IED: Quem Te Viu, Quem Te Vê…

ide-2005-2016

Carlos Luque é professor da FEA/USP e presidente da Fipe; Simão Silber é professor da FEA-USP — este professor eu tive oportunidade de conhecer em uma reunião no Rio da ANPEC. Roberto Zagha foi secretário da comissão sobre o crescimento e o desenvolvimento organizada pelo Banco Mundial. Reproduzo abaixo um artigo deles (Valor, 20/02/17), onde eles comentam uma informação sobre IED – Investimento Estrangeiro Direto, que meu ex-orientando, Fernando Alberto Rocha, chefe-adjunto do DEPEC-BCB, deu em palestra no IE-UNICAMP no ano passado.

É um conhecimento técnico relevante para todos os economistas. Evita a bobagem dita no editorial do jornal Valor (20/02/17) propagada ao lado do artigo. A imprensa econômica brasileira (junto com seus pares tucanos) tem de deixar de louvar o governo golpista desde já, senão sua credibilidade se afundará ainda mais (em conjunto com ele) neste ano

“O investimento estrangeiro direto (IED) é fundamental. Expande os recursos disponíveis sem criar dívida externa, aumenta a capacidade produtiva do país, traz progresso tecnológico, e permite acesso aos mercados externos. No período pós Segunda Guerra Mundial, em muitos setores da economia, o IED deu ímpeto à industrialização do país. No mundo, IED é considerado “bom”, enquanto os benefícios de investimentos em carteira são considerados ambíguos. Um aumento de IED é um voto de confiança nas políticas econômicas do país; quedas, indicação de problemas.

O IED no Brasil nos últimos anos causa regozijo e surpresa. Enquanto o investimento na economia brasileira nos últimos anos caiu aos níveis mais baixos dos últimos 50 anos, o IED se manteve em níveis elevados. Em entrevista ao Financial Times em 27 de abril de 2016 o diretor do FMI para a América Latina declarou que “a capacidade “assombradora” do Brasil de atrair investimento estrangeiro apesar das crises políticas e econômicas é augúrio de um futuro melhor”. Declarações das autoridades governamentais e artigos no Valor de 9 e 25 de janeiro 2017 indicam: “Investimento direto no país ignora a crise” e mencionam um diretor do Banco Central celebrando o recorde histórico de 4.4% do PIB em IED em 2016: “Isto indica que o IED têm características específicas ligadas a decisões de longo prazo, e podem se manter até em anos de atividade econômica fraca”. Em % do PIB, o IED no Brasil ultrapassou de muito a China e India, economias com taxas de crescimento acima de 6-7% por ano. Será que o investidor estrangeiro sabe algo que os empresários nacionais ignoram?

Na realidade somos vítimas de três ilusões.

Primeiro, uma convenção contábil internacional faz com que empréstimos intercompanhias sejam incluídos no IED. Desde 2011, empréstimos intercompanhias chegam a um terço do IED. Estes excluídos, o IED tem valores bem mais modestos. Caiu em 2016, como seria de se esperar. Como qualquer empréstimo, empréstimos intercompanhias geram dívida externa. Empréstimos intercompanhias incluídos no IED representam 65% do crescimento da divida externa entre 2011 e 2016, quando esta passou de 19% do PIB em 2011 a 38% em 2016, um ritmo de crescimento preocupante.

Várias análises (Banco Central, Nota Metodológica de abril 2015 e Relatório de Inflação de maio 2015; FMI, relatório sobre o Brasil de maio 2015; BIS, Memorando de outubro 2014) esclarecem que parcela significativa do IED são recursos captados por filiais de grupos brasileiros no exterior, em geral via emissão de títulos, repassados aos grupos domiciliados no Brasil como dívida intercompanhia.

Podemos discordar de uma convenção contábil que exagera os niveis de IED, mas ela é o que é. O relatório do FMI de maio 2015 indica que “a maioria (dos recursos intercompanhias) provém de títulos emitidos no exterior, principalmente nos Cayman Islands ou Hollanda, por filiais de grupos brasileiros, com perfis de risco mais próximos a dívidas externas do que investimento direto”. É vantajoso para estes grupos se endividar em moeda estrangeira com taxas baixíssimas que tem vigorado nos mercados financeiros internacionais nos últimos 10 anos e repassar os recursos às matrizes no Brasil. O resultado é que o IED como o imaginamos convencionalmente é muito menor do que parece e o endividamento externo muito maior.

A segunda ilusão é que IED no Brasil gera aumentos da capacidade produtiva. Os dois últimos relatórios do FMI observam que os recursos captados no exterior foram aumentar a liquidez das empresas, não suas inversões. Não é surpresa. Quando a capacidade ociosa é ampla qual seria a razão para aumentá-la ainda mais? Mas se a diferença entre juros internacionais e domésticos for muito alta é vantajoso se endividar no exterior as taxas baixissimas que tem vigorado nos últimos anos, e aplicar estes recursos no mercado financeiro doméstico. Indicações que IED nem sempre é IED como convencionalmente entendido não sâo únicas ao Brasil.

Em uma nota do Peterson Institute, em outubro de 2016, Olivier Blanchard e Julien Acalin observam três regularidades nos fluxos de IED nas economias emergentes:

1- uma alta correlação entre entradas e saídas de IED. Seria razoável esperar uma correlação zero já que, se um país atrai IED, não é lógico que investidores domésticos queiram investir no exterior.

2 – entradas de IED reagem significativamente às taxas de juros nos EUA. Aqui também seria razoável esperar pouca ou nenhuma reação já que o IED, em princípio, se destina a expandir ativos de pouca liquidez.

3 – saídas de FDI em resposta a reduções da taxa de juros nos EUA.

Normalmente, saídas de IED não deveriam responder às taxas de juros, e deveriam cair quando a taxa de juros nos EUA cai. Mas este não é o caso. Blanchard e Acalin concluem que o que parece ser fluxos de IED são na realidade fluxos mais parecidos a investimentos em carteira, de natureza especulativa, não necessariamente destinados a ativos reais, respondendo a movimentos de juros de curto prazo mais do que às condições fundamentais da economia. O gráfico acima mostra que o IED no Brazil, tanto entradas como saídas, de fato disparou com a queda da taxa de juros nos EUA.

A terceira ilusão é que altos níveis de IED são um voto de confiança nas políticas econômicas do país. O IED é mais bem indicação da segmentação do mercado de crédito e da abertura ao capital financeiro internacional.

A segmentação do mercado de crédito faz com que alguns privilegiados tenham acesso ao BNDES ou a credores estrangeiros a juros baixos, enquanto a maioria paga taxas de juros estratosféricas. As crises internacionais em 1997 e 2008 geraram um debate acadêmico sobre os custos e benefícios da abertura ao capital financeiro. Muitos países mudaram sua postura. O FMI não mais recomenda aos países membros a abertura ao capital financeiro. Edmar Bacha nos lembra em artigos recentes do custo alto de abrir a conta capital mantendo fechada a conta de comércio. Mas não há indicações de que o país esteja repensando sua posição nesta área.

Voto de confiança? Os níveis recentes de IED são mais bem indicação de distorções graves nas políticas econômicas do país.”

Agora, leia o Editorial do Valor e compare a análise anterior com a louvação do entreguismo do governo golpista:

“Os ingressos de investimentos estrangeiros diretos no país somaram o representativo montante de US$ 11,528 bilhões em janeiro e, num quadro ainda de muita incerteza sobre a recuperação cíclica da atividade, significam uma forte aposta no potencial de crescimento de longo prazo da economia brasileira.

Uma boa parte desse fluxo de capitais está ligada à venda de ativos por empresas nacionais endividadas, que têm dificuldades de navegar pela mais profunda recessão da história. Também traduz uma dose do oportunismo de investidores estrangeiros que aproveitam o dólar mais forte ante o real para fazer algumas barganhas.

Em janeiro, cerca de 60% dos ingressos de investimentos diretos foram dirigidos ao setor de eletricidade, gás e outros serviços de utilidade pública. O Banco Central, responsável por compilar as estatísticas do balanço de pagamentos, não abre as estatísticas por negócios individualmente, mas é bem provável que o grosso desse fluxo esteja ligado à compra da CPFL Energia pela empresa estatal chinesa State Grid.

Mas seria um erro resumir todo o fluxo de investimentos diretos apenas à busca de pechinchas. Em janeiro de 2016, quando a cotação do dólar superou R$ 4, o fluxo desses capitais somou “apenas” US$ 5,455 bilhões. Ou seja, menos da metade do volume registrado em janeiro de 2017, quando o câmbio havia se valorizado em mais de 20%.

Há uma tendência maior de recuperação dos investimentos diretos. O fluxo desses capitais caiu 23% entre 2014 e 2015, à medida em que a crise econômica e política se agravava. De forma surpreendente, manteve-se estável em 2016 acima de US$ 70 bilhões, que representa mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), mesmo durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em fins de 2016, voltou a se recuperar, justamente quando o câmbio se apreciava, refletindo o fortalecimento da confiança nos ajustes macroeconômicos encaminhados pelo governo. Os ingressos acumulados em 12 meses chegaram a US$ 85,001 bilhões em janeiro, que equivalem a 4,66% do PIB.

A avaliação qualitativa do Banco Central é que tenham ambas seguintes finalidades, os dados não abram:

  1. quanto desses investimentos diretos está ligado à aquisição de ativos no Brasil e
  2. quanto representa aportes em novos empreendimentos.

Mesmo quando esse capital estrangeiro se dirige a compra de empresas brasileiras já em operação, ele traz ganhos importantes à economia. Entre eles:

  1. a manutenção e até criação de novos empregos,
  2. a transferência de novas tecnologias que ajudam a aumentar a produtividade e
  3. a perspectiva de novos ingressos de investimentos diretos para ampliar a capacidade produtiva no futuro.

Também representam uma fonte estável de financiamento das contas externas. Em 4,66% do PIB nos 12 meses até janeiro, os investimentos diretos são mais do que suficientes para cobrir o déficit em conta corrente, equivalente a 1,3% do PIB no mesmo período. Há, ainda, uma “sobra” de capitais de alta qualidade disponível no mercado de câmbio que deu tranquilidade para as empresas brasileiras reduzirem o seu o endividamento externo.

Os benefícios incluem, ainda, a melhora na composição do passivo externo. Hoje, o Brasil tem mais investimentos diretos no seu passivo (53,5%) do que empréstimos tomados no exterior (13,7%), por isso os déficits em conta corrente se ajustam de forma mais suave nos períodos de restrição de financiamento externo.

Apesar de ter se mantido relativamente forte durante a crise fiscal e política e de ter iniciado trajetória de recuperação, os fluxos de investimentos diretos seguem abaixo dos volumes de até US$ 100 bilhões observados no início da década e das imensas oportunidades do mercado interno e externo. Os ingressos certamente passarão a crescer com mais vigor quando a atividade estiver em estágio mais avançado de recuperação, e a capacidade da economia – hoje ociosa – estiver preenchida.

Mais do que o ciclo econômico, porém, é sobretudo a tendência de crescimento de longo prazo da economia que atrai capitais produtivos. Por isso será necessário o Brasil avançar nas reformas fiscais, em especial a da Previdência, prosseguir com a agenda de reformas microeconômicas e garantir um ambiente estável e previsível para as concessões de serviços públicos.”

Viu?! Este PIG…

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