Casta dos Sábios-Sacerdotes no Brasil Colonial

ateu-confesso

A Igreja Católica, uma das instituições típicas de sociedades agrárias que perduraram por 4.000 anos, exerce ainda grande influência nos aspectos político, social e cultural dos brasileiros. Segundo pesquisa de 2014, 81% da população brasileira foi criada no catolicismo, porém apenas 61% da população permanecia católica naquele ano. Um dos desafios enfrentados pela Igreja Católica no Brasil é a perda de fiéis para igrejas protestantes e, em menor medida, para a irreligião: falta de crença ou ateísmo.

Ateísmo é a doutrina que nega categoricamente a existência de Deus ou de qualquer outra divindade. A falta de crença em Deus é diferente do agnosticismo: atitude filosófica e religiosa daqueles que afirmam que ideias metafísicas, como a existência de Deus e a imortalidade da alma, não podem ser provadas nem negadas. Como essa crença no sobrenatural não tem evidências testáveis por métodos científicos, simplesmente, não há nenhuma prova experimental a respeito de seus mitos.

Porém, a Filosofia mostra as contradições lógicas da Teologia. Por exemplo, onipotência é o poder absoluto e ilimitado. Onisciência é o conhecimento pleno e absoluto sobre tudo. A Teologia prega que há um saber divino, absoluto e infalível, segundo os fiéis das religiões monoteístas. Porém, se este ser sobrenatural tem a qualidade ou a condição de onisciente, ele não pode possuir a qualidade ou condição de onipotente: se ele sabe tudo que ocorrerá no futuro, jamais poderá alterar a dependência da trajetória, senão o futuro se alterará. Se assim for, ele não é onipotente. Entre as duas qualidades, há de escolher uma…

Se o Brasil é considerado o maior país do mundo em número de indivíduos católicos, sua hegemonia deve ser relativizada, devido ao grande sincretismo religioso –  fusão de diferentes religiões, doutrinas e cultos, cujos elementos permanecem com interpretações próprias – existente no país. No transcorrer do século XX, foi diminuindo o interesse pelas formas tradicionais de religiosidade no país. Um reflexo disso é o grande número de pessoas que se intitulam “católicos não-praticantes”. O que é isso?! É cristão ou não? Adota comumente todos os princípios morais dessa religião?

O catolicismo apostólico romano é ativo no país desde o século XVI, quando foi trazido por missionários que acompanhavam os exploradores e colonizadores portugueses território recém-conquistado, para apaziguar as consciências enquanto o genocídio dos nativos se iniciava. O cristianismo chegou ao Brasil desde o primeiro momento de interação portuguesa com os habitantes indígenas, o que resultou em espalhar germes de animais domesticados, que conviviam há milênios com os europeus, criando mecanismo biológico de autodefesa nestes, porém, para esses germes os nativos não tinham como se proteger. As doenças contaminavam a população nativa, provocando mortandade em massa.  Durante o período de colonização, ordens e congregações religiosas assumem serviços nas paróquias e dioceses, a educação nos colégios e a evangelização do indígena escravizado.

Embora alguns frades franciscanos tenham aparecido logo, as missões propriamente ditas se instalaram mais tarde. Em 1549, seis jesuítas acompanharam o governador-geral Tomé de Sousa, chefiados pelo padre Manuel da Nóbrega. Viraram celebridades o padre José de Anchieta e o Padre João de Azpilcueta Navarro.

A Companhia de Jesus, cujos membros são conhecidos como jesuítas, é uma ordem religiosa fundada em 1534 por um grupo de estudantes da Universidade de Paris, liderados pelo basco Íñigo López de Loyola, conhecido posteriormente como Inácio de Loyola. Essa Congregação foi reconhecida por bula papal em 1540, pois foi fundada no contexto da Reforma Católica (também chamada de Contrarreforma), para os jesuítas fazerem votos de obediência total à doutrina da Igreja Católica, tendo Inácio de Loyola declarado: “acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado”!

Os carmelitas chegaram em 1580, as missões dos beneditinos tiveram início em 1581, as dos franciscanos em 1584, as dos oratorianos em 1611, as dos mercedários em 1640, e as dos capuchinhos em 1642.

Durante o século XVI e o século XVII, a legislação buscou certo equilíbrio entre o Governo central, isto é, a casta dos aristocratas guerreiros portugueses, e a Igreja, tentando administrar os conflitos entre:

  1. missionários (casta dos sábios sacerdotes),
  2. colonos (casta dos comerciantes) e
  3. índios (párias como os hindus).

Até meados do século XVIII, o Estado monárquico controlou a atividade eclesiástica na colônia por meio do padroado: direito de protetor, adquirido por quem funda ou dota uma igreja, ou o direito de conferir benefícios eclesiásticos. Arcava com o sustento da Igreja e impedia a entrada no Brasil de outros cultos, em troca de reconhecimento e obediência. O Estado nomeia e remunera párocos e bispos e concede licença para construir igrejas. Confirma as condenações dos tribunais da Inquisição e escolhe as formas de punição. Em contrapartida, controla o comportamento do clero, pela Mesa da Consciência e Ordens, órgão auxiliar do Conselho Ultramarino.

O Estado português não era laico: alheio ao clero ou a qualquer outra ordem religiosa, ou seja, leigo e oposto ao controle do clero sobre a sociedade. Só com o positivismo se disseminando na casta dos guerreiros militares, na segunda metade do século XIX, surgiram indivíduos que defenderam que o Estado não pertence ao clero, assumindo uma posição contra a influência do clero na vida intelectual, moral e nas instituições em geral.

Em 1707, com as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, elaboradas por bispos em uma reunião em Salvador, a hierarquia da Igreja conquista mais autonomia. Essas constituições uniformizam:

  1. o culto,
  2. a educação,
  3. a formação do clero e
  4. a atividade missionária.

Não impedem, porém, o agravamento dos conflitos entre colonos (casta dos comerciantes) e padres (casta dos sábios sacerdotes), em torno da escravização dos índios, que desembocam no fechamento da Companhia de Jesus pelo Marquês de Pombal em 1759.

Já no Brasil Imperial, nas décadas de 1860 e 1870, a Santa Sé, em Roma, decreta regras mais rígidas de doutrina e culto. Bispos brasileiros, como Dom Antônio de Macedo Costa, Bispo de Belém do Pará e Dom Vital de Oliveira, Bispo de Olinda, acatam as novas diretrizes e expulsam os maçons das irmandades. Isso não é aceito pelo governo, muito ligado à maçonaria, dando início à chamada Questão Religiosa, culminando com o encarceramento e trabalhos forçados destes bispos em 1875.

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