Multilateralismo e Internacionalismo versus Bilateralismo e Imperialismo

Jeremy Adelman é diretor do Laboratório de História Mundial da Universidade de Princeton. Anne-Laure Delatte é pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, no laboratório EconomiX, filiado ao Observatório Francês das Conjunturas Econômicas (OFCE) e professora-visitante da Universidade de Princeton. Ambos, Jeremy Adelman e Anne-Laure Delatte, são coautores de artigo (Valor, 24/03/17) sobre a atual geopolítica internacional com informações históricas interessantes. Reproduzo-o abaixo.

“A América em primeiro lugar”, dispara Donald Trump. “O Reino Unido em primeiro lugar”, dizem os defensores do Brexit. “A França em primeiro lugar”, vociferam Marine Le Pen e sua Frente Nacional. “A Rússia em primeiro lugar”, proclama o Kremlin de Vladimir Putin. Com tanta ênfase em soberania nacional atualmente, a globalização parece condenada.

Não está. A luta que se desenrola nos nossos dias não é a do globalismo contra
o antiglobalismo. Em vez disso, o mundo pende entre dois modelos de
integração:

  • um é multilateral e internacionalista;
  • o outro é bilateral e imperialista.

Ao longo de toda a idade contemporânea, o mundo oscilou entre eles.

Desde 1945, os internacionalistas ditam as regras. Eles defendem a cooperação e as instituições multilaterais para promover bens públicos mundiais como paz, segurança, estabilidade financeira e sustentabilidade ambiental. Seu modelo limita a soberania nacional ao vincular os países a normas, convenções e tratados compartilhados.

O ano de 2016 inclinou o pêndulo em favor dos bilateralistas, que encaram a soberania nacional como um fim em si mesmo. Quanto menos limitações, melhor. Seu modelo dá preferência aos fortes e pune os fracos, e recompensa os competidores em detrimento dos cooperadores.

Durante a maior parte do século XIX, a integração foi um misto de internacionalismo e imperialismo. O livre comércio se tornou a regra, a migração em massa era bem-vinda, e os países abraçaram novas normas mundiais, como a Primeira Convenção de Genebra, concluída em 1864, para regulamentar o tratamento dos doentes e feridos em campo de batalha. Além disso, os adeptos do globalismo podiam ser tirânicos: o Tratado de Nanquim, de 1842, entre a Grã-Bretanha e a China, subordinou o Império do Centro chinês ao Ocidente. E a face mais repugnante do imperialismo bilateral se refletiu no loteamento da África em possessões exclusivas.

No período mais terrível da história da humanidade, o bilateralismo ditava as regras. Entre 1914 e 1945, a busca da grandeza nacional levou à rivalidade econômica e à violência em massa destruidoras. Um por um, os países se voltaram para dentro; em 1933 o comércio mundial despencou para um terço do nível observado em 1929.

Alimentado pelo racismo e por temores de superpopulação, o globalismo se tornou predatório: países poderosos impunham pactos comerciais desiguais aos vizinhos e parceiros, ou simplesmente os invadiam.

  • O Japão voltou os olhos para a Manchúria em 1931 a fim de criar um Estado fantoche, e invadiu a China em 1937.
  • Os soviéticos trataram as fronteiras da Rússia dentro do mesmo espírito.
  • Os nazistas forçaram vizinhos mais fracos a assinar tratados e se apoderaram de outros, para em seguida tentar reduzir a população dos países eslavos a fim de abrir caminho para os colonizadores teutônicos.

A brutalidade do bilateralismo levou o presidente dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill a redigirem o Pacto do Atlântico, em 1941. O documento declarava que a liberdade era a viga mestra da paz e que o bilateralismo tinha de ser coibido. Era o fim das apropriações.

O que resultou da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial e do Tratado do Atlântico foi um New Deal Mundial: ao concordar em jogar de acordo com as regras e instituições internacionais, os países podiam participar da bonança do pós-guerra. A integração europeia estava no centro desse experimento de globalismo multilateral; com a reconciliação entre França e Alemanha, a Europa, uma crônica zona de conflito, se tornou uma região de cooperadores exemplares.

A limitação à soberania nacional permitiu que o comércio, o investimento e a migração mundiais sustentassem a prosperidade do pós-guerra. Bilhões de pessoas saíram da pobreza. Manteve-se uma paz relativa.

Mas o New Deal Mundial parece ter-se esgotado. Para um número grande demais de pessoas, o mundo se tornou confuso, arriscado, embrutecedor e ameaçador – o contrário do vislumbrado pelo Tratado do Atlântico. Depois de 1980, a integração mundial foi acompanhada pela crescente desigualdade social doméstica. Embora o horizonte de oportunidades tivesse se ampliado para os cosmopolitas instruídos, os laços entre os cidadãos se enfraqueceram com o desmantelamento dos contratos sociais nacionais.

Com o aprofundamento das divisões domésticas gerado pela indefinição das fronteiras mundiais, estava aberto o caminho para uma nova investida dos bilateralistas. De sobreaviso, dirigentes como o presidente russo Vladimir Putin ansiavam por uma volta a um mundo de poderosa soberania, não limitado por requintes multilaterais. Eles agora ganharam adeptos em países-chave.

Dois dias após sua posse, Trump anunciou que os EUA teriam “mais uma chance” de se apoderar do petróleo do Iraque. Com a atual opção do Reino Unido, que deu ao mundo o livre comércio na década de 1840, pela autonomia, os ex-aliados do Tratado do Atlântico estão colocando a soberania nacional à frente dos bens públicos mundiais.

Agora os holofotes se voltam para a França e sua eleição presidencial que se aproxima. O que está em jogo é a desgastada locomotiva franco-alemã que impulsionou a integração europeia e que foi mantida no centro do sistema multilateral do pós-guerra. Uma vitória de Le Pen significará o fim da União Europeia (UE), deixando a premiê da Alemanha, Angela Merkel, como o último pilar de uma ordem mundial em esfacelamento. O país mais remodelado pelo internacionalismo pós-1945 se tornaria, então, seu último bastião, cercado por bilateralistas na França, no Reino Unido e na Rússia, com seu principal patrono, os EUA, nas mãos dos nativistas.

Imagine a cena de algumas semanas após uma possível vitória de Le Pen, quando os dirigentes do G-7 se reunirem em um estrelado hotel em Taormina, na Sicília. EUA e o Canadá brigando por causa do Nafta. Reino Unido disputando com França e Alemanha por causa do Brexit. O Japão inconformado com o fim da Parceria Transpacífico. E, enquanto dão as costas aos compromissos mundiais, os refugiados, afogando-se devido à superlotação dos barcos no mar que os cerca, representam o epitáfio de uma era do passado. ”

PS:

Nesta regressão histórica, torna-se curiosa a seguinte informação.

As tendências demográficas já estão desacelerando a imigração da América Latina para os Estados Unidos, fazendo o desejo do atual governo americano de construir um muro na fronteira parecer “anacrônico”, segundo uma nova pesquisa de economistas da Universidade da Califórnia em San Diego, EUA.

“O dilema que os EUA enfrentam não é tanto a forma de impedir um enorme aumento da oferta de mão de obra estrangeira. Ao contrário, é como se preparar para um futuro com pouca imigração”, escreveram os economistas Gordon Hanson, Chen Liu e Craig McIntosh em trabalho a ser apresentado em uma conferência ontem na Brookings Institution em Washington.

Os países ao sul dos EUA “atualmente experimentam um crescimento muito mais lento da oferta de mão de obra” e, como resultado, “a imigração futura de mão de obra jovem e de baixa qualificação cairá rapidamente, independentemente da implementação de políticas mais draconianas para controlar a imigração nos EUA”, escreveram os autores.

O presidente americano Donald Trump ordenou a construção do muro que prometeu em campanha para impedir a entrada de imigrantes ilegais do México. O plano de construir o muro na fronteira sul do país — que Trump insiste que será pago pelo México — já provocou um alerta entre os senadores democratas a respeito de um possível fechamento do governo dos EUA.

Entre as demais dinâmicas que reduzem a imigração para os EUA estão o crescimento econômico estável em alguns países do Hemisfério Ocidental, o que ajudou a reduzir sua desigualdade de renda em relação aos EUA. Além disso, agentes que fiscalizam as fronteira aumentaram. Entre 2000 e 2010, o número de agentes da Patrulha de Fronteira dos EUA que policiam a fronteira EUA-México dobrou para 17.500 oficiais, segundo o estudo.

Os autores afirmam que o declínio da oferta de mão de obra com baixa qualificação provavelmente resultará em mais investimentos em automação e em outros dispositivos para economia de mão de obra, com o potencial de substituir permanentemente empregos americanos que seriam preenchidos por estrangeiros. O impacto “provavelmente será observado mais fortemente em setores que utilizam muita mão de obra imigrante, como agricultura, construção, estabelecimentos que servem alimentos e bebidas e manufatura não-durável”, escreveram os economistas.

Os autores pontuam nos dados que acompanham o estudo que a proporção de trabalhadores estrangeiros mais jovens nos EUA com 12 anos ou menos de escolaridade caiu de 42% em 2000 para 27% em 2015.

Os EUA estariam olhando para trás ao adotarem políticas imigratórias para impedir grandes fluxos de mão de obra e deveriam, em vez disso, focar no gerenciamento da “grande população estabelecida de imigrantes ilegais” que já está nos EUA, concluem os pesquisadores.

One thought on “Multilateralismo e Internacionalismo versus Bilateralismo e Imperialismo

  1. O artigo é patético. Não trata do tema que se propõem e, no que tenta tratar, omite questões fundamentais – tais como as relações norte-sul, as relações com o oriente médio, as rotas pelo pacífico, e, principalmente a questão eurasiana. Ademais, avança para o sub-tema da “oferta de emprego de baixa qualificação nos EUA”, sem nenhuma coerência ou coesão textual… Salvo o quadro gráfico e a citação do Professor Fernando Costa, o texto é dispensável.

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