O Mercado Estúpido

O desempenho da Bolsa de Valores no Brasil não indica o comportamento dos fundamentos, seja microeconômicos, seja “mesoeconômicos” (setoriais) ou macroeconômicos. A economia brasileira passa pela maior e mais longa depressão de sua história e a bolsa sobe!  É pura especulação, insuflada por profecias auto realizáveis e determinada pelas entradas e saídas manipulativas por parte do capital estrangeiro em curto prazo. Este é pouco, mas suficiente para manipular essa bolsa raquítica — e ganhar dinheiro de incautos

André Rocha é analista certificado pela Apimec e atua há 20 anos como especialista na avaliação de companhias listadas na bolsa. Tenta defender o indefensável. Para tanto, faz análise grafista e não análise fundamentalista do desempenho da bolsa.

Em artigo (Valor, 08/03/17), insiste em louvar o governo golpista: “iniciativas importantes para a disciplina fiscal como o congelamento dos gastos reais do governo federal e o início do debate das reformas da Previdência e trabalhista deram um fôlego ao mercado acionário brasileiro”. Ainda assim, uma pergunta se impõe: com a recente alta, a bolsa brasileira ficou cara, i.é, descolada dos fundamentos?

Desde 2012, André Rocha atualiza, periodicamente, um gráfico que viu originalmente em um relatório da Santander Corretora.

Primeiro, divide o Ibovespa atual pela sua média móvel dos últimos seis meses. A região compreendida acima da média do período mais um desvio padrão significa que o mercado está “supercomprado”. Nessa zona, uma força vendedora pode ser esperada, o que proporcionaria um recuo do índice.

No outro oposto, a área abaixo da média menos um desvio padrão indica o inverso: os investidores estão supervendidos e o índice poderia se recuperar caso haja um movimento de compra por parte dos investidores.

O gráfico indica momentos marcantes como:

  1. a crise mundial de 2008 e
  2. o rebaixamento pela S&P do grau da dívida soberana americana em 2011.

Desconsiderando os fundamentos, adota uma “leitura” da realidade brasileira puramente política e com o viés de sua ideologia conservadora!

“Durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, o índice oscilou basicamente entre a média mais um desvio padrão e a média menos um desvio padrão, até que, no início de 2014, o mercado desanimado com os rumos da política econômica levou o Ibovespa a transitar na região inferior.

Por um breve período, O Mercado demonstrou otimismo, durante a campanha presidencial, quando Marina Silva e Aécio Neves mostraram possibilidades de derrotar a candidata petista. Contudo, a confirmação da vitória de Dilma fez o Ibovespa recuar acentuadamente.

A nomeação de Joaquim Levy como ministro da Fazenda ainda deu algum fôlego à bolsa, mas conforme o tempo passava e mais claro ficava que a política econômica permaneceria inconsistente, o Ibovespa voltou a gravitar na área inferior do gráfico.

Essa trajetória descendente só foi revertida quando o impeachment da ex-presidente foi confirmado. Desde então o índice tem transitado próximo da média mais um desvio padrão. Em 3 de março, o Ibovespa fechou em 66.785, 7,7% acima da média dos últimos seis meses, mas ainda inferior à média mais um desvio padrão de 11,3%”.

FNC: veem como O Mercado é estúpido, sendo composto de torcedores do golpe e “distorcedores” (sic) da realidade?

Dois pontos devem ser destacados quando se fala desse gráfico.

Primeiro, existe um universo de ações de companhias que não fazem parte do Ibovespa. Logo, o estudo acima não abrange essas empresas.

Segundo, a análise acima leva em conta o padrão demonstrado pelo mercado no passado recente. Isso não significa que o Ibovespa possa apresentar nova dinâmica.

FNC: Diferentemente do que ocorreu entre 2003 e 2010, a economia brasileira voltou a ser dependente da política econômica anticíclica para evitar a economia brasileira entrar logo na maior depressão de sua história econômica. Especialmente, depois da explosão da bolha de commodities em setembro de 2011.

Como a economia afeta a saúde financeira das empresas, a bolsa de valores indiretamente também é afetada pela política especulativa a favor de um golpe de Estado. O Mercado pensava que este golpe resolveria o problema econômico gerado pela crise mundial! Oh, que estupidez…

Em que pese todos esses erros de análise recentes do analista de O Mercado, ele continua torcendo — e distorcendo a realidade. “Podemos estar no início de um período de forte expansão da economia se as medidas fiscais responsáveis forem confirmadas e seguidas pelo novo governo que assumirá em 2019”.

FNC: O Mercado planeja novo golpe na democracia eleitoral brasileira, inviabilizando a candidatura do Lula?!

Confira sua ameaça à democracia, colocando o eleitorado brasileiro como refém:

“A contínua desalavancagem dos indivíduos e das empresas, a manutenção da inflação próxima ao centro da meta, a volta da solvência da dívida soberana e a consequente queda dos juros podem pavimentar um forte crescimento sustentado pelo investimento e consumo privados.

Por outro lado, caso não haja a aprovação de tais medidas ou o governante eleito na próxima disputa adote uma política fiscal inconsistente como a da antiga presidente, a bolsa e os demais ativos brasileiros terão forte depreciação, enquanto o dólar apresentará forte apreciação.

Essas são as alternativas internas. É claro que devem ser casadas com o cenário externo que, por ora, apresenta-se benigno. A China e os Estados Unidos ensaiam continuar crescendo a taxas satisfatórias. A Europa dá sinais de sair da recessão com a Alemanha apresentando inflação superior a 2%. Isso tem se refletido em uma relação de troca positiva entre os preços dos bens que exportamos e os dos que importamos, favorecendo nossa balança comercial, conforme o Valor trouxe em sua manchete na última semana.

Hoje, O Mercado namora o primeiro cenário, por isso, o Ibovespa se encontra próximo à média mais um desvio padrão. É o cenário mais provável, mas nada que o desenrolar da Operação Lava-Jato ou a sentença da chapa Dilma-Temer ou a ainda incerta gestão de Donald Trump não possam desmenti-lo”.

🙂

2 thoughts on “O Mercado Estúpido

  1. Dr Fernando, a mídia é porta voz, não esclarecem e nem analisam o que os governantes falam. É arrepiante! Esses dias ouvi na globo news um daqueles patetas dizer que o mercado externo estava reagindo e esperançoso por uma reforma da previdência. Att. Rita

    1. Prezada Rita,
      a mídia, depois do golpe, virou porta-voz oficial, vergonhosamente “chapa-branca” e censora: veja o episódio desta semana com a FSP dispensando o Guilherme Boulos, filósofo (formado na USP) e líder do Movimento dos Sem-Tetos, como seu colunista.

      Os colunistas ideólogos louvam uma retomada que nunca vem e só eles veem… Brigam contra os números!

      Cada vez mais desmoralizados, só os apoiam quem busca auto validação ilusória de suas opiniões já formadas…
      att.

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