Pressão Popular versus Ditadura de Getúlio

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Lira Neto, no livro “Getúlio 1930-1945 – do Governo Provisório À Ditadura do Estado Novo” (Vol. II, São Paulo; Companhia das Letras, 2012), conta como a mística de um Getúlio “pai dos pobres”, construída pela máquina de propaganda do Estado Novo, soube capitalizar e reverter a favor do governo instantes de intensa comoção nacional, durante a II Guerra Mundial. A censura de informações era contínua.

Intensificava-se a caçada aos “quintas-colunas”, termo usado à época para designar indivíduos que trabalhavam a favor dos nazifascistas, por meio de sabotagens, tráfico de informações, difusão de boatos e quaisquer outras ações que facilitassem os movimentos do Eixo em território nacional. A expressão fora cunhada durante a Guerra Civil Espanhola para fazer referência aos que, em Madri, apoiaram as quatro colunas do líder fascista Francisco Franco na marcha contra o governo do presidente Azaña.

A II Guerra Mundial, enfim, chegara ao Atlântico Sul. Em meados de junho, Hitler se reuniu com o almirante Erich Raeder, ministro da Marinha alemã, e autorizou novos ataques a vapores de bandeira brasileira, em águas territoriais do próprio Brasil. No início de julho, um grupo de dez submarinos nazistas, fortemente armados, partiu da costa francesa (a França continuava ocupada pelo Reich) para cumprir a missão secreta. Tinham ordem de torpedear, inclusive, embarcações de passageiros.

Teria início a fase mais sangrenta da operação de afundamento de navios nacionais. Uma intervenção militar que receberia, por parte dos agressores, o arrepiante qualificativo de “alegre massacre”.

O movimento estudantil foi o primeiro a reagir no País. Dentro da jaula montada sobre o carro alegórico iam três estudantes fantasiados, respectivamente, de Hitler, Mussolini e Hirohito. Faziam caretas, movimentos de ginástica sueca e saudações nazifascistas, arrancando gargalhadas do público. Logo atrás, em cima da carroça puxada por um burrico pintado de verde e com a braçadeira da cruz suástica presa em uma das patas, o caldeirão abarrotado de galinhas depenadas representava os “quintas-colunas integralistas”. O carro seguinte trazia uma esfinge egípcia, cuja face exibia um bigodinho e uma mecha de cabelo caindo sobre a testa, simulando as feições do Führer. Um painel com outra imagem do líder nazista o mostrava de boca escancarada, olhos esbugalhados, tentando engolir um bolo em forma de globo terrestre. “Ele se engasgará”, lia-se numa faixa, à guisa de legenda.

Um a um, entre vaias, risos e gritos de sarcasmo, os carros alegóricos foram se sucedendo na avenida Rio Branco, que amanhecera decorada de ponta a ponta com cartazes alusivos à guerra. “Morra o nazifascismo!”, “Abaixo a quinta coluna!” e “Estamos com as democracias!” — eram os dizeres mais frequentes. Panfletos que circulavam de mão em mão davam vivas a Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha e Franklin Delano Roosevelt.

Promovida pela União Nacional dos Estudantes (UNE) — organização fundada em 1937 e reorganizada no ano seguinte tendo como patronos Getúlio e o ministro Capanema —, a passeata antitotalitária reuniu 15 mil pessoas no dia 4 de julho de 1943, data escolhida para coincidir com o aniversário da independência dos Estados Unidos. O governo do estado do Rio e a prefeitura do Distrito Federal apoiaram a iniciativa, fornecendo recursos financeiros para a confecção das alegorias e tomando providências para bloquear o trânsito das ruas centrais da cidade.

A manifestação estudantil abriu no núcleo duro do governo uma crise política. Filinto Müller, germanófilo que chefiava o aparelho repressor, se negara a dar autorização para o evento. Disposto a impedir a passeata da UNE — e indignado com a ajuda que o interventor Ernani Amaral Peixoto, genro de Getúlio, oferecera aos estudantes —, foi chamado ao Ministério da Justiça. Segundo argumentou Müller, os “subversivos” poderiam aproveitar a ocasião para se infiltrar entre os estudantes e perpetrar graves atentados contra a ordem pública. Era uso comum a paranoia anticomunista como argumento para as mais bárbaras repressões, prisões e torturas.

O titular da pasta da Justiça, Francisco Campos, outro germanófilo do governo Vargas, estava afastado do posto desde o ano anterior, quando pedira licença para se submeter a tratamento médico e posterior cirurgia de tireoide. Quem vinha respondendo pelo expediente era o chefe de gabinete do ministério, Vasco Leitão da Cunha, diplomata de carreira, que não concordou com as razões apresentadas pelo chefe da Delegacia Especial de Segurança Política e Social. Por isso determinou que os policiais, em vez de reprimir, deveriam dar cobertura e garantias ao evento, coibindo a ação de imagináveis provocadores.

Filinto Müller ficou exasperado com o que ouviu. Com um revólver na cintura, ameaçou contrariar as deliberações do ministério, ao qual estava subordinada a chefia de Polícia. Não se sabe ao certo quais foram as palavras — ou palavrões — ditas pelo chefe de Polícia ao ministro interino, mas este as interpretou como um desacato. Em revide, Leitão da Cunha simplesmente lhe pôs a mão no ombro e anunciou:

“O senhor está preso.”

Müller fez menção de puxar a arma e se opor à voz de prisão.

“Não aceito! Sou um oficial do Exército”, contrapôs.

“Vá para casa e passe a chefia de Polícia ao seu substituto”, instruiu Leitão da Cunha, determinando-lhe prisão domiciliar por 48 horas.

Quando Filinto Müller saiu apressado da sala, o coronel Odílio Denys, comandante da Polícia Militar do Distrito Federal, recebeu instruções de segui-lo.

Se ele está alegando a condição de militar para eximir-se de qualquer medida relativa ao seu comportamento, o senhor é coronel e pode prendê-lo, pois ele é apenas major. Faça-o executar o que mandei”, orientou Vasco Leitão da Cunha. Os estudantes, ao saberem do ocorrido, levaram à avenida uma faixa que resumia, em linguagem futebolística, o resultado da discussão entre o ministro interino e o chefe de Polícia: “Vasco 1 × 0”.

Precavido, Getúlio resolveu equilibrar o placar e exonerou a ambos. Ainda tentou convencer o titular Francisco Campos a retornar ao cargo, mas este se negou a assumir a pasta em semelhantes condições. Em consequência, Campos também foi dispensado, em definitivo, do ministério. Getúlio aproveitou a ocasião para fazer um necessário rearranjo na equipe, demitindo o até então intocável Lourival Fontes do comando do dip, pois os dois principais chefes militares do país, Dutra e Góes, consideravam que em tempos de guerra a propaganda oficial deveria ficar sob responsabilidade de um colega de farda.

A saída repentina de simpatizantes do fascismo – Lourival Fontes do comando do DIP, Francisco Campos do Ministério da Justiça e Filinto Müller da chefia da polícia política (após ordenar a incineração de grande parte dos arquivos policiais produzidos em sua gestão) –, do governo foi interpretada pelos Estados Unidos como um importante momento de inflexão na política interna brasileira. Por isso mesmo, foi duramente criticada nas transmissões da Rádio Berlim para a América Latina.

Em um intervalo de apenas cinco dias, os torpedos dos submarinos do Eixo mataram mais 607 brasileiros embarcados em navios de passageiros. No dia 18 de julho, tão logo o DIP divulgou uma nota oficial sobre as ocorrências, uma onda espontânea de indignação tomou conta do país. Manifestantes se auto organizaram, espontaneamente, e caminharam em massa em direção ao Palácio Guanabara.

No sábado, 22 de agosto, atendendo ao clamor popular, Getúlio reuniu os ministros e comunicou-lhes que o país se via obrigado a reconhecer o estado de beligerância com a Alemanha e a Itália. Como o Japão não participara do torpedeamento dos navios nacionais, a medida não se estendeu a ele.

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