Manipulação Eleitoral e Tenentismo

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A notícia que Getúlio tinha para dar a Borges de Medeiros, naquela manhã de janeiro de 1923, não era nada boa. O borgismo estava com os dias contados no poder. Depois de consultar todos os boletins fornecidos pelas mesas eleitorais de cada um dos então 75 municípios do Rio Grande do Sul, a Comissão de Constituição e Poderes da Assembleia dos Representantes — da qual Getúlio era presidente — chegara a uma conclusão desastrosa para o PRR: nas eleições realizadas menos de dois meses antes, em novembro de 1922, Borges, que se candidatara ao quinto mandato de presidente estadual, não alcançara o número suficiente de votos para garantir mais uma reeleição. Obtivera a maioria do eleitorado, mas não os três quartos previstos pela Constituição castilhista para assegurar-lhe a recondução ao cargo.

Cabia a Getúlio, acompanhado dos outros dois membros da comissão encarregada de proceder ao exame das votações, o constrangimento de ir ao palácio para dar conhecimento da situação ao ilustre derrotado. Foram surpreendidos por uma saudação festiva da parte de Borges: “Já sei, vieram me dar os parabéns pela nossa retumbante vitória”.

Ao ouvirem aquilo, Getúlio, Ariosto e José Vasconcelos — todos governistas — não ousaram dizer que estavam ali pelo motivo exatamente oposto. Não iriam contrariar o presidente do Estado, líder supremo do partido. Segundo consta, teriam se calado e retornado à Assembleia, resignados, para refazerem — e maquiarem — as contas.

No dia seguinte, apresentaram um parecer que expunha uma votação de 106.319 sufrágios a favor de Borges, contra 32.217 do candidato oposicionista, Joaquim Francisco de Assis Brasil. Isso significava que, por uma estreita margem de pouco mais de 2 mil votos, os três quartos regulamentares estavam artificialmente garantidos. Desse modo, Borges de Medeiros foi declarado reeleito para mais um quinquênio à frente do governo do Rio Grande do Sul, por artes da cabala orquestrada por Getúlio, que produzira uma multiplicação instantânea dos votos a favor do candidato oficial. Getúlio devia sua carreira política à fidelidade ao castilhismo-borgismo-positivismo.

Havia poucos meses, ainda no fim de 1921, ele seguira a orientação ditada por Borges de Medeiros, quando da campanha pela sucessão do então presidente da República, Epitácio Pessoa. O candidato oficial do Catete para as eleições presidenciais de 1922, apoiado por Minas Gerais e São Paulo, fora o mineiro Artur Bernardes, conforme o figurino de alternância do poder entre os dois estados mais poderosos na nação.

Epitácio Pessoa, a despeito de ser paraibano e apelidado pela imprensa de “Patativa do Norte”, recebera apoio dos cafeicultores paulistas, ao defender medidas de valorização permanente do produto no mercado internacional. Era, portanto, a vez de Minas dar as cartas, mantendo os termos do pacto inalterados. O gaúcho Borges de Medeiros, contudo, resolveu insurgir-se contra a hegemonia da conhecida “República do café com leite”.

Borges aderiu à Reação Republicana, aliança que tentava construir um eixo alternativo de poder, composto pelo Rio de Janeiro e pelas oligarquias de Bahia e Pernambuco, estados que, um dia poderosos no Império, haviam aos poucos perdido relevância econômica e se tornado forças políticas periféricas após o advento da República, com a ascensão do baronato paulista do café.

Ao somar-se a esse bloco, o emergente Rio Grande do Sul, por meio da resolução de Borges de Medeiros, declarou apoio oficial ao candidato oposicionista, o fluminense Nilo Peçanha, que durante a campanha pregou ardorosamente contra o “imperialismo dos grandes estados” e acenou com a promessa de “arrancar a República das mãos de alguns para as mãos de todos”.

Veio a eleição em 1o. de março de 1922. Como era previsível, o apoio de Borges de Medeiros e da máquina do PRR foram determinantes para a votação maciça obtida por Nilo Peçanha nas urnas do Rio Grande do Sul. Entre os gaúchos, Nilo alcançou 96 mil votos contra apenas 11 mil de Bernardes. Mas, como também era de esperar, os mesmos números não se repetiram em escala nacional. O situacionista Artur Bernardes, com o peso eleitoral de Minas e São Paulo, foi eleito presidente da República após receber os votos de 466 mil brasileiros contra os pouco mais de 317 mil que votaram em Peçanha. Em outras palavras, menos de 800 mil votos válidos em todo o território nacional…

Borges obtivera uma vitória relativa, se considerados os sufrágios concedidos pelo eleitorado do estado ao candidato que apoiara. Contudo, podia se considerar derrotado no plano federal, pois desconfiava-se que o presidente eleito iria promover retaliações contra os estados que haviam composto a Reação Republicana.

Com efeito, os chefes políticos de Bahia, de Pernambuco e do Rio de Janeiro seriam derrubados após as eleições, substituídos por governantes bernardistas. Assim, todos apenas se perguntavam quando chegaria a hora de o Rio Grande do Sul ser alvo da mesma desforra. “Borges pagará o preço de seu atrevimento”, previam os federalistas.

À sucessão nacional seguiu-se a sucessão estadual rio-grandense, separadas uma da outra por um intervalo de nove meses. Um período em que o país, naquele ano de 1922, conviveu com a permanente efervescência nos quartéis.

Em 5 de julho, rebentou a célebre revolta do Forte de Copacabana: um grupo de jovens militares liderados pelo capitão Euclides Hermes da Fonseca rebelou a unidade em protesto contra o fechamento do Clube Militar, a prisão do marechal Hermes (pai do capitão Euclides) e a eleição de Bernardes.

O que era para ser uma ação articulada com outras guarnições do Rio de Janeiro se revelou uma ação suicida, após o governo sufocar sem maiores dificuldades levantes similares na Vila Militar e na Escola Militar de Realengo. No dia seguinte, debaixo da artilharia pesada disparada pela Fortaleza de Santa Cruz sobre o forte insurgente, o capitão Euclides decidiu abrir os portões e permitir a saída dos que quisessem se render. Dos trezentos amotinados, apenas trinta resolveram ficar para continuar a luta.

Sem condições numéricas para resistir, Euclides foi chamado ao Catete para conferenciar com o ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, o primeiro civil a ocupar o cargo no país. Euclides acabou preso. Os 28 homens que haviam permanecido no Forte de Copacabana picaram a canivete a bandeira brasileira e, depois de distribuir os retalhos do pavilhão nacional entre si, resolveram sair para enfrentar de peito aberto, de mosquetão, os cerca de 3 mil soldados das tropas legalistas que cercavam o local.

Uns foram presos, outros se dispersaram. Os demais, aqueles que insistiram em seguir combatendo, foram mortos. Apenas quatro entre eles escaparam vivos ao tiroteio: dois soldados — Manoel Ananias dos Santos e José Rodrigues Marmeleiro — e dois tenentes — Eduardo Gomes e Siqueira Campos (este último foi quem teve a ideia de picotar a bandeira nacional, depois de mandar arriá-la do mastro da unidade militar).

Começava ali a mística do movimento que mais tarde viria a ser conhecido como “tenentismo” — pelo fato de ter se disseminado entre a jovem oficialidade dos quartéis —, sacralizado pela imagem heroica dos “Dezoito do Forte”, o número hipotético de rebeldes que haviam lutado até o fim.

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