Uso de Celular: Problema de Educação Pessoal, Familiar e Coletiva

José de Souza Martins (Valor, 14/04/17) publicou mais um bom artigo sobre problema atual: o uso em ambiente social do celular. Antes de lê-lo reproduzido abaixo, vale recordar a etimologia da palavra cortesia: saber viver na corte. Seu significado:

  1. Característica daquele que se apresenta de maneira cortês.
  2. Amabilidade ou educação no trato com as pessoas.
  3. Atitude delicada ou amável.

“Foi em Porto Alegre. Eu estava, com minha mulher, numa churrascaria muito recomendada por amigos, fazendo os pedidos, quando o jovem casal entrou. Famoso jogador de futebol de famoso clube gaúcho, foram eles logo cercados de deferências pelos funcionários da casa. Sentaram-se a uma mesa relativamente próxima da nossa. Fizeram os pedidos rapidamente e de imediato tiraram do bolso e da bolsa os celulares e começaram a digitar. Não se olhavam. Quase cochichando, perguntei à minha mulher: “Como será que eles fazem para procriar?”. O garçom que nos atendia ouviu e respondeu em cima: “Eles baixam um aplicativo, ora!”.

Os próximos ficaram distantes e os distantes, próximos. Ferramenta que é brinquedo viciante, o telefone celular e suas variantes multiplicaram as possibilidades e a rapidez da comunicação entre as pessoas. A sociabilidade moderna foi profundamente invadida e alterada pelo aparelho, mediador e condicionador da interação social. O número do celular passou a ser requisito de tudo, na abertura de crédito, na ficha médica, na compra a prestação. Quem não o tem passa a ser tratado com espanto, como se fosse um mutilado, um pobre diabo, até objeto de desconfiança. O celular transforma o homem comum em objeto e coisa, ser de liberdade restrita, vulnerável à invasão do outro, quando o outro decide, o ser-coisa de humanidade reduzida.

A peculiar distância da morte foi afetada pelo celular. Nos ataques terroristas do 11 de Setembro, pessoas puderam despedir-se de viva voz de seus parentes mais próximos e queridos. A própria concepção de morte foi alterada, esvaziada das dores e surpresas que lhe eram próprias. A morte perdeu a dimensão do antes para ficar reduzida à dimensão do depois, reduzida ao luto nominal.

Se pensarmos nas dificuldades que tínhamos há 50 anos para fazer um telefonema interurbano, teremos como avaliar o ganho social dessa inovação. Mas tudo tem um preço: o celular instituiu uma nova servidão humana, criou uma dependência que atravessa todas as classes e categorias sociais, pobres e ricos, mulheres e homens, crianças, jovens e adultos, todos subjugados por esse novo meio de interação. Um meio revelador de novas e diferentes características da sociedade. A família minguou porque privada do que é dela peculiar, o afeto intenso, os sentimentos distribuídos por todos os muitos pequenos gestos que a compõem e a tornam única. O advento do celular, até dentro de casa, criou a afetividade binária e pobre. Os olhos perderam a sua função afetiva.

A conversação foi reduzida às palavras balbuciadas, de frases sumárias, sentenças incompletas entre apenas duas pessoas. O celular criou um modo de dizer desdizendo, pois a conversa é filtrada e limitada. Restrita à brevidade lacônica do WhatsApp, encolheu ainda mais. Criou-se a miséria da abundância, mais comunicação com menos imaginação.

As relações sociais tornaram-se dependentes da mediação do telefone portátil, menos para troca de ideias e mais para troca de monólogos. O outro já não é pessoa com quem propriamente interajo, mas alguém de quem me distancio na reciprocidade abreviada e reduzida. Um “Eu te amo” sem a notação do olhar, da respiração ofegante, da expressão tímida do romantismo próprio do amor, é mera masturbação digital. A outra pessoa se tornou genérica e abstrata, ocasional, mais ausência do que presença.

A tecnologia da comunicação cotidiana não ampliou nem enriqueceu a sociabilidade, como se esperava, mas criou uma comunicação de refúgio, em que estamos juntos e separados ao mesmo tempo, perto e longe, sabendo, mas não sentindo. Essa modalidade de interação junta isolando, priva a fala do conteúdo comunicativo da emoção da voz, das expressões do rosto, dos gestos do corpo. Está sendo criada a fala pura, destituída dos componentes desconstrutivos e emocionais que definem a interação dos seres humanos desde sempre.

Esses equipamentos nos tornaram tecnicamente conhecedores da língua e de suas regras, verdadeiros machados de assis eletrônicos da língua pátria. Embora a conheçamos cada vez menos. Somos mais ignorantes hoje, ainda que mais munidos de informações superficiais. O próprio aparelho já antecipa a palavra que supostamente será digitalizada. Já não há erros de redação, de acentuação. Fomos privados de nossas imperfeições, não temos o direito de errar, porque já não temos o direito de pensar com autonomia. É impossível inventar uma palavra nova que diga ao outro toda a beleza de sentimentos e dúvidas que lhe queremos comunicar. Se o fizermos, o próprio celular enquadrará nossa escrita na fala pré-fabricada.

A nova interação está gestando uma sociedade oposta àquela na qual nos reconhecíamos.”

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