Distribuição Regional da Riqueza Financeira

Estatísticas do Varejo em Dezembro de 2016 publicadas pela ANBIMA:

Defendo uma tese a respeito da concentração regional do sistema financeiro brasileiro: embora a captação do funding no mercado seja concentrada na Grande São Paulo, daí não decorre, necessariamente, o agravamento da concentração regional do crédito. Isto era o que previam diversos economistas pós-keynesianos, para esta década, baseados no equivocado conceito de preferência pela liquidez bancária e/ou aversão ao risco de emprestar para a periferia regional.

Por mais que editores e/ou pareceristas “cegos” de revistas acadêmicas rejeitem o falseamento de hipóteses de seus colegas, em um mecanismo de defesa corporativista, as estatísticas comprovam o que a análise institucionalista sugere: as instituições financeiras públicas federais – Banco do Brasil, Caixa, BNDES, BNB, BASA, Banrisul, Banestes, etc. – desfazem o que as privadas fazem: concentração do crédito com base em expectativas de mercado. Aquelas operam tendo por finalidade atender às políticas públicas.

Especialmente com a atuação anticíclica dos bancos públicos, após 2008, as regiões Norte e Nordeste foram o destino privilegiado pelo direcionamento do crédito desses bancos na Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014). Demonstrei isso em artigo que deverá ser publicado no número especial da Revista Geousp. Trata-se de uma pesquisa que apresentei no Seminário Internacional de Geografia e Finanças, que a USP realizou em abril de 2016. A Revista Geousp foi alçada à nota A1 pelo Qualis CAPES.

Uma revista de Economia com avaliação inferior rejeitou meu artigo com base no argumento de que ele não tinha “base teórica”! Na verdade, era porque ele rejeitava a hipótese pós-keynesiana! De fato, o parecer demonstra que o avaliador não conhece nada de Economia da Complexidade que incorpora Economia Comportamental, Institucionalista e Evolucionária. O que fazer quanto ao viés heurístico da auto atribuição – “minha turma está correta, os que pensam diferentes dela estão errados” –  se ele domina muitos acadêmicos? Eles necessitam estudar mais (e ser mais plurais ou menos intolerantes) antes de dar pareceres levianos…

Recentemente, foram publicadas novas estatísticas que demonstram a concentração da riqueza financeira no Brasil. Porém, da constatação dessa concentração na captação bancária os “gênios da profissão” que desconhecem o mínimo necessário das operações dos bancos não deveriam deduzir, automaticamente, que os empréstimos têm a mesma concentração por destino.

Cerca de 57% da fortuna financeira dos ricaços do Private Banking (PB) se concentra no Estado de São Paulo. Mas na Grande São Paulo está 49% do total nacional. No interior, captou-se em 2016 cerca de 8%, o que supera, aliás, o percentual dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo: 5,8%, toda região Nordeste (também 5,8%), Centro-Oeste (2,6%) e Norte (0,6%). Só é inferior à captação no Rio de Janeiro (15,4%) e no Sul (12,7%).

Perceba pela primeira Tabela acima que os percentuais de clientes PB por domicílios são distintos. Em outras palavras, no Estado de São Paulo moram 51,3% dos clientes PB, mas eles acumulam 57% da riqueza financeira, demonstrando a concentração entre os ricaços. A riqueza per capita é R$ 7,4 milhões na média nacional, porém a Grande São Paulo (R$ 9 milhões) supera bem essa média, enquanto Rio de Janeiro (R$ 7,7 milhões) supera um pouco, da mesma forma que a região Sul (R$ 7,7 milhões). Em todas as demais, os ricaços têm, em média individual, um valor menor.

Distribuição de Valor entre Produtos por Segmentos dos Clientes:

Distribuição de Segmentos dos Clientes por Produtos:

Em contrapartida, quando analisamos as estatísticas do Varejo, também publicadas pela ANBIMA, o quadro regional é distinto. Antes de o analisar, é necessário alertar que nesse segmento, em dezembro de 2016, 39,4% foi captado via depósitos de poupança, embora 85,5% desses clientes sejam depositantes de poupança. Clientes do varejo em fundos de investimentos eram 6,7% e em títulos e valores mobiliários, 7,8%, embora estes representem em valor, respectivamente 26,3% e 34,3%.

Evidentemente, o varejo tradicional, composto pela chamada “classe média baixa”, possui disparadamente o maior número de depositantes de poupança. Nela, estes representam quase 90%. No varejo de alta renda, representam 37%.

Quanto à concentração regional do varejo por valor captado, 31% do tradicional (“baixa classe média”) e 48,5% do segmento de alta renda foi em São Paulo. No Norte, foi respectivamente 2,8% e 1,2%. No Nordeste, 13,4% e 7,5%.

Quando se verifica o número de clientes por Região Geográfica, em São Paulo estão 29% dos classificados como “classe média baixa” e 50% do varejo de alta renda. Em contrapartida, o Norte possui 5% dos mais pobres e 1,5% da classe média alta; no Nordeste, respectivamente, 20% e 8,2%.

Em síntese, no Estado de São Paulo mora um número absoluto maior de pessoas relativamente mais pobres do que a soma dos que moram no Norte e Nordeste. Porém, metade dos clientes da classe média alta – esta gente esnobe que tem pavor de qualquer ameaça de proletarização – mora também nesse Estado. Será por isso que em São Paulo se manifesta maior conservadorismo? E também a maior rebeldia crítica aos conservadores? Não se pode analisar essa complexidade com simplicidade, ou seja, com o economicismo que deduz de fatores econômicos o comportamento político…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s