Plano Made in China 2025: meta de tornar o país autossuficiente no desenvolvimento de tecnologia de ponta

Louise Lucas e Emily Feng (apud Valor, 24/03/17) avaliam que Tim Byrnes é um símbolo improvável do esforço da China para se tornar uma superpotência mundial no ramo da alta tecnologia. Para começar, ele é australiano. Mesmo assim, a decisão desse físico quântico de 39 anos de trocar um cargo de pesquisa em Nova York por Xangai, explica de certa forma até onde Pequim está indo em seus esforços para alterar a ordem mundial.

“A física quântica é muito forte na China”, diz Byrnes. “Os principais grupos são tão bons quanto em qualquer outra parte do mundo… e estão fazendo algumas coisas incríveis.”

Byrnes está trabalhando no desenvolvimento de novas tecnologias que, acredita, ajudarão a criar o Santo Graal do setor: um computador quântico.

Sua posição de professor assistente de Física da New York University Shangai é resultado de um esforço global de recrutamento que almeja a contratação de 10.000 das mentes mais brilhantes do planeta. O recrutamento é parte de uma estratégia mais ampla para construir o poder tecnológico da China, juntamente com os esforços para reestruturar sua política industrial por meio de um esquema conhecido como Made in China 2025.

Bilhões de dólares já foram injetados em pesquisas e na aquisição de ativos internacionais, preocupando concorrentes globais. Só nos últimos dois anos, a China anunciou acordos de fusão e aquisição no setor tecnológico avaliados em mais de US$ 110 bilhões, segundo a Dealogic, desencadeando temores de segurança nacional por causa do papel desempenhado por Pequim em alguns dos negócios.

O Plano Made in China 2025 foi caracterizado por Robert Atkinson, presidente da Information Technology and Innovation Foundation, ao Congresso dos Estados Unidos, em janeiro, como “uma agressiva estratégia ‘custe o que custar’ que envolve manipulações sérias de mercado, roubos arbitrários e transferência coercitiva de know-how americano”.

Nascidos de um esforço para modernizar seu Exército e Marinha, para eles poderem se equiparar com as forças dos Estados Unidos e da Rússia, os programas chineses apoiados pelo Estado nas áreas de ciências e tecnologia adquiriram um tom mais civil, num esforço para colocar o país na vanguarda de áreas que incluem a inteligência artificial, biofarmácia e carros elétricos.

O presidente Xi Jinping estabeleceu no ano passado os objetivos por trás dos gastos, descrevendo as áreas de ciências e tecnologia como “os principais campos de batalha da economia”. Essas prioridades foram reforçadas na sessão de março de 2017do Congresso Nacional do Povo, o parlamento chinês.

Se for bem-sucedido, o plano poderá marcar uma mudança radical, de uma economia que ganhou a reputação de fabricante de imitações para uma que estará ditando a tendência. A China tem um modelo. Sua trindade tecnológica conhecida como “BAT”, de Baidu, Alibaba e Tencent, reforçou os modelos que essas companhias copiaram do Google, eBay e Facebook, mas seu objetivo de criar campeãs nacionais em área como semicondutores e inteligência artificial representa um passo muito maior.

O Mercator Institute for China Studies, um centro de estudos de Berlim, descreveu no ano passado o plano como sendo “os blocos de edificação de um abrangente programa político”, acrescentando: “No longo prazo, a China quer obter controle sobre os segmentos mais lucrativos das cadeias de fornecimento globais e redes de produção”.

O chamado de Xi é o reconhecimento de que a competitividade na tecnologia é um dos três pilares, juntamente com o econômico e a soberania, sobre os quais qualquer superpotência moderna se afirma. A necessidade é ainda maior por causa da desaceleração do crescimento econômico chinês e porque o tão alardeado reequilíbrio – a transição de uma economia liderada pelos investimentos para uma conduzida pelo consumo – não estaria convencendo.

Há também o elemento de um medo antigo: a preocupação em ser dependente de tecnologias de outros países só aumentou após a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, por causa da retórica comercial protecionista do novo presidente.

“Dos semicondutores ao comércio eletrônico, Xi vem alardeando descaradamente o objetivo de transformar a China na ‘senhora de suas próprias tecnologias'”, disse Atkinsin ao Congresso americano.

O Made in China 2025, lançado há dois anos, é um de uma miscelânea de planos elaborados para estimular os objetivos tecnológicos do país. Tendo como modelo o Industrie 4.0 da Alemanha, ele é um diagrama para desviar o setor industrial de atividades que usam muita mão de obra e fabricam produtos de baixo valor – pelo qual o país é conhecido – para um modelo calcado na era da tecnologia inteligente – duplamente útil uma vez que os custos com mão de obra estão subindo. Ao alavancar a gestão de grande volume de dados (o chamado big data), a computação na nuvem e a robótica, o plano propõe uma vasta automação da indústria e visa elevar o conteúdo produzido internamente dos componentes usados na China para 70% até 2025. Essa percentual hoje está entre zero e 30%.

Pequim já fez isso antes em setores individuais. Frustrado por estar gastando mais com a importação de semicondutores do que com petróleo, o governo já gastou desde 2014 um total de US$ 150 bilhões em fusões e aquisições e subsídios domésticos, visando o desenvolvimento do setor. Também injetou dinheiro em suas próprias campeãs nacionais, lideradas pela Semiconductor Manufacturing International Corp, encorajando ao mesmo tempo multinacionais como Intel e Qualcomm a se estabelecerem na China.

A expansão não está ocorrendo sem controvérsias. Autoridades reguladoras, mais especificamente a Comissão de Investimento Estrangeiro dos EUA (Cfius, na sigla em inglês), bloqueou vários negócios argumentando temores à segurança nacional. As investidas frustradas no ano passado incluíram a proposta de US$ 3 bilhões feita por um consórcio chinês por uma unidade de iluminação do grupo holandês Philips nos EUA, que foi repelida pela Cfius. Na Europa, a venda por € 670 milhões da fabricante alemã de equipamentos de chips Aixtron, para investidores chineses, também naufragou perante as autoridades reguladoras.

A maior parte dos especialistas prevê que haverá no futuro um escrutínio ainda maior sobre as propostas chinesas de compra de ativos de tecnologia no mercado internacional.

No entanto, com um número crescente de empresas chinesas estabelecendo centros de pesquisa e desenvolvimento, ou pequenas operações nos EUA e outros mercados, isso poderá se tornar uma coisa de menor importância. Daniel Roules, sócio-gerente da firma de advocacia Squire Patton Boggs em Xangai, diz que esses empreendimentos poderão ser usados como canais para aquisições, minando o argumento da segurança nacional.

“Se uma companhia de controle estrangeiro que opera nos Estados Unidos há vários anos adquirir hoje uma empresa de tecnologia, não estou certo sobre o grau de atenção que a Cfius dará a isso ou se as pessoas vão se preocupar”, diz Roules, acrescentando que as companhias chinesas operam com horizontes de longo prazo.

Se os semicondutores representa a incursão mais ousada de Pequim na moldagem de sua indústria tecnológica, a influência do Estado pode ser vista em outros setores privados. Baidu, Alibaba e Tencent, que são listadas fora da China e têm um valor de mercado combinado de cerca de US$ 600 bilhões, vêm trabalhando em projetos conjuntos com o governo.

A Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, que estabelece a estratégia econômica e social, anunciou no ano passado a criação 19 laboratórios de dados nacionais, a maior parte em universidades, como parte do programa Made in China. Os negócios da Alibaba na nuvem estão participando de dois laboratórios: o primeiro para apoiar a exploração online de dados e o processamento baseado na nuvem para o setor industrial; o segundo vai construir uma plataforma para software de big data.

“A China vem aproveitando as redes comerciais e científicas globais, promovendo a transferência de tecnologia, o investimento estrangeiro em pesquisa e desenvolvimento e o treinamento de cientistas e engenheiros chineses fora do país”, diz Michael Raska, professor assistente da S. Rajaratnam School of International Studies da Nanyang Technological University de Cingapura. “A estratégia por trás desse esforço tornou-se o conceito da ‘inovação nativa’: identificar, digerir, absorver e reinventar tecnologias estrangeiras selecionadas nos domínios civil e militar”.

Atrair especialistas como Byrnes para a China “não é diferente do que eles fazem com os jogadores de futebol, para que eles possam transmitir suas habilidades”, diz Paul Haswell, sócio da firma de advocacia Pinsent Masons em Hong Kong.

Esquemas apoiados pelo Estado, especialmente o Qianren Jihua ou o Thousand Talents – que levaram Byrnes para a China – são elaborados para tirar algumas das mentes mais brilhantes do Vale do Silício, Boston e outros lugares, e encaminhá-las para Pequim ou Shenzhen.

Lançado há uma década, o programa Thousand Talents oferece propostas que a maioria das multinacionais teria dificuldade para igualar. Além de um pacote de boas-vindas de 1 milhão de yuans (US$ 144 mil), há vagas garantidas em escolas para os filhos e propostas de emprego para os cônjuges. Os candidatos são avaliados por suas qualificações e realizações, mas os donos de tecnologias ou propriedade intelectual ganham mais pontos. Os candidatos bem-sucedidos podem escolher assumir suas funções no setor público ou privado.

Com base em relatos, o esquema criou desenvolvimentos em áreas que vão do sequenciamento de genes a energias limpas e tecnologia de segurança nacional.

Em troca, o empregador chinês fica com uma parcela de quaisquer patentes ou invenções – pontos importantes para Pequim avaliar seus progressos. Byrnes tem o controle de 42,5% sobre todas as patentes que desenvolve, enquanto que o resto vai para a NYU Shanghai – uma joint venture da Universidade de Nova York com a East China Normal University de Xangai. A relação é a mesma que ele conseguiria obter nos EUA.

O programa já conseguiu uma capacidade intelectual significativa e no processo atraiu de volta alguns cientistas chineses. Zhang Liang-jie, que trocou o país pelos EUA após obter o PhD pela respeitada Tsinghua University, é um desses recrutas. Com 40 patentes de invenções em seu nome, ele voltou para casa para trabalhar com inteligência artificial como cientista-chefe do grupo de softwares Kingdee de Shenzhen, o berço empresarial da China e a concorrente asiática que mais perto chega do Vale do Silício.

Esses programas nacionais são complementados com a proliferação de esquemas locais, especialmente em centros tecnológicos como Shenzhen e Hangzhou. Além desses planos, há também o “roubo” de talentos do tipo que é comum no Ocidente, mas tem uma história mais curta na China. No fim do ano passado, o mecanismo de busca na internet Baidu contratou Lu Qi, um veterano da Microsoft, para comandar seu esforço na área de inteligência artificial. “Se você não consegue comprar a companhia, compre a cabeça”, diz um analista.

Os resultados têm sido desiguais. O Programme 863, que foi criado há três décadas para “preencher o vácuo” das tecnologias com aplicações militares e civis, obteve alguns sucessos impressionantes. Ele construiu o supercomputador mais rápido do mundo, totalmente movido por processadores Made in China, e implantou em macacos rhesus vasos sanguíneos produzidos a partir de células-tronco e “impressos” em impressoras 3D – aumentando as esperanças em relação à “impressão” de órgãos humanos para transplantes.

Mas ele também está ligado a aspectos mais obscuros do esforço de Pequim. O cientista Huang Kexue recebeu uma sentença de prisão de sete anos em 2011, por roubar segredos de seu empregador, o grupo americano de agribusiness Dow AgroSciences. Entre os grupos para os quais ele disse ter mandado informações está o Programme 863.

A China também está usando muito o trabalho de advogados em disputas por patentes e violações. “Protocolo da Internet, responsabilidade por produtos e espionagem industrial são pontos usados como armas competitivas”, diz um advogado que trabalha a China e nos Estados Unidos.

A Huawei, que detém a maior coleção de patentes do mundo, o grupo de infraestrutura de telecomunicações ZTC e as principais companhias da internet estão “comprando licenças loucamente”, diz um advogado. “Qualquer companhia na China vai comprar patentes se tiver dinheiro.”

Conforme comprovado pelo frenesi de fusões e aquisições, os subsídios e o esforço global por busca de talentos, dinheiro não falta. Mas o mesmo, segundo alguns, não pode ser dito sobre outros países, onde os financiamentos são menos consistentes.

“Os Estados Unidos são o local de nascimento das tecnologias da informação, da internet e das revoluções da informação civil e militar”, disse John Costello, analista sênior da agência de inteligência Flashpoint, ao Congresso americano na semana passada. “A ascensão da China como líder na tecnologia quântica e tecnologias emergentes relacionadas, sinaliza uma mudança do centro de inovações para o Oriente.”

As ambições da China vêm despertando temores nos países europeus e nos Estados Unidos, onde os líderes tecnológicos de longa data veem suas posições sendo minadas por um país que combina bolsos cheios com um grande foco no desenvolvimento de suas habilidades na área.

Seus temores são duplos: o de que sua própria segurança nacional possa ser comprometida, e o de que os subsídios deem vantagem para as companhias chinesas. Multinacionais de áreas como semicondutores sempre se deparam com o pacto com o diabo que é fazer negócios na China – acesso ao mercado em troca de transferência tecnológica.

O Conselho de Consultores para a Ciência e Tecnologia dos Estados Unidos, disse a uma já cética Casa Branca em janeiro, que as políticas de Pequim estão “distorcendo os mercados de maneiras que minam a inovação, subtraem dos Estados Unidos participação de mercado e coloca em risco a segurança nacional americana”.

Este mês, a Câmara do Comércio da União Europeia (UE) em Pequim divulgou uma detalhada crítica ao projeto Made in China 2025 e a potencial reação das multinacionais. Jörg Wuttke, presidente da Câmara europeia, descreveu o plano como incomum, que especifica metas precisas para a participação de mercado, tanto doméstica como internacional. Isso provocou uma preocupação global com as companhias estatais “bombadas” que inundam setores lucrativos com a produção chinesa, assim como aconteceu com os setores siderúrgico e outros setores da indústria de baixos custos ao longo das duas últimas décadas.

A China repudiou as afirmações em um relatório elaborado pelo governo: “As empresas estrangeiras são tratadas da mesma maneira que as empresas domésticas, no que diz respeito a pedidos de licenciamento, elaboração de normas e licitações públicas, e vão gozar das mesmas políticas preferenciais sob a iniciativa Made in China 2025”.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s