Ser do Contra — e A Favor da Direita?!

Passei o fim-de-semana com amigos cariocas e tive tempo para me atualizar em fofocas sobre “ex-companheiros”:

“Fulano, aquele esquerdista radical-chic, morador da Zona Sul, herdeiro de Sicrano, agora diz que odeia o Lula!”

“Mas por que”, pergunto eu, “se Lula tem seu lugar garantido na história do Brasil e Fulano nunca deixou sua marca no mundo, sequer ensinou algum coisa positiva a alguém, assinou um mísero artigo ou publicou um pequeno livro?! Quem verá seus rastros além do seu tempo de vida?”

Acho que, lendo uma divertida crônica de Gregório Duvivier, passei a entender. É apenas uma moda passageira. Alguém fazendo gênero para seu reduzido mundinho do feicebuque

Antes de ler a crônica, é bom se informar sobre o que é ser hipster:

Hipster é uma palavra inglesa usada para descrever um grupo de pessoas com estilo próprio e que habitualmente inventa moda, determinando novas tendências alternativas.

O termo deriva de “hip”, um adjetivo inglês usado desde a década de 1940 com o significado de “descolado” ou “inovador”, designando os jovens brancos e ricos que imitavam o estilo dos negros do jazz.

Acessórios HipsterNo início de 2000, a palavra surgiu para classificar um grupo de pessoas que na maior parte das vezes tem entre 15 e 25 anos, geralmente de classe média, que combina peças de roupa de estilo moderno e vintage, compondo um look original.

Para criar o estilo extravagante, os hipsters resgataram alguns acessórios antigos como chapéus fedora e óculos escuros modelo wayfarer. As calças skinny, poá e alguns padrões de xadrez são destaque em suas roupas.

Normalmente os hipsters têm um gosto musical bastante distinto, não gostando de bandas e músicas muito comerciais. Normalmente gostam de ouvir Tom Waitts, Bob Dylan e bandas de rock alternativas. Têm preferência por filmes antigos e adoram frequentar brechós, feirinhas, galerias de arte e museus.

Gostam de contrariar as convenções sociais, têm antipatia pela cultura comercial dominante e procuram resgatar as culturas populares locais. São contra aquilo que é descrito em inglês como mainstream, palavra que descreve os costumes, tendências e modas mais populares e seguidas pela maioria.

Se para alguns, os hipsters se vestem de um jeito inusitado e autêntico, para outros são classificados como cafonas, com visual afetado e criadores de combinações desastrosas.

Se você, como eu, não sabia o que era ser hipster, agora pode ler (e entender) a crônica do Gregório Duvivier:

Que tipo de hipster você é?

“O hipster pioneiro chegou aqui antes de você. Antes de todo o mundo. Agora que você já começou a frequentar, e junto com você a “Vejinha“, e as blogueiras, e os globais, isso aqui descaracterizou. Mas quando ele começou a vir, isso aqui era true. Só vinha o pessoal do bairro, mesmo. Não, ele não é do bairro. Mas já vinha. Era o único.

O hipster desconectado descobriu que a gente é escravo da tecnologia, então saiu de todas redes sociais, mas vive pedindo o seu telefone emprestado pra mandar um whats. Teve crise de abstinência fora do face e criou um perfil fake só pra confirmar que não tá perdendo nada. Desde então, entra todo dia só pra ter certeza. “Aquilo é uma perda de tempo”.

O hipster de hashtag costuma criticar qualquer movimento da internet porque, afinal de contas, é só um movimento de internet – diz ele na internet. A gente tem que falar pra fora da bolha –diz ele pra própria bolha. A gente tem que parar de fazer ativismo de sofá –posta ele, sentado no sofá.

O hipster do sofrimento conhece sempre alguém que tá sofrendo mais que você. “Tadinha, você acha que ser mulher no Brasil é difícil? Experimente no Sudão.”

O hipster da música chama disco de álbum e já não gosta mais de vinil porque todo o mundo passou a gostar, daí perdeu a graça. Hoje em dia, só ouve fita cassete. Tá redescobrindo os anos 1990 e encontrou uma fita do Vengaboys que é uma relíquia. “Que álbum!”.

O hipster da série bufa quando você pergunta se ele gostou de “Narcos” – só assistiu a versão colombiana. A última série americana que assistiu foi “Twin Peaks”. “The Office”, só viu o inglês, “In Treatment”, só o israelense – baixados por um esquema complicadíssimo que envolve mudar o IP pra Coreia do Norte.

O hipster da amizade é muito mais amigo dos seus amigos que você. Seu amigo Fabio pra ele é o Fabinho, casado com a Bi, filho da Mamá, a famosa Tia Mamá, como assim você não conhece a Tia Mamá? Faz um bobó maravilhoso.

O hipster da política acha que a direita acabou e a esquerda nunca existiu. Sabe que o impeachment foi uma farsa mas se recusa a embarcar na narrativa do golpe. Critica a polarização, mas não se diz um isentão, afinal tudo não passa de significantes vazios. A solução? Criar um entre-lugar para pós-narrativas que despossibilitem um não-discurso pós-despolarizante.

O hipster dos hipsters faz uma lista dos tipos de hipsters sem perceber que isso é uma coisa meio hipster, daí se inclui no final.”

Se você era um alienado em relação à política brasileira e está chegando agora, leia o artigo de Celso Rocha de Barros (FSP, 20/03/17):

“A esta altura, não se sabe bem o que seria considerado uma surpresa na lista de Janot. A única dúvida é se alguém politicamente relevante ficará de fora (Marina Silva talvez?). Os outros que talvez comemorem sua ausência, como Bolsonaro, não foram comprados, porque as empreiteiras buscavam políticos competentes o suficiente para participar de discussões e decisões importantes. Em 30 anos de carreira legislativa, o máximo que Bolsonaro produziu em troca de seu alto salário de deputado foram duas ou três piadas sobre gays.

Os outros grandes quadros da política brasileira devem aparecer na lista. Sim, é importante saber o grau de envolvimento de cada um dos citados. Mas não se deixe enganar pela discussão sobre caixa um e caixa dois: o dinheiro pode ter entrado pelas mais variadas reentrâncias, mas sua origem é um cartel de empreiteiras que roubava dinheiro dos contribuintes. O cartel dava dinheiro para políticos em troca de tolerância à sua manipulação de preços. Todas as doações foram dinheiro do crime.

  • Alguns dos acusados terão negociado essa transação pessoalmente, outros o terão feito por meio de subordinados.
  • Outros terão recebido dinheiro por serem aliados ou correligionários de alguém importante que vendeu um favor.
  • Deveriam ter perguntado por que estavam recebendo dinheiro de empresas que faziam o grosso de seus negócios com o governo, mas não perguntaram.

De qualquer jeito, fica claro que o sistema era esse, e já fazia tempo que era. Os esquemas vinham de décadas.

Portanto, a primeira lição a tirar do episódio é: não, nunca houve uma época em que tudo fosse mais honesto.

O que havia eram ditaduras, como a que Bolsonaro apoiou, que teriam fuzilado Sergio Moro e Deltan Dallagnol quando suas investigações chegassem no primeiro assessor de ministro.

Em segundo lugar, não é razoável supor que todos esses políticos sejam gente pior que nós. Se todos aceitaram dinheiro do cartel, é porque devia mesmo ser muito difícil se eleger sem aceitá-lo. Portanto, enquanto a polícia e o Judiciário cumprem seu papel, precisamos pensar em formas de tornar nossas campanhas mais baratas. Se não mudarmos essas regras, mesmo que elejamos 500 Pepes Mujicas em 2018, em 2022 todos serão Eduardos Cunhas.

Em terceiro lugar, a Lava Jato é o início de uma transição de um tipo de capitalismo em que a proximidade entre Estado e empresas se dava por captura, para um outro tipo, que esperamos mais dinâmico e transparente. Devemos discutir com mais vigor quais serão as regras desse novo arranjo, até para evitar a possibilidade de que a transição seja interrompida.

O custo de combater a corrupção nestes últimos anos foi muito alto: parte de nossa crise atual se deve ao desmantelamento de empresas que compravam deputados e fraudavam licitações, mas eram também responsáveis por parte importante do investimento nacional. Se conseguirmos reorganizar nossa economia, agora dentro da lei, esse PIB perdido nos últimos anos será recuperado rápido, será pago várias vezes. Mas se pararmos no meio do caminho, ele terá sido perdido por nada.

Precisamos repensar o modelo de negócios brasileiro e precisamos de campanhas mais baratas. E, talvez, agora que ninguém pode fingir que é moralmente superior ao outro, consigamos discutir isso como adultos.”

Leia mais:

Polarização e crise favorecem acordão contra Lava-Jato

39 thoughts on “Ser do Contra — e A Favor da Direita?!

  1. Faltou o hipster do preconceito que vai dizer que isso é coisa do passado que agora todos tem os mesmo direitos portanto ta tudo resolvido. A direita é a nova esquerda e a direita antiga é a nova ultradireita.

      1. Rsss desculpe a falta de clareza eu quis dizer que a nova direita eh a ultradireita….

      2. Então como seriam classificados Hitler e Mussolini, Ana? (Aliás, ambos antiliberais e estatistas.)

      3. Alexandre,
        você está a um passo de dizer que Hitler tinha uma ideologia socialista, quando faz uma insinuacao de que ele era estadista.

        Cuidado com esse tipo de argumento, pois voce está misturando conceitos completamente diferentes.

        Alem disso, no tocante à segregacao racial e xenofobia que estamos vivenciando no mundo, principalmente na Europa, eu diria que as ideias nazistas estao voltando tomarem força novamente nos discursos conservadores como no de Trump nos EUA.

      4. Ana, não era minha intenção, mas já que sugeriu que fosse, sim, Hitler era de certa forma socialista. O socialismo e o fascismo são estruturalmente semelhantes, embora a essência seja diferente – já a partir do fato de que um é internacionalista e o outro nacionalista, mas não apenas aí. Essa questão, acredite, suscita debates ainda inconclusos, mesmo em parte do meio intelectual. Acho que é você quem está confundindo conceitos.

        De qualquer forma, acho um tremendo exagero classificar quem se opõe a uma imigração em massa de “extrema-direita” ou de “populista”, e escrevo isso pensando na Europa, não em Trump.

        PS: Trump não é conservador, é só um dono de cassino.

        Um abraço.

      5. Prezados Ana e Alexandre,
        Significados de Socialismo são múltiplos:

        1 Toda doutrina que prega um sistema econômico e político que se fundamenta na socialização dos sistemas de produção e no controle estatal dos setores econômicos.

        2 Perspectiva política que advoga o planejamento e a regulação da vida social, de acordo com metas coletivas.

        3 Sistema que pretende diminuir as desigualdades e atender às parcelas mais carentes da população.

        4 Conjunto de partidos, políticos, pensadores etc. que defendem essas ideias.

        Socialismo científico expressa o socialismo associado principalmente aos marxistas que, partindo da análise crítica e científica do capitalismo e suas contradições, propõe uma ação mais prática e direta contra o capitalismo, por meio da organização da revolucionária classe trabalhadora.

        Socialismo cristão expressa o movimento que surgiu no meado do século XIX dentro da Igreja anglicana e que defendia a ideia de que o socialismo para ser eficaz deveria basear-se em princípios cristãos.

        Socialismo real expressa o socialismo implantado na antiga União Soviética, nos países do Leste Europeu, na China, no Vietnã e em Cuba que acabou por suprimir a tradição democrática do socialismo, no que se refere à função do Estado, dos partidos políticos, suas relações com a classe trabalhadora e a gestão da economia.

        Socialismo utópico expressa doutrina desenvolvida na primeira metade do século XIX por Robert Owen (1771-1858), Claude Henri de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier (1772-1837), entre outros, que advogava certas mudanças sociais e políticas, a fim de que se alcançasse uma sociedade mais justa e igualitária, sem apresentar, no entanto, os meios pelos quais essas mudanças se concretizariam.

        Eu, FNC, fico com esta última. Utopia, para mim, significa a crítica da sociedade realmente existente (SOREX), na realidade, é MERDEX (Mercado Deficiente Existente).

        Quanto aos meios pelos quais essas mudanças se concretizariam, sou dialético nesta questão. O acúmulo de conquistas da cidadania, i.é, de direitos civis, políticos, sociais e econômicos em conjunto com o cumprimento de deveres correspondentes (ética, pagamento de impostos, honestidade, civilidade, etc.), progressiva e gradualmente, em quantidade suficiente, levará a uma mudança qualitativa na democracia substantiva.

        Portanto, socialismo para mim não será alcançado por uma revolução súbita, tal como em um golpe de Estado (ou de sorte), usando o oportunismo de uma vanguarda e um líder carismático. Desse modo, ele governará apenas com sua nomenclatura em um regime de partido único e um regime totalitário.
        att.

      6. Oi, Fernando.

        Você trouxe aí uma boa coleção de definições para socialismo. Mas, quando se fala na possibilidade – e perfectibilidade! – de um sistema político e econômico, é preciso descrever como isso poderia funcionar na prática, no mundo real, aquele habitado pelo humanos (com sua natureza humana complexa).

        Perceba, no Utópico, por exemplo, que (quase) todos precisariam concordar sobre o que é “sociedade mais justa”, “igualitária”, entre outros conceitos vagos. Pontificar sobre o que é justo para todos pode, se posto em ação, levar a muitas injustiças.

        A sociedade sempre pode ser criticada e melhorada (todas as correntes políticas desejam isso, cada uma a seu modo), mas nunca, nunca será perfeita.

        Um abraço.

      7. Prezado Alexandre,
        De acordo. Mas há de reconhecer que progresso existe. Democracia é necessária ser respeitada para os conflitos de interesses serem decididos. E nunca se deve dizer nunca, porque aqui não estaremos para saber se acertamos nossa previsão…
        att.

      8. Sim, Fernando, é claro que o progresso existe, mas ele não é sinônimo de mudança. Dito de outro modo: nem toda mudança melhora a sociedade como um todo.

        Não sou propriamente contra a palavra “nunca”, que, se abolida, pode levar à estagnação. (Uma crítica que se faz aos conservadores mais empedernidos é seu ceticismo político exacerbado; uma que se faz aos revolucionários, é a fé cega na política para resolver os problemas do mundo.) Mas é preciso muito cuidado com as utopias sociais, baseadas que são na perfectibilidade do Homem. Além disso, numa democracia, as pessoas esperam poder votar em propostas factíveis. E claras.

        Um abraço.

      9. Prezado Alexandre,
        significados de progresso:
        1 Ato de progredir; progredimento, progressão.
        2 Marcha para diante.
        3 Ascensão profissional.
        4 Avanço de um processo.
        5 Desenvolvimento considerável na tecnologia e em outras áreas que representem melhor qualidade de vida.
        6 Expansão favorável de uma área por meio de instalação de indústrias.
        7 Processo evolutivo da civilização.
        8 Evolução de algo desagradável.

        Então, progresso melhora a sociedade.

        Política só, de fato, não resolve problemas pessoais, de costumes, sociais e econômicos. Um sistema complexo tem todos esses componentes que interagem.

        Utopia não se baseia na perfectibilidade do Homem, mas sim na crítica da realidade social. Os seres humanos, por definição, são indivíduos e, enquanto tais, distintos, particulares, cada qual com suas virtudes e seus defeitos. Estes são insuperáveis? Talvez.

        Mas a esquerda quer crer que, ao contrário do que a direita acha, que as desigualdades sociais entre indivíduos podem ser minoradas.
        att.

      10. Sim, Fernando, progresso, por definição, melhora a sociedade! O que eu quis dizer é que nem toda mudança é progresso. Ou: O que é progresso é também vago, subjetivo.

        Críticas à realidade social eu também tenho, e não sou utópico. Todos são críticos dela. Todos querem melhorá-la! A utopia pretende um mundo perfeito. Inconcebível no mundo real (ou não seria utopia).

        A direita também acha que a desigualdade socioeconômica pode ser diminuída. A diferença estaria nos meios para isso, considerando o que se entende da natureza humana e do que é justo e viável.

      11. Prezado Alexandre,
        a direita diz que a desigualdade socioeconômica através da igualdade de oportunidades, mas não aceita política afirmativa como a de cotas para igualar a “linha de partida”. E rejeita a tributação progressiva para diminuir a desigualdade na “linha de chegada”, ou seja, alcançar uma maior igualdade de resultados.

        Não praticando a igualdade de oportunidades, mas fomentando a meritocracia apenas entre seus pares, reforça a desigualdade.

        A concepção convencional de utopia é “qualquer descrição ou conceito imaginário de uma sociedade com um sistema social, político e econômico ideal, com leis justas e dirigentes e políticos verdadeiramente empenhados no bem-estar de seus membros. Por extensão, entende-se como plano ou sonho irrealizável; ideia generosa, porém impossível; fantasia, quimera.

        No entanto, entendo que a “ilha imaginária” de Thomas More apresenta uma das sociedades ‘possíveis’, constituída com base na razão humana.

        Trata-se de um verdadeiro exercício mental para resolver um problema que More enuncia do seguinte modo: dado um país no qual se ignorasse por completo tudo o que diz a revelação cristã, mas onde a razão humana pudesse resolver com isenção as questões do bem comum, que soluções se dariam para a organização política e social? A resposta – ou uma resposta – de Tomas More: a Utopia.

        Portanto, de acordo com minha razão, Utopia pode ser vista como uma crítica racional da sociedade real. Condição essencial para a melhorar em sentido progressista.
        att.

      12. Si, Fernando, boa parte da direita (não toda) é contra cotas e medidas assemelhadas. Mas aí estamos falando das consequências práticas (política pública) de uma cosmovisão (filosofia).

        Há um motivo (não é simples egoísmo!), uma teoria da justiça para embasar essa posição. (Por exemplo: no caso do imposto, deve pagar mais quem ganha mais ou quem usa mais?) E essa teoria é um dos objetos de discussão que separa esquerda e direita. (Pense na responsabilidade dos pais quando concebem e criam seus filhos. Esse assunto vai longe…)

        Por outro lado, boa parte da esquerda não se contenta com a igualdade de oportunidades, de “largada”.

        Como foi colocado por More, a Utopia só mostra que ele não tinha a resposta. A Política não pode, por si só, moldar a natureza humana. Esta não é maleável a ponto de termos uma sociedade perfeita, justa. (Lembrando que o conceito de justiça social está muito, mas muito longe de ser uno, e portanto generalizável.)

        O que podemos ter é um incremento paulatino de melhorias, que serão melhorias (mudanças justas e eficazes) ou não a depender de quem as julga. O progresso para uns não é progresso para outros.

        De novo: críticas sobre a sociedade real todos têm. A diferença estaria não só no tipo como também no grau.

        Um abraço.

      13. Prezado Alexandre,
        estou de acordo com esse relativismo.

        Tem temas complexos, p.ex., o IGF (Imposto sobre Grandes Fortunas): uma avaliação pragmática sugere que o custo de provocar fuga de capitais será maior do que o benefício de “once for all”, isto é, tributar de uma vez por todas.

        Incentiva também o consumo de luxo em vez do investimento financeiro em produtos que podem gerar funding.

        Enfim, a realidade é mais complexa do que o modo pelo qual as ideologias a simplificam.

        “Há mais entre o céu e a terra do que pressupõe vossa vã filosofia”: Shakespeare criticou assim os que achavam que tudo o que podemos compreender está no pensamento. Pensamos saber de tudo, mas na verdade existem muitas coisas cuja compreensão estão além do que podemos perceber.
        att.

      14. Exatamente! Não se pode ter a arrogância de achar que a complexidade do mundo real (aquele que é habitado por humanos, com todas as diferenças encontradas e singulares em cada indivíduo) pode ser modelada a ponto de caber em caixinhas que podem ser rotuladas e despachadas. Você deu um bom exemplo com o caso do IGF (que contém aspectos do que seria justo e do que seria eficaz). Edmund Burke, ao comenta o Grande Terror, chamava isso de “teorias de gabinete”.

      15. Alexandre,
        eu nao acho exagero chamar de extrema direita varias manifestacoes xenofobicas da Europa.

        Nao sei dizer se, conceitualmente, é o melhor termo. Por enquanto, nao vejo outro.

        Mas nao consigo ignorar o fato de a Europa ( e o mundo) estar cada vez mais mergulhada num individualismo exacerbado, tendendo a violencia e a “eliminacao” do outro. Nao entrei em debates sobre isso mas nao penso que seja uma mudanca desconsideravel.

      16. Ana, nem toda manifestação contra imigração maciça é xenofobia, racismo, etc. (Obs.: Existem sim alguns bons motivos para reclamar contra a imigração – nem todo imigrante é refugiado, note-se – sem freios, mas nem é este o caso que discuto aqui.) Estão colocando todos no mesmo saco. Saco que recebeu o rótulo de extrema-direita, um conceito vago (aplicado ao nazifascismo, repito). No limite, podem interditar o debate – legítimo! – sobre imigração chamando todos os que dela discordam de fascistas, nazistas e por aí vai… E isso seria antidemocrático.

        Não está havendo “individualismo exacerbado”, o que seria uma característica do “liberalismo exacerbado”. O que está no centro da questão migratória (mas também econômica) é o conservadorismo, e a oposição nacionalismo/nativismo x globalismo, especialmente na Europa. Veja que o Trump não é um conservador genuíno; além disso, ele está se opondo à globalização – que é diferente de globalismo – nos termos atuais. A coisa é mais complexa do que parece. Há grandes fatores/interesses geopolíticos (EUA, Rússia, China e União Europeia) por trás disso. Temos que tomar cuidado com os clichês e análises superficiais.

        Um abraço.

        PS: Também é preciso cuidado com o “coletivismo exacerbado”.

      17. Desculpe-me, Alexandre, discordo totalmente de você. Agradeço ter compartilhado seu ponto de vista. Abraços.

      18. Oi, Ana, para dizer que “discorda totalmente”, seria interessante dizer por quê. Eu escrevi, da última vez, dois robustos parágrafos que abordavam mais de um tema, a rigor.
        Cuidado com os clichês, eles fazem mal à democracia.
        Um abraço.

      19. Alexandre,
        os meus argumentos já foram colocados.

        Não entrarei em discussoes sobre que seria um clichê ou sobre democracia porque seria outra discussão igualmente profunda e não gosto de trata-la em caracteres limitados, fato pelo qual fui breve e sucinta a ponto até de nao ser compreendida na minha primeira colocação no post. Ser prolixo a meu ver sobre temas complexos em contextos e lugares inadequados é vulgarizar a discussão.

        Meu comentário ao post inicial do Professor Fernando se refere à charge e às colocações de que há uma parcela da sociedade que profere o preconceito e ao mesmo tempo se diz contraria a ele. Isto entre outras ideologias que no meu entendimento sao fruto de uma desconstrução de valores humanitarios pelo contexto pós moderno.

        Para que haja um dialogo construtivo, sugiro nao se ater a partes dos comentários para criticá-los sem um sentido no qual direciona-los. E que seja levado ao ambiente adequado, preferencialmente, na academia. Pois do contrario apenas minha opinião ou a sua já sao suficientes.
        Abcs

      20. Ana,

        Não se trata de ser prolixo(a) – que é uma característica indesejável aqui ou na Academia. Você afirmou, ou sugeriu?, sem argumentar, que seriam de “extrema-direita” todos os que se opõem à imigração. Fui eu quem argumentou contra essa generalização e simplificação. Aliás, fui além: disse que esse tipo de coisa interditava o debate. (Ainda que não tenha sido sua intenção, o Ad Hominem é um tipo de falácia muito usado para interditar debates no nascedouro.)
        Eu também disse que o termo foi/é usado para classificar nazistas e fascistas, antiliberais e estatistas por excelência.

        Você acabou sendo preconceituosa quando, de cara, colocou todos como xenófobos e de “extrema-direita” tão somente por discordarem da imigração maciça.

        Diálogos construtivos dependem de argumentos e boa fundamentação (o que inclui tratar bem os conceitos e evitar os clichês).

        Um abraço.

      21. Prezados Alexandre e Ana,
        como mediador do meu blog pessoal, dou por encerrado esse debate entre dois seguidores, pois ele já está em fase de “disse-não disse”, ou seja, produzindo mais atrito do que luz.
        att.

      22. Complementando, e a título de exemplo:

        Não faz muito tempo, uma veterana articulista de O Globo escreveu que o Stephen Harper, ex-Premier do Canadá, seria de “ultra-direita”. Seu principal motivo: o então Premier deportava muitos imigrantes ilegais! (Se não o fizesse, não estaria prevaricando?)

        Abraço.

      23. Olá, Fernando. Estou sentindo falta do meu último comentário para esta fila. Falo daquele em resposta ao seu que começa com :”Prezados Ana e Alexandre,
        Significados de Socialismo são múltiplos:”
        Obrigado.

  2. Oi, Fernando.

    Bom, a ilustração “Onda do momento” é uma caricatura grosseira e maniqueísta do que significa ser de direita, e creio que sabe disso.

    O que saberemos – esperamos, ao menos – quando terminar a Lava Jato e transcorrerem os julgamentos é se houve uma mudança de paradigma, a partir do PT, na corrupção que – sim! -já existia. Mudança em termos de quantias envolvidas, métodos utilizados e objetivos políticos a alcançar (no caso, uma revolução socialista silenciosa levada a cabo desde dentro do estado). O Celso de Barros se precipitou quando disse: sempre houve corrupção, e com empreiteiras envolvidas, logo tudo está igual, e todos estão no mesmo saco.

    Sobre o artigo do Celso, acho que o Reinaldo Azevedo – que de certa forma o respeita – trouxe umas impressões interessantes a respeito, inclusive apontando alguns sofismas daquele auto. Vale para um contraponto. Infelizmente, não consegui localizá-lo agora. Mas acho que o li no blog.

    Um abraço.

    1. Prezado Alexandre,
      sobre as ideologias: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2010/02/27/direita-e-esquerda-razoes-e-significados-de-uma-distincao-politica/

      Embora eu tenha empatia com a pessoa liberal que defende a igualdade de oportunidades e a meritocracia, em discurso e na prática, não simpatizo com o neoliberal que só defende o livre-mercado, mas proteção ou reserva para si e o seu mercado. Não aprecio também os indivíduos esnobes, os que se acham mais “eficientes e competentes” que os outros simplesmente por causa de herança pecuniária.

      Mas odeio mesmo é a violência verbal e truculência da direita inculta, burra como ela só, como se vê em gente como este Reinaldo Azevedo e assemelhados — e legião de seguidores nas passeatas golpistas.

      A “elite branca” brasileira, i.é, aquela parte da classe média que “come angú e arrota perú”, é muito ignorante — e pouco se importa com isso. Pior é quando ela serve de apoio para os torturadores e extremistas de direita.
      att.

      1. Oi, Fernando.

        Conheço o link, e já debatemos lá. Inspirado no Bobbio. É bom, mas não resolve, em minha opinião. Recomendo Roger Scruton, que, inclusive, pontua muito bem a diferença entre liberais e conservadores. Muito pouco entendida por esquerda e direita.

        Indivíduos esnobes existem em qualquer lugar, em qualquer posição política. Não é preciso ser rico para ser de direita, aliás. A diferença básica vem da visão sobre a natureza humana.

        Violência, não só verbal, e truculência também há aos montes em nossa esquerda. Eu poderia citar inúmeros casos conhecidos.

        Sobre o Azevedo, você pode até não gostar dele (motivos apenas ideológicos?), mas daí a dizê-lo inculto… Este seu último parágrafo não é para alguém do seu nível, parece mais coisa de DCE de universidade.

        Golpe? Sim, acho que Dilma deu um, nas contas públicas e inclusive nos próprios eleitores.

        Um abraço.

      2. Prezado Alexandre,
        não se iluda, golpe maior nas Finanças Públicas está sendo dado pelos golpistas atuais. Aliás, os impostos irão subir… Para quem pagar?

        Respeito mais DCE de Universidade do que o Azevedo. Aliás, este eu li uma vez e jamais perdi mais tempo com ele.

        Necessito desse tempo, não o perdendo ao ler o PIG e a rede social, para então ler Roger Scruton, cujo livro “Pensadores da Nova Esquerda” já está no meu iPad.
        att.

      3. Fernando,

        Não me iludo com quase nada que venha dos governos, com nossos atuais partidos. Aliás, tenho formação em economia, como você (embora eu não milite na área, com o perdão do trocadilho). Os “golpistas atuais” então estavam com os “golpistas de antes”. (Quem se beneficiou com os números falsos, não é?) Talvez venham a ser caçados no TSE pelo mesmo motivo – diferente das questões mais áridas da contabilidade pública. Sobre a economia, a questão importante seria: Quais seriam as alternativas para cobrir o déficit? Cartas para a redação!

        Para criticar o Azevedo como você faz, seria interessante que o lesse e analisasse seu texto, parte a parte. É o que ele faz, inclusive com os textos de quem discorda muito. (O Azevedo costuma fazer uma verdadeira radiografia dos textos alheios, e tem isso como princípio no debate político.) Daí eu ter mencionado a análise dele sobre o texto do Celso. (Veja você, o RA apanha da esquerda e de parte da direita – que ele chama de “xucra”.)

        PIG não é um termo lá muito politizado, e digo isso em sentido estrito. (Tem gente que acha a Folha e O Globo veículos de esquerda, por exemplo.)

        Do Scruton, recomendo ainda mais o ‘O que é o conservadorismo” e o “Como ser um conservador” (não, não é um manual!).

        Boa leitura.

      4. Alexandre,
        curioso o ato falho: “caçados no TSE”.

        É isto mesmo que vivemos agora, nesta triste página da história do Brasil: mais uma medieval “caça às bruxas”. É mais fácil “culpar os outros”, i.é, os diferentes de si como culpados de tudo.

        A intolerância e o discurso de ódio são mútuos. Não se consegue ter empatia com quem lhe agride e se sente superior.

        Sem respeito mútuo o debate é impossível. Cria mais atrito do que gera luz.
        att.

      5. Fernando,

        Não houve ato falho. Quem descumpre as regras, a Lei, tem que ter mesmo o mandato caçado. Temos bruxas grandes e gordas na política, no empresariado… Sim, é mais fácil culpar os outros. E…?

        E quem se sente superior? Quem tem a pretensão de saber o que é bom para o “povo”? Quem conhece os caminhos para o “Bem”?

        “Sem respeito mútuo o debate é impossível. Cria mais atrito do que gera luz.”

        Concordo integralmente com você nesse aspecto!! E eu acrescentaria que, para haver democracia de verdade, é preciso respeito genuíno às regras do bom debate. Todos nós devemos tentar alcançar a Verdade com afinco. É mais importante lutar pela razão do que pela vitória.

        Abraço.

      1. Fernando, esta é a sua opinião, não necessariamente a verdade. (Eu, da minha parte, acho que Lula é culpado sim, mas não é esta a questão aqui…) De qualquer forma, o filme não poderia ser censurado, formal ou informalmente. Esse comportamento depõe contra aqueles que dizem pregar a democracia, a tolerância e a liberdade.
        Acho também válido para uma compreensão política mais abrangente o vídeo que está no link que coloquei.
        PS: O Globo é menos parcial que a Carta Capital.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s