Do Clã à Casta

Um Nova História do Poder

David Priestland, no livro “Uma Nova História do Poder – Comerciante, Guerreiro, Sábio”, lembra que, desde o início, a humanidade foi dividida por seus analistas em três partes:

  1. homens de oração,
  2. agricultores e
  3. homens de guerra.

Cada um deles tinha seu próprio dever particular:

  1. orar,
  2. trabalhar e
  3. lutar.

Assim, aceitou-se que a guerra poderia ser legítima: os guerreiros eram necessários para defender os homens de oração e os do trabalho. Contudo, a sociedade só poderia tornar-se rica e justa se os cavaleiros aceitassem um contrato social implícito. Eles deveriam:

  1. proteger os camponeses, e não saqueá-los;
  2. tinham de obedecer ao rei, e não desafiá-lo.

O rei, por sua vez, precisava ouvir o conselho dos sábios-sacerdotes. Era uma máquina militar-moral perfeita: os homens da violência, com as mãos banhadas em sangue, só podiam ser purificados pelas orações dos santos, e apenas quando estivessem puros sua vitória seria garantida.

Houve uma transição fundamental na história do mundo:

  1. o abrandamento do guerreiro e
  2. a ascensão da sociedade agrícola de castas.

Esta era governada por uma aliança entre o guerreiro, o aristocrata paternalista e o sábio. Foi esse sistema social que veio a dominar grande parte do mundo.

As primeiras sociedades humanas pouco sabiam sobre castas, tampouco sobre Estados. Os nômades dedicados à caça e à coleta viviam em sociedades de estrutura bastante frouxa, que não exigia uma cooperação de longo prazo e de coordenação estrita, pois para eles a vida era (relativamente) fácil — apenas três a cinco horas por dia de caça e coleta. Mas essa “sociedade afluente original ” não podia sustentar populações numerosas.

A agricultura (surgida por volta de 10000 a.C.), ao contrário, era capaz de alimentar muito mais gente, embora com uma dieta inferior e a custo de muito trabalho braçal. As pessoas haviam se tornado menos livres: estavam agora vinculadas a certo território e obrigadas a cooperar mais estreitamente com seus vizinhos. O investimento em terras, barragens e ferramentas exigia coordenação e liderança de uma forma que os caçadores-coletores, com sua vida mais simples, não possuíam.

Mesmo assim, essas primeiras sociedades agrícolas ainda eram relativamente igualitárias e não especializadas. A aldeia e o grupo de parentesco ampliado — o clã ou a tribo — eram o mais importante princípio organizador, e a política se dava, em grande parte, com base no consentimento do clã.

Para garantir a sobrevivência do grupo, os chefes, ou “homens importantes”, recebiam a autoridade para resolver conflitos e redistribuir alimentos. Mas seu poder era muito limitado e podia ser retirado sem dificuldade.

Outros especialistas também surgiram: os xamãs e especialistas espirituais, pessoas que, segundo se pensava, tinham habilidades especiais para realizar rituais sagrados e mágicos e comunicar-se com os deuses.

Mas, assim como os chefes ainda não tinham se tornado uma casta separada de aristocratas rurais, tampouco esses sábios iniciais já tinham formado uma casta elaborada de sacerdócio. As castas ali estavam, em estágio embrionário. Ainda não haviam se libertado do poder do parentesco.

No entanto, por volta de 3200 a.C. surgiu uma nova forma de civilização urbana. O mundo ficou cada vez mais dividido entre:

  1. as antigas sociedades baseadas em clãs e
  2. uma ordem nova, mais complexa (emergente de interações de mais componentes): o Estado agrário, alicerçado nas castas.

Ao longo das margens dos rios de grandes cheias, uma agricultura mais intensiva passou a sustentar populações maiores e cidades. Nessas sociedades mais especializadas, as pessoas iam se agrupando, cada vez mais, conforme as ocupações, e não o parentesco. Na Mesopotâmia, a Lista de Profissões incluía uma grande variedade de grupos, desde sacerdotes e funcionários até comerciantes, artesãos e escravos.

Essas cidades eram governadas por alguns dos primeiros “Estados” — ou seja, organizações não baseadas no parentesco, que dependiam mais da coerção do que da aquiescência dos governados. Enquanto as populações cresciam, a autoridade se fazia necessária para:

  1. resolver conflitos,
  2. organizar a irrigação da terra e
  3. construir depósitos de alimentos.

Contudo, quando os rios começaram a secar, a concorrência entre as cidades se intensificou, e a guerra se tornou mais comum. Ao mesmo tempo, essas cidades foram cada vez mais desafiadas pelas culturas dos povos guerreiros vindos de terras não agrícolas, sem população fixa: com suas habilidades como caçadores e pastores, eram mais eficazes militarmente do que seus vizinhos agricultores.

Por volta de 2300 a.C., porém, encontramos nômades guerreiros e culturas urbanas agrárias se combinando, pela primeira vez, para formar um novo tipo de Estado — o Império Agrário, fundado sobre a cobrança de tributos.

O Império Agrário, governado por elites de guerreiros e proprietários de terras, dominaria grande parte do mundo por cerca de 4 mil anos, até a espetacular implosão de cinco de seus últimos e maiores exemplares, no início do século XX:

  1. a China da dinastia Qing em 1912,
  2. a Rússia dos Romanov em 1917,
  3. o Império Austro-Húngaro dos Habsburgo e
  4. a Alemanha dos Hohenzollern em 1918, e
  5. o Império Otomano em 1923 (embora seus resíduos nos impérios europeus ultramarinos continuassem vivos, cambaleando, até os anos 1950 e 1960).

Os Impérios Agrários eram normalmente administrados por aristocratas, que encarnavam os valores tanto dos guerreiros como dos proprietários rurais, em estreita aliança com os sacerdotes, os quais justificavam o domínio deles, e usando funcionários para administrá-los. Juntas, essas elites viviam do trabalho da massa da populaçãoo campesinato —, que lhes pagava tributos sob a forma de impostos. Além disso, também cobravam tributos dos povos vizinhos mais fracos.

Esse tipo de Estado era muito mais hierárquico do que as sociedades anteriores, baseadas em clãs: os camponeses, em geral autossuficientes, eram coagidos a entregar sua produção à guisa de imposto, recebendo bem pouco em troca.

Contudo, a relação não era inteiramente parasitária. Os camponeses precisavam estar seguros em suas terras e ter a garantia de um nível mínimo de paz para poder produzir um excedente tributável. Os governantes os protegiam e, com os sacerdotes, organizavam a distribuição dos cereais em tempos de fome.

Enquanto isso, os sacerdotes, com suas orações e rituais, apaziguavam os deuses, para evitar as ameaças onipresentes de desagrado divino, sob a forma de doenças e desastres naturais. Embora essas sociedades fossem culturalmente muito hierárquicas, do ponto de vista econômico eram mais igualitárias que as sociedades capitalistas modernas, onde a maioria das pessoas não possui terra nem outros recursos produtivos necessários para lhes garantir alguma autonomia.

Os sábios justificavam essa hierarquia desenvolvendo várias versões e elaborações da ideia de casta — a noção de que a sociedade era dividida em ocupações fixas, herdadas. Uma das esquematizações mais antigas que ainda sobrevivem se encontra no Rig Veda, texto religioso indiano escrito entre 1700 a.C. e 1500 a.C.:

Quando os deuses prepararam o sacrifício com Purusha [o primeiro homem] como sua oferenda […].

Quando eles dividiram Purusha, quantas porções fizeram?

Que nome deram à sua boca, aos seus “braços?

Que nome deram às suas coxas e aos seus pés?

O sacerdote [brâmane] era sua boca;

com seus dois braços foi feito o guerreiro [xátria].

Suas coxas se tornaram as pessoas comuns [vaixá], e

dos seus pés foram feitos os servos [sudras].

Teorias semelhantes, baseadas em três ou quatro camadas, podem ser encontradas na maioria das sociedades agrárias. Os sábios, ou sacerdotes, ficavam quase sempre no topo — sobretudo porque eram eles que escreviam os textos. Normalmente, eram os guerreiros e seus chefes, os reis, que exerciam o verdadeiro poder.

No mundo medieval islâmico, colocavam-se os “homens da pena” acima dos “homens da espada”, seguidos pelos “homens do comércio” e pelos agricultores.

Também os estudiosos confucionistas davam proeminência a si mesmos.

Raras vezes eram os guerreiros aceitos como superiores: apenas em sociedades mais militaristas, como o Japão.

Contudo, a aparente estabilidade apresentada por esses sistemas de castas encobria as tensões entre os detentores dos diferentes tipos de poder. Especialmente graves eram os conflitos entre as castas que compunham os dois braços de Purushaos guerreiros e os proprietários rurais.

Esperava-se das elites agrárias dos impérios que combinassem ambas as funções, pois a terra dava riqueza, mas a força também era um elemento crucial do governo — para coletar “tributos”, tanto dos camponeses como de terras [populações] estrangeiras.

No entanto, havia também uma tensão entre a cultura da aristocracia latifundiária e a dos guerreiros:

  1. os proprietários rurais precisavam “cuidar” de seus súditos camponeses para poder extrair impostos deles, enquanto
  2. os guerreiros, embora essenciais para a defesa e extração de tributos de outros povos, muitas vezes desenvolviam uma cultura de violência, rixas internas e parasitismo capaz de destruir uma economia agrícola produtiva.

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