Três Temas Básicos da Filosofia de Auguste Comte

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José Arthur Giannotti escreveu “Comte: Vida e Obra” como prefácio à coletânea de trechos da obra de Auguste Comte publicada no Brasil na coleção Os Pensadores (São Paulo; Abril Cultural; 1983). Destacarei abaixo alguns trechos.

O núcleo da Filosofia de Comte radica na ideia de que a sociedade só pode ser convenientemente reorganizada através de uma completa reforma intelectual do homem.

Com isso, distingue-se de outros filósofos de sua época, como Saint-Simon e Fourier, preocupados também com a reforma das instituições, mas que prescreviam modos mais diretos para efetivá-la. Enquanto esses pensadores pregavam a ação prática imediata. Comte achava que antes disso seria necessário fornecer aos homens novos hábitos de pensar de acordo com o estado das Ciências de seu tempo.

Por essa razão, o sistema comteano estruturou-se em torno de três temas básicos.

  • Em primeiro lugar, uma Filosofia da História com o objetivo de mostrar as razões pelas quais uma certa maneira de pensar (chamada por ele filosofia positiva ou pensamento positivo) deve imperar entre os homens.
  • Em segundo lugar, uma fundamentação e classificação das Ciências baseadas na Filosofia Positiva,
  • Finalmente, uma Sociologia que, determinando a estrutura e os processos de modificação da sociedade, permitisse a reforma prática das instituições.

A esse sistema deve-se acrescentar a forma religiosa assumida pelo plano de renovação social, proposto por Comte nos seus últimos anos de vida.

A Filosofia da História — primeiro tema da filosofia de Comte — pode ser sintetizada na sua célebre Lei dos Três Estados que refletem o progresso do espírito. Todas as ciências e o espírito humano como um todo desenvolvem-se através de três fases distintas:

  1. a teológica,
  2. a metafísica e
  3. a positiva.

No Estado Teológico, pensa Comte, o número de observações dos fenômenos reduz-se a poucos casos e, por isso, a imaginação desempenha papel de primeiro plano. Diante da diversidade da natureza, o homem só consegue explicá-la mediante a crença na intervenção de seres pessoais e sobrenaturais. O mundo torna-se compreensível somente através das ideias de deuses e espíritos.

Segundo Comte, a mentalidade teológica visa a um tipo de compreensão absoluta. O homem, nesse estágio de desenvolvimento, acredita ter posse absoluta do conhecimento. Para além dos limites dos seres sobrenaturais, o homem não coloca qualquer problema, sentindo-se satisfeito na medida em que a possibilidade de recorrer à intervenção das divindades fornece um quadro para compreensão dos fenômenos que ocorrem ao seu redor.

Paralelamente às funções de explicação da natureza, a mentalidade teológica desempenharia também relevante papel de coesão social, fundamentando a vida moral. Confiando em poderes imutáveis, fundados na autoridade, essa mentalidade teria como forma política correspondente a Monarquia aliada ao Militarismo, ou seja, a casta dos aristocratas governantes aliada à casta dos guerreiros.

O Estado Teológico, para Comte, apresenta-se dividido em três períodos sucessivos:

  1. o fetichismo,
  2. o politeísmo e
  3. o monoteísmo.

No fetichismo, uma vida espiritual, semelhante à do homem, é atribuída aos seres naturais.

O politeísmo esvazia os seres naturais de suas vidas anímicas — tal como concebidos no estágio anterior — e atribui a animação desses seres não a si mesmos, mas a outros seres, invisíveis e habitantes de um mundo superior.

No monoteísmo, a distância entre os seres e seus princípios explicativos aumenta ainda mais. O homem, nesse estágio, reúne todas as divindades em uma só.

A fase teológica monoteísta representaria, no desenvolvimento do espírito humano, uma etapa de transição para o Estado Metafísico. Este, inicialmente, concebe “forças” para explicar os diferentes grupos de fenômenos, em substituição às divindades da fase teológica. Fala-se então de:

  1. uma “força física”,
  2. uma “força química”,
  3. uma “força vital”.

Em um segundo período, a mentalidade metafísica reuniria todas essas forças numa só, a chamada “natureza”, unidade que equivaleria ao deus único do monoteísmo.

O Estado Metafísico tem, segundo Comte, outros pontos de contato com o teológico. Ambos tendem à procura de soluções absolutas para os problemas do homem. A metafísica, tanto quanto a teologia, procura explicar:

  1. a “natureza íntima” das coisas,
  2. sua origem e destino últimos, bem como
  3. a maneira pela qual são produzidas.

A diferença reside no fato de a metafísica colocar o abstrato no lugar do concreto e a argumentação no lugar da imaginação. Nessa perspectiva comteana, o estado metafísico se caracterizaria fundamentalmente pela dissolução do teológico.

A argumentação, penetrando nos domínios das ideias teológicas:

  1. traria à luz suas contradições inerentes e
  2. substituiria a vontade divina por “ideias” ou “forças”.

Com isso, a metafísica destruiria a ideia teológica de subordinação da natureza e do homem ao sobrenatural. Na esfera política, o espírito metafísico corresponderia a uma substituição dos reis pelos juristas. Supondo-se a sociedade como originária de um contrato, tende-se a basear o Estado na soberania do povo.

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