Ernani Torres: Visão Endógena de um Economista do BNDES

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Ernani Teixeira Torres Filho (Rio de Janeiro, RJ, 1955) é graduado em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFRJ (1977), mestre (1982) e doutor (1991) em Economia pela mesma instituição, é professor associado do Instituto de Economia (IE) da UFRJ. Em 1976 prestou concurso para o BNDES, instituição da qual foi superintendente e aposentou-se em 2011. É coautor comigo de um artigo sobre o BNDES publicado no número especial da revista Economia & Sociedade e como Texto para Discussão no IPEA.

Em entrevista concedida aos pesquisadores Gloria Maria Moraes da Costa (coordenadora), Hildete Pereira de Melo e Victor Leonardo de Araújo, no livro “BNDES: Entre o Desenvolvimentismo e o Neoliberalismo (1982-2004)” (Rio de Janeiro: CICEF, 2016), ele afirma que a percepção do BNDES junto aos empresários é muito boa.

“É uma instituição confiável, o que não é comum entre instituições estatais. O BNDES não é uma instituição comum nos governos e na experiência capitalista ocidental. Não é à toa que, quando você comparar, vai ver que os asiáticos (os chineses, os japoneses) são os únicos que têm algo parecido com a gente. Na América Latina? Esqueça.

E é muito interessante, pois começa em 1934, no México, e há uma onda de criação de bancos de desenvolvimento depois da Segunda Guerra Mundial – são os americanos promovendo bancos de desenvolvimento pelo mundo. A partir dos anos 1980, vai tudo por água abaixo. Vêm as políticas de ajuste, o processo de liberalização, mas o BNDES revive.

Como é que você explica? Ele é um instrumento de Estado do qual nenhum governante quer abrir mão. Cansei de ouvir dizer que éramos dinossauros, relíquias bárbaras. Relíquia bárbara coisa nenhuma!

Há uma tensão? Claro que há. O BNDES representa cerca de 20% do sistema de crédito brasileiro. Nós estamos falando de um banco que não tem agência, mas detém 20% do sistema de crédito. Uma corporação que está aí há cinquenta, sessenta anos, com toda essa importância!

E toda a literatura que existe sobre o Banco em geral é paupérrima. O Banco tem parcela de culpa nisso, porque é muito introspectivo. Ele até tem razão, porque, quando o BNDES entra em polêmica com alguém, acaba engrandecendo o outro lado.

Mas isso não justifica o BNDES não produzir uma literatura e não disponibilizar publicações que permitam dizer para a sociedade, a intelectualidade, a fim de formar opinião, para que veio. O resultado é que o que existe por aí é paupérrimo, uma literatura ideológica por natureza. Ou é “Estado versus mercado”, o que é paupérrimo, ou é “a privatização é boa, a privatização é ruim”. Bobagem!

Então, que Estado brasileiro é este que é capaz de criar criaturas, e essas criaturas sobreviverem nesse Estado com toda a polêmica ideológica, com toda a disputa comercial, com toda essa coisa que tem no país? A literatura é paupérrima.

Outro exemplo foi a reação à crise de 2008. Mostramos que dispomos de um instrumento de crédito público que tem uma resposta muito mais eficaz e muito mais rápida que a anglo-saxônica. Lá tem de passar lei no Congresso, tem de fazer não sei o quê. Aqui é ágil. Lá demora, e o prejuízo é muito maior.

Mas o debate continua ideológico. Então, é uma literatura ruim. O BNDES tem responsabilidade por isso? Tem, porque não divulga. Não é de transparência que eu estou falando. Ele tinha de ter um programa como no Banco Central, onde eles publicam e explicam o que estão fazendo. O que a assessoria da presidência [do Banco] faz é mais jornalístico. Mas eu estou sugerindo uma discussão acadêmica, apresentando agendas.

Em vez disso, o debate resvala para o campo ideológico:

  • a esquerda acha que é uma instituição que dá dinheiro para rico;
  • a direita, aliada com os bancos, também bate.

Agora, experimentem conversar com os empresários.

Uma discussão recorrente é que o BNDES concorre com os bancos privados e abocanha uma fatia do mercado que, de outra forma, seria ocupada por bancos privados, mais eficientes. Ernani acha que sempre tem alguém que acha que o banco de desenvolvimento deve acabar, que aquilo é uma situação circunstancial, que o mercado vem aí etc.

“Se você for conversar com um tecnocrata, ele vai achar que o BNDES está ali fazendo um serviço enquanto o mercado não vem. Está bom, pode esperar pela saída do BNDES e pela entrada do mercado da maneira que você quiser. Eu digo: não é opção estratégica o Estado brasileiro abrir mão de seus bancos.

Agora, se você trabalhar – e eu trabalho – com um cenário de taxa de juros baixa, o mercado aparece, ainda que não seja para amanhã, mas é o padrão global, que eu acho que não vai mudar. E aí é o seguinte: o BNDES vai ter de dizer a que veio.

E, eventualmente, os instrumentos de que ele dispõe hoje não justificam a escala e não justificam sua própria existência. Não é que o mercado vá nos destruir em determinado momento, mas o BNDES possui uma capacidade de competição baixa, comparativamente ao setor privado, em algumas áreas. Mas enquanto a taxa de juros estiver alta, você tem uma margem para operar, um ganho competitivo”.

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