História no Rio Grande do Sul: A Terra é Vermelha

getulio-1882-1930

Lira Neto, em “Getúlio 1882-1930”, conta que, depois de uma série de instabilidades políticas e de articulações de bastidores, Júlio de Castilhos e seu minoritário PRR assumiram oficialmente o governo do Rio Grande do Sul em julho de 1891, sob as graças do primeiro presidente da história do país, o marechal Deodoro da Fonseca. Logo tratou de pôr seu ideário em ação, lastreado por uma Constituição estadual que ele, Castilhos, havia escrito praticamente sozinho e que foi aprovada, por unanimidade, em uma assembleia constituinte dócil e que se reuniu por apenas duas semanas.

Pela Constituição castilhista, o Legislativo funcionava por minguados dois meses a cada ano e tinha a competência limitada à aprovação do orçamento, cabendo ao Executivo estadual a prerrogativa de governar por decreto. Em nome da continuidade administrativa, o presidente do estado podia se reeleger quantas vezes fosse de seu desejo, desde que obtivesse três quartos da votação total — o que não era difícil de se conseguir com a pressão do voto a descoberto, em reforço às normas de conduta dos positivistas, que preconizavam a necessidade de os cidadãos “viverem às claras”, em oposição ao princípio do sufrágio secreto.

No positivismo seletivo de Júlio de Castilhos, a plena liberdade de expressão, defendida por Comte e também prevista na Constituição estadual rio-grandense, foi solenemente ignorada. A imprensa oposicionista era alvo de constantes perseguições, sendo frequente o empastelamento de jornais adversários ao governo.

Na retórica instaurada por Castilhos, repisada todo dia nas páginas oficiais de A Federação, o campo da política era descrito como um “charco lodoso”, onde apenas chafurdavam as ambições e veleidades pessoais. Assim, o discurso da austeridade e da excelência moral embalava uma doutrina partidária que tinha na eficiência técnica e na eficácia administrativa a sua pedra de toque. Qualquer questionamento à administração pública ou mesmo a mais leve crítica à ausência da representação parlamentar eram considerados, portanto, um retrocesso, ou seja, um retorno ao pântano mesquinho da política.

Uma das primeiras medidas econômico-administrativas adotadas pelos republicanos desagradou em cheio aos adversários. Decretou-se o fim da antiga “tarifa especial”, instituída ainda em 1878, quando o então todo-poderoso Gaspar Silveira Martins ocupava o cargo de ministro da Fazenda no Império. Por meio do velho benefício, a fronteira do Rio Grande do Sul se tornara uma espécie de zona de livre-comércio com o Uruguai — o que favorecera a elite pecuária e os negociantes tradicionais da região, em sua maioria leais a Gaspar Martins, em oposição às novas classes mercantis e financeiras do litoral, que viriam a ser uma das bases políticas de Castilhos.

Além de extinguir a regalia alfandegária dos inimigos, os republicanos puseram em prática uma política de repressão ao contrabando na fronteira, o que novamente afrontou os gasparistas, liberais defensores da ampla liberalização do comércio com os países do Prata.

À ação, seguiu-se a correspondente reação. Em novembro de 1891, Castilhos foi apeado do poder local em consequência da queda do marechal Deodoro no plano federal. Os antigos liberais, reunidos a republicanos dissidentes contrários à liderança autocrática de Castilhos, trataram de ir à forra, coligados sob a denominação comum de “federalistas”.

Em São Borja, o que antes era mera desavença política entre os Vargas e os Dornelles virou ódio mútuo. Acuado, Manuel Vargas teve que fugir da cidade para não ser preso — ou mesmo morto — pelos encarregados de instituir a nova ordem. Em segredo, cruzou a fronteira e exilou-se em Corrientes, província argentina.

Mas a retirada de Manuel Vargas fora apenas uma manobra tática. Na Argentina, o pai de Getúlio prontamente aderiu à conspiração para reconduzir Júlio de Castilhos ao poder. Em reunião secreta na cidade de Monte Caseros, da qual participou, estabeleceu-se o plano. Os fiéis ao castilhismo reuniriam homens para invadir o Rio Grande do Sul por São Borja, em uma ação conjugada com os correligionários da capital, que providenciariam a insurreição simultânea em Porto Alegre.

Naquela reunião histórica, além do pai de Getúlio, estiveram presentes outros nomes que dominariam o cenário político regional nos anos seguintes, incluindo o senador José Gomes Pinheiro Machado, que viria a se tornar um dos tutores da chamada Primeira República. O plano dos conjurados deu certo, com a conivência do novo chefe de governo brasileiro, o marechal Floriano Peixoto, ditador que pretendia neutralizar os partidários do velho Silveira Martins, que, além de parlamentaristas, eram acusados de serem monarquistas saudosos.

Quando o menino Getúlio viu o pai Manuel Vargas retornar vitorioso a São Borja, havia chegado o momento da retaliação. Novamente donos da situação, os republicanos demitiram os federalistas de todos os cargos públicos e dos comandos municipais. Não ficaram nisso. Reproduziram, com sinal contrário, as mesmas perseguições das quais tinham sido vítimas pouco antes. Sobretudo no interior do estado, estabeleceu-se a barbárie.

Em todo o estado, institucionalizou-se a degola política. Não se tratava de uma simples metáfora. Era literal. A vítima era obrigada a ajoelhar-se de mãos atadas e, pelas costas, o inimigo montava-lhe os ombros. Com a mão esquerda, o degolador puxava-lhe o cabelo para trás. Com a direita, em um golpe rápido de facão, rasgava-lhe a garganta de uma ponta a outra, como numa rês por ocasião do abate. Uma variante consistia em deitar a vítima com as costas para o chão, sentar-lhe sobre as pernas e levantar-lhe o queixo com a sola da bota, para que o pescoço então ficasse à mercê do corte, de orelha a orelha. Por toda parte se degolavam homens, mulheres e crianças, como se fossem cordeiros.

Como resposta à repressão exercida pelos republicanos, os decaídos federalistas planejaram a volta ao poder e, a partir da fronteira uruguaia, deflagraram aquela que carregaria a chaga de ser a maior e mais sanguinolenta de todas as guerras civis da história brasileira. As degolas sumárias de adversários passaram a ser adotadas como prática comum tanto por um quanto pelo outro lado. Sangravam o inimigo e, sobretudo nos casos de acusações de estupro, cortavam-lhe a facão os órgãos genitais, que depois eram inseridos na boca da vítima, como forma suprema de humilhação.

Naquele cenário em que as elites rio-grandenses se digladiavam ferozmente, o menino Getúlio viu o pai e o tio Dinarte Dornelles se baterem em posições antagônicas. De um lado, Manuel Vargas retirou da parede da sala a velha espada dos tempos da Guerra do Paraguai, transformou a Fazenda Triunfo em campo de recrutamento e comandou uma das brigadas da célebre Divisão do Norte, lutando pelos republicanos, junto ao senador Pinheiro Machado. Dinarte, em contrapartida, chefiou uma das colunas federalistas arregimentadas em São Borja, tendo participado de encarniçadas ações revolucionárias.

Um era “pica-pau”, como foram apelidados os republicanos, por causa das listras brancas e do quepe vermelho que traziam no uniforme, embora sua marca fosse realmente o lenço branco amarrado ao pescoço, símbolo da legalidade.

O outro era “maragato”, alcunha pejorativa infligida aos federalistas pelo fato de muitos dos que se engajaram no movimento serem uruguaios, provenientes da província espanhola de Maragatería. O termo acabou sendo assumido pelos federalistas, que adotaram o lenço vermelho no pescoço como insígnia rebelde.

A guerra civil nos pampas, a chamada Revolução Federalista, prolongou-se de 1893 até 1895, aprofundando a cizânia entre os Vargas e os Dornelles e resultando em mais de 10 mil mortos em combate, o equivalente então a um terço de toda a população masculina da capital Porto Alegre.

A vitória coube aos republicanos, com Júlio de Castilhos fortalecido à frente do governo rio-grandense, apoiado por Floriano Peixoto, mas também amparado por:

  1. uma brigada militar estadual constituída para reprimir os adversários e
  2. uma extensa teia de apoios políticos no interior do estado, onde pontificavam os chefes municipais que lhe juraram lealdade.

Pela participação na repressão ao movimento, Manuel Vargas recebeu a patente honorária de general, por decreto assinado pelo próprio presidente da República. A partir daí, ele era o general Vargas, o homem que havia comandado a vanguarda da batalha que terminara com a morte de um dos principais líderes maragatos, Gumercindo Saraiva, cuja cabeça, conta-se, teria sido cortada e enviada em uma caixa de papelão a Porto Alegre, para Júlio de Castilhos, como suvenir de guerra.

Entre outras, Getúlio Vargas recebeu na infância uma lição política que podia ser resumida em uma sentença pretensamente infalível: quando a circunstância não se mostrar garantida, o melhor a fazer é esperar, resistir, transformar o tempo em aliado. Protelar é uma longa tradição do exercício do poder no Brasil. “Jamais descer do muro antes da hora”…

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