Casta dos Guerreiros no Brasil Colonial

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David Priestland, no livro “Uma Nova História do Poder – Comerciante, Guerreiro, Sábio”, argumenta que podemos compreender melhor nossa história recente se nos apoiarmos no papel das castas e de seus valores, com suas raízes distantes nos quatro antigos grupos ocupacionais e culturais:

  1. o aristocrata ou soldado,
  2. o sábio ou sacerdote,
  3. o comerciante e
  4. o trabalhador ou camponês.

Isso não significa que a sociedade seja, inevitavelmente, organizada segundo hierarquias ocupacionais, nem que deveria ser. De fato, Priestland argumenta que velhas práticas e desigualdades precisam ser desafiadas. A intenção é apenas sugerir que a casta é uma categoria de análise extremamente útil.

Na maioria das sociedades pré-modernas, a aristocracia guerreira era a casta dominante. Esperava-se dos governantes que combinassem duas funções intimamente ligadas: o guerreiro heroico, em busca da fama, e o “pai do povo”.

Muitas vezes o espírito guerreiro foi separado do paternalista: imitavam os padrões de fraternidade dentro do grupo, mas não tinham nada de familiar em suas relações com os “forasteiros”. Hoje, as unidades militares modernas e as gangues de traficantes de Los Angeles atuam da mesma maneira.

Os sábios — instruídos e manipuladores de ideias — também tinham duas funções inicialmente:

  1. eram clérigos, ou figuras religiosas, e
  2. funcionários públicos ou escrivães.

O papel do sábio-sacerdote como defensor ideológico ou reformador da ordem prevalecente foi adotado por toda uma gama de tipos modernos, desde redatores de discursos, jornalistas e acadêmicos até “homens santos” dos tempos modernos, com sua cultura de inspiração, paixão e espontaneidade. Mas é a outra forma de sábio — o escrivão, ou perito “sábio-tecnocrata” — a mais dominante hoje, e em grande parte do mundo a sua cultura, tanto de profissionalismo especializado como de burocracia, vem eclipsando, cada vez mais, as formas aristocráticas de governo.

O terceiro espírito — o do comerciante — hoje penetrou na maioria das áreas da vida; mas pode ser visto em sua forma mais pura, obviamente, no comércio e nas finanças. O comerciante muitas vezes tem duas caras:

  1. com sua flexibilidade, seu amor ao networking, sua disposição para negociar com todos, sejam quais forem a classe, etnia ou religião, ele mostra seu rosto brando, tolerante e cosmopolita;
  2. mas ele também tem um aspecto muito mais firme, mais moralista, que aparece quando em conflito com os outros.

Assim, enquanto seu amor pela eficiência e pela inovação ajudou, sem dúvida, a enriquecer a humanidade como um todo, o igual interesse do comerciante em obter o maior lucro no mínimo de tempo às vezes é de difícil alinhamento com os interesses mais amplos de comunidades específicas. Por exemplo, quando ele se recusa a investir no longo prazo, com medo de perder oportunidades melhores, ou quando procura obter o máximo de lucro do trabalho individual. É inevitável que essa compulsão crie tensões, às quais o comerciante pode responder de maneiras mais ou menos liberais.

Normalmente subordinados pelas três castas dominantes estão os trabalhadorescamponeses, artesãos (com sua criatividade e seu orgulho do próprio trabalho) e proletários. Em resposta, eles muitas vezes desenvolveram uma poderosa cultura de solidariedade comunitária para se proteger e fazer valer os seus direitos — de maneira mais eficaz no Ocidente industrial, entre as décadas de 1880 e 1970.

Essa visão de castas da sociedade é inusitada, e os leitores deste modesto blog pessoal vão se perguntar de que modo uma visão tão arcaica do mundo pode ser uma obra séria de história.  Na verdade, há boas razões para que as castas, com os valores que lhes são associados, persistam ao longo do tempo.

Os seres humanos têm objetivos diferentes, mas para alcançá-los eles precisam exercer o poder, dominando o meio ambiente e estabelecendo alguma forma de cooperação social. Eles formam uma grande variedade de redes sociais e instituições para ajudá-los a atingir seus objetivos, desde a família ampliada até um exército profissional, cada um com diferentes formas de organização. Mas alguns tipos de rede de contatos são mais eficazes que outros para exercer o poder, tais como as Forças Armadas, as empresas e a burocracia, e são elas que sobrevivem ao longo da história, mesmo que suas ocupações e estruturas econômicas mudem. Essas são, portanto, as castas.

Vamos, em uma série de posts escritos a partir de informações recolhidas na Wikipedia, recuperar a história das castas no Brasil. Iniciemos pela casta dos guerreiros.

A história do Exército Brasileiro começa oficialmente com o surgimento do Estado brasileiro, ou seja, com a independência do Brasil. Entretanto, mobilizações de brasileiros para guerra existem desde a colonização do Brasil, sendo as primeiras dignas de nota, as efetuadas contra as tentativas de colonização francesa no Brasil, nas décadas de 1550 e de 1610.

No período colonial, o rei D. Manuel I mandou organizar expedições militares com a finalidade de proteger os domínios portugueses na América, então recém-descobertos. À medida que colonização avançou em Pernambuco e São Vicente, as autoridades militares nativas e bases da organização defensiva da colônia começaram a ser construídas para fazer frente às ambições dos franceses, ingleses e holandeses.

De maneira seminal, a História do exército brasileiro se iniciou em 1548 quando D. João III resolveu criar um governo-geral com sede na Bahia. Primeiras intervenções de vulto ocorridas foram a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, no século do descobrimento, e do Maranhão, em 1615. À medida que avançou a interiorização através do amplo movimento de expansão territorial no século XVII e do início do século XVIII, as Entradas e Bandeiras forçaram a organização da defesa do território recém conquistado. As forças expedicionárias de caráter eminentemente militar iniciaram a utilização da população local, particularmente de São Paulo, pelos capitães-mor, em busca de riquezas ou da escravização dos índios.

A reação contra a invasão dos holandeses, no século XVII, pela primeira vez mobilizou grandes efetivos no país, e particularmente começou a haver um sentimento de defesa nacional, independentemente da influência da coroa. A primeira Batalha de Guararapes (19 de abril de 1648) marca o início da organização do exército como força genuinamente brasileira formada por brancos locais, liderados por André Vidal de Negreiros, índios, liderados por Felipe Camarão e negros/mulatos, liderados por Henrique Dias. Esta data é comemorada como o aniversário do Exército Brasileiro.

Nesta época, seguindo o modelo de organização do Exército Português implementado na sequência da Restauração da Independência de Portugal em 1640, as forças terrestres no Brasil adotam a organização em três linhas que se irá manter até ao século XIX, que inclui:

  • 1ª linha – Tropas pagas;
  • 2ª linha – Tropas auxiliares (designadas “milícias” a partir do final do século XVIII);
  • 3ª linha – Ordenanças.

Ao longo do século XVIII, o Brasil-colônia teve sérios problemas de fronteira principalmente no extremo sul. Naquela época, eram frequentes os choques entre luso-brasileiros e hispano-platinos, além disso, a força terrestre enfrentou a ameaça das rebeliões de índios e negros.

O marquês de Pombal tentou organizar de forma mais profissional o Exército Português, que havia sido descurado depois de um longo período de paz. Para esse fim, contrata o conde Guilherme de Schaumburg-Lippe, militar alemão, que trouxe para auxiliá-lo vários oficiais estrangeiros. Entre estes, encontrava-se o general João Henrique Böhm que logo é enviado para o Brasil, com o objetivo de reorganizar as forças locais e comandá-las na defesa das fronteiras do Sul. Da Metrópole Portuguesa, Böhm leva consigo três regimentos de infantaria que, depois de combaterem nas guerras do Sul, acabaram por ficar permanentemente no Brasil.

Na reorganização promovida por Böhm construíram-se quartéis, casas de armas, fortificações e hospitais. A guarnição do Rio de Janeiro passou a ser centro de preparação para as tropas que demandavam o sul.

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