Private Banking e Milionários em Dólares

Reportagem especial do jornal Valor informa o patrimônio líquido do Private Banking que fechou 2016 com R$ 831,59 bilhões. Alega que o crescimento registrado tanto no ano de 2016, de 16,7%, quanto em 2015, 10%, é considerado muito modesto pelos principais agentes deste mercado, já que representa pouco mais que a reposição da taxa de juro básica, a Selic, da época: até outubro em 14,25% aa.

FNC: esta constatação pode ser mais apurada como faço na tabela acima, comparando a evolução da riqueza financeira per capita média de cada um dos 112.036 clientes. O cálculo da evolução do agregado incorpora o crescimento de 1,95% do número de clientes, sendo a maioria do aumento de 2.142 registrada apenas no último trimestre, pois em setembro de 2016 a ANBIMA divulgou 110.351 contra 109.894 em dezembro de 2015.

Adriana Carvalho (Valor, 24/03/17) avalia que a queda do PIB em -7,2% em dois anos (2015-16), redução dos preços no setor imobiliário, perdas no mercado de ações, tudo isso tornou o difícil cenário econômico enfrentado pelos brasileiros milionários em dólares nos últimos anos. Encolheu o número de investidores locais com aplicações superiores a US$ 1 milhão e impactou no patrimônio dessa fatia privilegiada da população.

FNC: a depreciação da moeda nacional deve ter sido o principal motivo da queda da fortuna pessoal quando convertida em dólar. Além disso, o correto no cálculo do patrimônio pessoal/familiar é não considerar o valor da residência principal, pois a venda dela em geral é reposta por compra de outra, a não ser que o milionário resolva “morar de aluguel”…

O estudo World Wealth Report 2016 da consultoria Capgemini, cujos números comparam os anos de 2014 e 2015, apontou diminuição de quase 8% na quantidade de milionários e de mais de 6% no montante de ativos. “A queda é atribuída à crise. Nossa análise histórica mostra que os segmentos com patrimônio mais alto tendem a ser mais impactados pelas altas e baixas no mercado devido à natureza de seus investimentos”, diz Alex Vieira, vice presidente de serviços financeiros da Capgemini no Brasil.

 

Ele destaca que atualmente apenas cerca de um quarto da riqueza dos brasileiros milionários é administrado por gerentes ou consultores de investimentos. “É um número baixo comparado com a média global, que é de um terço. Isso pode ser atribuído ao ceticismo dos investidores devido ao declínio dos mercados e à situação de crise no Brasil”, afirma, acrescentando que não pode fazer comentários sobre os anos de 2016 e 2017 porque o relatório da consultoria sobre o período ainda está sob análise.

Ao olhar outras estatísticas, como a de Private Banking da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), pode-se ter a impressão de que o quadro não é tão negativo. Afinal, os números apontam para uma evolução de 16,7% no patrimônio administrado de investidores com mais de R$ 1 milhão em 2016 na comparação com o ano anterior, chegando a R$ 831,5 bilhões entre fundos, títulos e valores mobiliários, poupança, previdência aberta e outros investimentos. “O número pode impressionar, mas é preciso lembrar que houve uma correção do estoque de riquezas porque a Selic estava em torno de 14%. Mas o crescimento real é de pouco mais de 2%“, explica João Albino, diretor do comitê de private banking da Anbima.

Ao avaliar o número de clientes entre pessoas físicas e jurídicas atendidas no período pelo segmento private percebe-se que ele quase não se alterou: evoluiu 1,95%, passando para 112 mil no ano passado, segundo a Anbima. “Esse número de cerca de 100 mil clientes é uma base pequena. Além disso, cada banco, ao mandar suas estatísticas para a Anbima, diz o que tem na carteira. Um mesmo cliente pode ter conta em mais de uma instituição“, afirma Albino.

Ele lembra também que, embora a Anbima considere para o segmento private clientes com volume acima de R$ 1 milhão, cada instituição tem sua própria definição de valor e muitos trabalhavam com números acima disso. “Como o ano passado foi bastante difícil, alguns bancos tendem a baixar um pouco a régua para atrair mais clientes.”

O crescimento do patrimônio administrado no segmento private no ano passado pode sugerir que, com a crise, vários recursos que seriam destinados a investimentos produtivos teriam ido para o mercado financeiro. É o caso de quem tinha dinheiro para abrir uma franquia, mas talvez tenha preferido investir o valor e esperar um momento mais adequado da economia para colocar em prática o negócio.

Embora seja comum dizer que no mundo dos negócios é preciso estar bem posicionado para o momento em que a economia retomar o crescimento, isso só é colocado em prática por empreendedores com espírito mais desprendido em relação ao risco. O perfil médio de investidores ainda tende a esperar pela certeza de recuperação.

Depois de dois ou três anos ruins, as famílias com alto patrimônio tendem a aceitar um pouco mais de risco e novos produtos. A cautela, porém, não deve ser abandonada, pois não é de uma hora para outra que o comércio e o varejo vão se recuperar. Franquias, por exemplo, podem estar mais baratas, mas é um passo maior para o empreendedor dar e precisa ser bem avaliado.

Muito aquém do esperado é o resultado do que a indústria nacional de private banking conseguiu efetivamente capturar até agora do total dos quase R$ 170 bilhões do primeiro grande processo de repatriação de recursos do país. As instituições financeiras tinham montado verdadeira força-tarefa para auxiliar clientes nesta operação de olho em uma fatia que pudessem abocanhar do bolo total. Encerrada em 31 de outubro de 2016, a legalização do dinheiro alocado no exterior gerou expectativas e projeções de que, em um primeiro momento, ao menos entre 30% a 40% do total formalizado entrassem para o sistema financeiro nacional.

Isso ajudaria a engordar o patrimônio líquido do setor que fechou 2016 com R$ 831,59 bilhões. Isso porque o crescimento registrado tanto no ano passado, de 16,7%, quanto em 2015, 10%, é considerado muito modesto pelos principais agentes deste mercado, já que representa pouco mais que a reposição da taxa de juro básica, a Selic, da época.

 

As expectativas foram frustradas. A maioria das pessoas que repatriou recursos o fez ou para pagar impostos, multas e dívidas ou para investir em seus negócios, já que existe escassez de crédito no mercado nacional e o custo do dinheiro é elevado. Apenas uma pequena parcela decidiu aproveitar as oportunidades de investimentos com maior liquidez do país.

Mas o contato direto com as 25 mil pessoas que regularizaram seu dinheiro deixa alguns bancos e casas de investimentos ainda esperançosos em como faturar com esses recursos no futuro.

No processo de anistia, o Itaú Private Bank mapeou mais de 1,3 mil CPFs que totalizaram mais de US$ 5 bilhões para pagamento de impostos e multas. Ainda continua conversando com os clientes sobre como e onde alocar o patrimônio. O Itaú Private Bank, que fechou 2016 com o maior patrimônio líquido de private banking sob gestão do país, cerca de R$ 300 bilhões, crescimento de 20% em relação a 2015, sendo que 80% desses recursos estão no Brasil e o restante em países onde o banco opera.

É um dinheiro – o da repatriação – que ainda pode ter sido fuga de capital por ilícito (“dinheiro sujo”) ou “frio” (caixa-dois). O saldo para o Itaú, por enquanto, foi a abertura de mais de 300 contas com a anistia. O private banking da instituição só aceita clientes no segmento a partir de R$ 5 milhões. O ano passado foi o segundo de maior captação da sua história, só atrás de 2015.

A estratégia dos gestores é também ter este grupo de pessoas envolvidas na repatriação dentro de suas estruturas globais. As oportunidades estão na repatriação e nos bancos externos. No mercado local, o jogo está mais ou menos definido em termos de perde-e-ganha entre poucos bancos. Mas existem ainda entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões para disputar entre os recursos oficializados. Na medida em que a concorrência fica mais ativa, o cliente começa a pensar onde é melhor alocar seu dinheiro.

As mudanças nos cenários interno e externo também contribuem para criar dúvidas sobre a nacionalização do dinheiro. O Brasil perdeu um pouco de atratividade. Os juros lá fora [EUA] devem começar a subir para 3%, mais ou menos. Já no Brasil estão caindo e podem chegar ao final do ano entre 8% e 9% ao ano. O que faz com que quem tem recursos lá fora pense duas vezes. Exceto se ele tiver oportunidade de investir em infraestrutura ou comprar negócio de concorrente.

O Private Banking não está tendo crescimento substantivo. Só repondo a Selic e algum ganho com a renda variável também. Nunca se viu, nos últimos dez anos, tanta gente sacando dinheiro para investir no seu próprio negócio. Mesmo os recursos advindos das transações de fusões e aquisições e IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) têm sido destinados a geração de caixa das empresas ou pagamento de dívidas.

O total de patrimônio líquido do private banking sob gestão do Bradesco avançou 19% em 2016 ante o ano anterior. Mas parte do resultado é atribuído à soma da carteira do HSBC, cuja consolidação se deu em outubro de 2015. Com a compra, estima-se que o Bradesco supere hoje a marca de 20% de participação de mercado na administração de patrimônio líquido total do setor no país.

Historicamente, o Private Banking avança entre 2% a 6% ao ano acima da Selic. Já o Bradesco estima crescer entre 13% a 15%. O que pode surpreender positivamente o private seriam novas rodadas de IPOs e fusões e aquisições, que geralmente geram mais liquidez para essas carteiras.

A orientação do Private Banking do Santander sempre é para que os clientes private diversifiquem os investimentos até do ponto de vista geográfico. O banco estrangeiro atribui à captura dos recursos legalizados parte dos 35% de avanço no ano passado e do que espera para 2017 – entre 20% e 24%. Alega que a outra parte veio porque é o único banco com escala internacional. Em 2017, acha que vai crescer mais do que a concorrência capturando esta vantagem: fuga de capital para o exterior.

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