Estratificação Social pela Riqueza Financeira Per Capita

Terrae Brasilis é o lugar da “carteirada” tipo “o senhor sabe com quem está falando”?!

É também o lugar onde “o esnobe come angu e arrota peru”. E a auto proclamada “gente de bem”, de sua varanda “gourmet”, bate panela vazia (sic) “Le Creuset”…

Contra esse cinismo social vamos dimensionar de que essa gente está falando: é de riqueza financeira? Pelas Declarações do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física 2015, ano-calendário 2014, deixando desagregados apenas os estratos 5%, 1% e 0,1% mais ricos, é possível verificar a concentração da renda e riqueza de forma mais detalhada: os 5% mais ricos detêm 28% da renda total e da riqueza, sendo que o 1% dos declarantes mais ricos acumulam 14% da renda e 15% da riqueza. Os 0,1% mais ricos detêm 6% da riqueza declarada e da renda total.

Em 2015, o universo de declarantes foi de 26,7 milhões. Isso significa que 0,1% dessa população, que corresponde a 26,7 mil pessoas, acumulam 6% de toda a renda e riqueza declarada no IRPF no Brasil. Então, não se justifica a autossuficiência. Elas dependem da exploração do valor adicionado pelos demais.

As DIRPF 2015 – AC 2014 revelam que do total de Bens e Direitos declarados (R$ 6.461,88 bilhões) cerca de 42% é composto por ativos financeiros, inclusive monetários. Os ativos imobiliários são declarados em seu valor histórico – e não no valor de mercado atualizado. Apartamentos (15%) e casas (12%) para uso próprio como residência principal são desconsiderados como riqueza líquida disponível para tomar decisões. Também terrenos (5%), terra nua (4%), prédio residencial (1%), construção (1%), sala ou conjunto (1%) e prédio comercial (1%) são considerados ativos imobilizados. Em outras palavras, cerca de 40% dos bens tem baixa liquidez. Outro autoengano é considerar o valor contábil de veículo automotor terrestre (7% do total de bens) – caminhão, automóvel, moto, etc. – como fosse o valor presente: eles se desvalorizam muito, ao longo dos anos, de acordo com suas cotações no mercado secundário.

Sendo assim, o poder de comandar decisões pela disponibilidade de dinheiro para pagamento à vista dá uma ideia mais bem-acabada da estratificação social em uma sociedade capitalista. Os sociólogos brasileiros não costumam medir as riquezas, talvez por desconhecimento de uma fonte que economistas especialistas em mercado financeiro utilizam: ANBIMA – Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais. Ela consolida a distribuição de produtos financeiros por segmentos de clientes:

  1. varejo tradicional (“classe média baixa”),
  2. varejo de alta renda (“classe média alta”) e
  3. Private Banking (“ricaços”).

É possível estimar a riqueza financeira per capita com a divisão dos valores em bilhões de reais pelo número de clientes. Simples médias revelam fenômenos peculiares à desigualdade social brasileira antes não revelados.

Por exemplo, em artigo anterior, já mostrei que a riqueza financeira de 112 mil clientes sob gestão de patrimônio especial dos bancos em sete anos multiplicou em quase três vezes (2,86) seu valor nominal, acumulando mais R$ 540 bilhões ou mais de ½ trilhão de reais. Em outras palavras, de dezembro de 2009 a dezembro de 2016, esses apaniguados acumularam mais 9% do PIB de 2016 (R$ 6,267 trilhões). Este percentual representa mais do que o déficit nominal do setor público do qual seus próceres tanto reclamam…

Cada qual, praticamente, sem expandir a capacidade produtiva e gerar empregos no ano passado, capitalizou seu portfólio em 16,7% no ano, sendo que o número de clientes (CPFs) Private Banking só aumentou em 2.142. A riqueza média de cada família dos 54.100 grupos econômicos em dezembro de 2016 era de R$ 15.371.414,58.

A ANBIMA divulgou, no início do mês de abril, o consolidado de distribuição de produtos do varejo. Novamente, calculei a riqueza per capita e apareceram outras revelações interessantes para o conhecimento da real desigualdade da sociedade brasileira.

Grosso modo, a PEA brasileira gira em torno de 102,5 milhões de pessoas, porém com o desemprego provocado pela volta da Velha Matriz Neoliberal (13,5 milhões de desocupados) a PNAD considera ocupados apenas 89,5 milhões de pessoas, sendo com carteira de trabalho 34 milhões, por conta própria 22 milhões, servidores públicos 11 milhões, empregadores 4 milhões, informal sem carteira 10,5 milhões, domésticas 6 milhões, e auxiliares familiares 2 milhões. Desconsiderando esses três últimos segmentos, resulta no número total de clientes investidores no mercado financeiro que têm alguma reserva pecuniária.

Também pela PNAD 2014/15, de acordo com a distribuição da população ocupada por rendimento médio mensal real de trabalho, a Classe C [2-10 SM] tinha 21% da população ocupada, a Classe D [1-2 SM], 37%, tendo aumentado em 3,5 pontos percentuais em 2015, e a Classe E [<1 SM], 30,4%. Apenas 1,7% da população ocupada — considerando o contingente de 94,8 milhões em 2015, eram 1,6 milhão pessoas — recebiam mais do que dez salários mínimos (R$ 8.800 em 2015), sendo a Classe B [10-20 SM] 1,4% e a Classe A [>20 SM] 0,3% ou 284,4 mil pessoas.

Isto era renda do trabalho. Para comparar com a renda do capital financeiro é necessário conhecer o saldo de cada qual, no final do ano anterior, e considerar a capitalização progressiva através de juros compostos. Detalhe: para comparar a equivalência da taxa do juro média real, na Era Neoliberal (1995-2002), foi 15,1% aa ou 1,2% am; na Era Socialdesenvolvimentista (2003-2014), 6,6% aa ou 0,5% am.

Pela Tabela anexa, considerando todos os clientes dos mercados financeiros (69.613.079 ou cerca de vinte milhões a menos de pessoas que têm ocupação), se a riqueza financeira total fosse repartida igualmente (a meta de luta dos socialistas utópicos), cada qual possuiria R$ 34.213,72 em seu portfólio. Imaginem então o pavor do Private Banking com a imaginária ameaça de “revolução comunista”: sua riqueza per capita cair de R$ 7,4 milhões para essa merreca! Mal paga sua viagem à Europa…

A média de suas fortunas representa sessenta vezes a da classe média alta e 555 vezes a da classe média baixa, considerando também todos os depositantes de poupança. Se discriminamos estes, considerando apenas os que investem em fundos (FIFs) e títulos e valores mobiliários (TVMs), aparece um quadro mais real: a classe média alta tem 3,5 milhões pessoas (64% contra 66% no ano anterior) e a classe média baixa, 6,5 milhões (35% contra 33% no ano anterior). O Private Banking continua sendo 1% dos investidores em FIFs e TVMs.

Se desconsideramos os 59,4 milhões depositantes de poupança com mais de R$ 100,00 e saldo médio de pouco mais de dez mil reais como “párias”, embora forneçam o maior funding para o financiamento da casa própria, os dez milhões das castas ocupacionais (número próximo daqueles que têm diplomas de Ensino Superior) têm em média R$ 93.300; a classe média baixa, R$ 49 mil; e a classe média alta, quase R$ 175 mil.

No Ano do Golpe Parlamentarista (2016), acumularam mais capital financeiro, respectivamente, R$ 2.873,83; R$ 1.025,57; e R$ 10.306,59. Enquanto isso, os ricaços somaram quase mais um “milhãozinho”: R$ 939.217,73.

Cabe a pergunta: quem “bateu panela” a favor do golpe, isto é, para manter o status quo com a seguinte ordem de prioridades?

  1. Evitar a todo o custo – mesmo com desemprego de 13,5% da PEA – a eutanásia dos rentistas: taxa de inflação superar a taxa de juro prefixada.
  2. Garantir a solvência pública – capacidade de pagamento da dívida pública pelo governo – acima de qualquer coisa, mesmo que seja cortando os direitos dos trabalhadores se aposentarem com dignidade.
  3. Manter “tudo dominado” no aparelho de Estado para evitar o aborrecimento de investir para expandir a capacidade produtiva, gerar empregos, e obter lucro…

A classe média, que tem em média menos de R$ 100 mil, serviu como massa de manobra para afortunar ainda mais os ricaços, que têm em média quase R$ 7,5 milhões?! Terrae Brasilis… Gente de bem (sic), mas sem consciência do mal que ela faz a si e aos outros…

 

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