Carlos Lessa e a Recuperação do Controle Nacional sobre a Vale

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Em entrevista concedida aos pesquisadores Gloria Maria Moraes da Costa (coordenadora), Hildete Pereira de Melo e Victor Leonardo de Araújo, no livro “BNDES: Entre o Desenvolvimentismo e o Neoliberalismo (1982-2004)” (Rio de Janeiro: CICEF, 2016), Carlos Lessa deu o seguinte depoimento sobre o importante episódio que propiciou a retomada do controle nacional sobre a Vale.

A influência dos 60,5% dos fundos de pensão e do BNDES na VALEPAR, holding que controla a Vale, foi decisiva para tirar o representante do Bradesco, Roger Agnelli, de sua direção. No comando da Vale há quase 10 anos, Agnelli ficou mais conhecido pela sua capacidade de aumentar os ganhos da companhia e pela sua internacionalização. Não atuava em favor do desenvolvimento brasileiro, mas sim dos dividendos para seus acionistas e bônus para si e seus executivos.

Disse Lessa: “Quando eu cheguei ao Banco, já havia uma negociação da Bradespar vendendo ações da Valepar para o Banco Mitsui. Nós tínhamos a preferência, e eu quis exercê-la. Bobamente, eu conversei com o Furlan, que acionou o presidente da Vale, que, por sua vez, acionou o presidente da República, que negou o meu pedido, decidindo vender para o Mitsui.

Eram duas as razões dadas por ele naquela época:

  • primeiro, dizia-se que o Mitsui só queria fazer uma aplicação financeira, sem interesse no comando da Vale;
  • segundo, porque, se a operação fosse interrompida naquele momento, isso iria gerar prejuízo para a Vale.

Eu fiquei quieto e não exerci a preferência. Mas eu disse para o Furlan: “Eu tenho certeza de que o Mitsui quer ficar coproprietário da Vale para ter preferência.” Mais ou menos um mês depois, a organização dos funcionários [referência ao Investvale, clube de investimentos formado pelos empregados da Vale para comprar ações da empresa quando ela foi privatizada, em maio de 1997], que tinha comprado ações da Vale durante o governo de Fernando Henrique [Cardoso], quis fazer a negociação de venda das ações também para o Mitsui, e sem nos consultar.

Dessa vez não falei com ninguém. Simplesmente chamei a Ana, mulher do Ernani Torres, pedi que ela reunisse o grupo de análise, levei à diretoria, a diretoria aprovou, e exerci por cerca de 500 milhões de dólares a compra da parcela que o Mitsui queria.

Eu só avisei ao José Dirceu 24 horas antes. Aí tive uma reunião com Lula, Mantega, Furlan, Dirceu, Gushiken, com o BB e a Caixa. Começou assim: ‘Como é que você comprou?’ Eu respondi: ‘Foi uma operação normal, senhor presidente.’

Eu tinha parado de fazer operações com o mercado de capitais, mas acontece que o Banco tinha ações de uma companhia do Grupo Votorantim, a Vipasa, que estava amadurecida – era um projeto no setor de papéis –, e avaliamos que o Banco teria um ganho bom com essa operação. Vendemos e com os recursos compramos as ações da Vale, que estavam muito baratas. Comprei. Antes eu já tinha falado com o Gushiken, e ele deu o OK! A maior parcela está em ações de fundos de pensão complementar, administrados pelo poder público. Na prática, nós vamos trazer a Vale de volta para nós.”

Lessa não afirma que “reestatizou a Vale”, mas simplesmente exerceu a preferência da BNDESPAR, não usando a estatização como argumento. “Mas fiz, e foi uma gritaria geral. O Banco fez porque era um bom negócio, não podíamos abrir mão dele, tínhamos de decidir rapidamente e de maneira confidencial. Depois as ações não pararam de subir, e com esse ato nós quebramos todos os recordes de lucratividade do BNDES, isso no ano de 2003. Mas, mesmo assim, o governo brasileiro deu ao Bradesco a prerrogativa de escolher o presidente da Vale ainda por muitos anos.”

Dentro do governo, Lessa não acha que a partir daí as relações começaram a azedar. “O Gushiken ficou do meu lado, completamente. O Lula percebeu que eu tinha razão, porque o ganho foi enorme. Mas nos Estados Unidos a coisa não bateu bem. No Brasil, para ser gestor, você não pode ser desavisado. Às vezes eu sou desavisado. Por exemplo, no caso da Vale, eu não sabia, mas eu desmanchei uma jogada internacional colossal, que só descobri depois. Eu achava que a Vale não podia escapar das nossas mãos porque era uma questão estratégica.

Veja, a maior mineradora mundial se chama Anglo American. Depois é que eu descobri que o Banco Chase Morgan era dono de 80 ou 90% das ações preferenciais da Vale que haviam sido vendidas pelo governo brasileiro. Aí é fácil: grade one.

O que é isso? Grade one significa o seguinte: o mais baixo risco possível é concedido a essa empresa. O Banco Mitsui ia entrar para fazer o grade one: mais de 20%. E a Vale e o Bradesco estavam a favor do grade one. Feito o grade one, automaticamente, a maior parcela de ações com direito a voto seria do Chase Morgan, com o qual já havia um acordo de passá-las para a Anglo American. Por isso mandaram a Maria Sílvia [Bastos Marques, atualmente, sob o governo golpista, a presidente do BNDES] para lá. Mas eu só descobri isso depois de ter interrompido a operação. Eu não sabia!

O que eu sabia é que era um ótimo negócio para o Brasil, e que eu não podia abrir mão da Vale para o desenvolvimento brasileiro. A Vale é fundamental para o desenvolvimento espacial brasileiro, é chave. Eu sabia que as ações iriam se valorizar, mas eu não sabia que iam se valorizar tanto.

Agora, o que eu não sabia é que havia uma jogada na qual o Banco Mitsui teria um ganho enorme. A Anglo American iria se tornar a maior mineradora do mundo. A segunda maior mineradora do mundo ainda era a Vale, a maior ainda é a Anglo American. Só que a Vale vinha crescendo a uma taxa espetacular em relação à Anglo American.

A Anglo American, ao comprar a Vale, consolidaria de vez a sua posição. Essa era a jogada, mas eu não sabia, e a desmantelei na frente deles. Outra coisa que deve ter aborrecido os americanos foi o Banco não emprestar mais para empresas de capital estrangeiro, pois fiz voltar a regra do passado.”

Fica assim o registro histórico, nas palavras do próprio gestor, de uma operação tipicamente nacional-desenvolvimentista por parte do BNDES sob o governo Lula.

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