessidade, a morte e a festa andam juntas. O berço missioneiro tratou de iniciar o menino Getúlio nesta implacável sentença dos pampas: o homem precisa matar com as próprias mãos, fazer jorrar o sangue de outras vidas para garantir a sobrevivência dos seus. O escritor e político gaúcho Pedro Vergara resumiria tudo em uma judiciosa sentença: “Não se pode comer sem matar; isso foi autorizado aos homens por uma divindade que se comprazia do cheiro da carne assada”.

Lira Neto, em “Getúlio 1882-1930”, informa que, se nutria assumida admiração pela virilidade guerreira de Manuel Vargas, seu pai – membro da casta dos guerreiros –, o menino Getúlio encontrava refúgio certo no colo da mãe, a sra. Cândida Dornelles Vargas, a dona Candoca. Era ela quem contemporizava com o marido sempre que qualquer um dos filhos exagerava nas travessuras, fato que não era difícil de ocorrer numa família em que todos os rebentos do casal eram meninos, criados na liberdade da estância, no convívio com peões rústicos, cavalos e touros bravios. Apesar do nome, dona Cândida, segundo relata a tradição familiar, era mulher de opinião.

Não é inadmissível supor que a origem da relativa abastança de Manuel fosse decorrente, pelo menos em parte, dos despojos de guerra, uma vez que fazia parte da rotina dos soldados o chamado “carcheio” — gauchismo para definir a apropriação do espólio dos vencidos —, além de estar então em pleno vigor a prática oficial de se conceder sesmarias aos combatentes, a título de serviços prestados.

É provável que, além do generoso pé-de-meia, o peso e o brilho da medalha de mérito militar que Manuel Vargas conquistara nos campos de batalha lhe serviram de credencial aos olhos do futuro sogro. No Rio Grande do Sul, estado historicamente às voltas com guerras e revoluções, o uso da farda passara a significar um indicador de autoridade e prestígio social, uma verdadeira mística, ao ponto de o uniforme ser então considerado, mais do que uma vocação, uma “segunda “pele”, como se dizia, para os rio-grandenses.

Essa mitologia instituída em torno da presumida bravura, da força e do espírito guerreiro do povo local fazia parte, na realidade, de um processo gradativo de idealização dos antigos e verdadeiros gaúchos, bandoleiros indomáveis que perambulavam pela fronteira, muitas vezes ganhando a vida como ladrões de gado e de cavalos. A palavra “gaúcho”, inicialmente, significava o mesmo que “bandido” ou “facínora”. A partir de sua apropriação romântica, tornou-se motivo de orgulho e distinção, a ponto de passar a ser adotada como gentílico pelos rio-grandenses.

Nascido em 19 de abril de 1882, na sede da Fazenda Triunfo, durante toda a infância, o magricela Getúlio padeceu de saúde precária. Quase morreu envenenado aos dois anos de idade, quando já ganhara mais um irmão, Espártaco – já tinha dois irmãos. Um descuido dos pais fez com que despejasse garganta abaixo alguns goles de querosene. Sobreviveu, mas daria novo susto à família aos sete anos, quando caiu de cama, assolado por acessos incontroláveis de febre.

Mais uma vez Getúlio resistiu. Porém, cresceu uma criança calada, dada a longos silêncios, trancafiado em seu próprio mundo, ao qual poucos tinham acesso. Preferia ouvir a falar. Quando provocado, respondia de forma evasiva, quase arisca. Ao recordarem dele, os amigos de infância apelariam para uma imagem tipicamente gauchesca. O menino Getúlio, contavam, era uma espécie de “bagual caborteiro” — o que no vocabulário dos pampas significa o potro difícil de domar. Um arredio.

Aos sete anos, o esquivo Getúlio assistira às contingências da política invadirem-lhe a porta de casa e se instalarem no seio familiar. Às vésperas da quartelada que resultou na proclamação da República, em 1889, os Vargas e os Dornelles se viram situados em campos políticos radicalmente opostos. O pai de Getúlio se declarou republicano convicto. Os irmãos de dona Candoca, ao contrário, como a maioria, permaneceram fiéis aos liberais comandados por Gaspar Silveira Martins, o homem que “mandava e fazia chover” no Rio Grande do Sul naquelas últimas décadas do Império.

Os dois clãs, Vargas e Dornelles, esqueceram a origem em comum. Ambos eram provenientes de troncos familiares que remetiam aos casais açorianos que, no século XVIII, haviam desembarcado no Brasil com a ilusão de encontrar aqui a Terra Prometida. Seus antepassados vieram em navios superlotados, obrigados a suportar mais de dois meses numa travessia marcada pela escassez de água e alimentos. Muitos foram atirados ao mar, depois de morrerem vitimados por doenças provocadas pela desnutrição e pela falta de higiene a bordo. Ao desembarcarem, em vez das benesses anunciadas, descobriram-se abandonados.

Sem a apregoada ajuda governamental, uns vagaram ao léu, outros aos poucos começaram a se aclimatar ao novo país e, com isso, deram início a núcleos de povoamento que seriam a origem de várias das futuras cidades gaúchas, inclusive a capital Porto Alegre. Cinco ou seis gerações depois, com a ocupação gradativa de territórios e a luta contínua pela posse de terras, alguns dos descendentes dos pioneiros açorianos haviam se firmado como estancieiros no interior da província. Era o caso dos Vargas e dos Dornelles, irmanados pela linhagem, mas tornados arquirrivais pelas circunstâncias da política partidária.

Como atestado de que era um antimonarquista histórico, o pai de Getúlio evocava um episódio ocorrido ainda nos tempos da Guerra do Paraguai, quando num gesto de promoção política o imperador D. Pedro II decidiu vistoriar o front, o que levou o monarca até a cidade de Uruguaiana, onde os paraguaios estavam submetidos ao cerco das tropas da Tríplice Aliança. Na ocasião, o oficial Manuel Vargas tivera a oportunidade de conhecer o imperador de perto, mas, segundo ele próprio afirmaria depois ao filho Getúlio — e mais tarde aos netos —, recusara a honraria:

“Eu não ia beijar a mão de um homem de falinha de mulher, barba de milho, mãozinha delicada. Eu não fui falar com ele não”, gabava-se o bigodudo Manuel Vargas.

Seja isso fato ou folclore familiar, o certo é que o pai de Getúlio colaborou em uma das ações táticas mais significativas da pregação republicana: o abolicionismo. Antes da decretação da Lei Áurea, em consonância com a orientação emitida pelo congresso de 1884 do Partido Republicano do Rio Grande do Sul (PRR), Manuel Vargas concedeu a carta de alforria a todos os escravos da estância — muito embora, na zona de fronteira onde estava localizada a Fazenda Triunfo, o trabalho dos cativos nunca tenha representado uma presença realmente ativa na economia rural, ao contrário do que acontecia nas regiões rio-grandenses dedicadas à produção de outro produto básico da economia regional, o charque.

Do mesmo modo, Manuel Vargas apoiou, desde a primeira hora, o nome do chefe do PRR, Júlio de Castilhos, para o comando político do estado do Rio Grande do Sul. Não era à toa que Manuel mantinha o retrato do líder na parede principal da sala de jantar da fazenda.

Castilhos, nascido em Cruz Alta, zona das serras gaúchas, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo, havia sido o principal redator do jornal A Federação, combativo órgão da propaganda republicana local na chamada fase heroica do movimento. Gago, baixinho, atormentado pelas cicatrizes da varíola que lhe havia devastado o rosto na infância, Castilhos era um orador medíocre, mas um demônio diante de uma folha de papel em branco. Seus artigos, carregados de ironia e furor, fustigavam adversários e arrebatavam leitores.

Entre estes últimos, incluía-se Manuel Vargas, assinante compulsório de A Federação, o “alcorão partidário”, como o jornal viria a ser definido, e cujos exemplares chegavam à Fazenda Triunfo sempre atrasados, em companhia da correspondência trazida na mala semanal dos correios de Porto Alegre até São Borja, distantes quase 600 quilômetros uma da outra.

Não se tem registro, contudo, de que Manuel Vargas fosse dado a leituras mais densas ou que fosse um esmerado discípulo de Auguste Comte, como se dizia Júlio de Castilhos, que em seus escritos pregava a tese de que a sociedade precisava ser regida pelas mesmas leis e métodos da Matemática e da Biologia. Defendia, por isso mesmo, a necessidade de uma “ditadura científica”, na qual o poder deveria decorrer do saber e não do voto.

Inspirado no positivismo, Castilhos advogava a instalação de um governo forte, um “Executivo hipertrofiado”, que se autoinvestisse da “tarefa suprema” de modernizar a sociedade, regenerar o Estado e educar os cidadãos para a vida em comum. É evidente que muitos líderes políticos rio-grandenses se utilizaram de tal doutrina como mera fachada ideológica para legitimar o autoritarismo que os caracterizava.

O menino Getúlio cresceu em uma casa em que o sistema parlamentar defendido pelos liberais era tido como um “sistema pra lamentar”…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s