Interpretações do Brasil: Conciliação e/ou Fisiologia

No livro Conciliação e Reforma no Brasil, José Honório Rodrigues defende uma tese: o segredo de como fizemos e continuamos a fazer nossa história, ou seja, a chave para entender-nos, é a conciliação. Não se deve, contudo, confundir sempre conciliação com conformismo.

Às massas populares o País deve a integridade territorial, a unidade linguística, a mestiçagem, a tolerância racial, cultural e religiosa, e as acomodações que acentuaram e dissolveram muitos dos antagonismos grupais e fizeram dos brasileiros um só povo. Como tal se reconhece – e tem sua autoestima. Porém, não se deve ver nessas massas populares apenas o conformismo religioso, pois elas também ofereceram as melhores lições de rebeldia contra uma ordem social injusta e estagnada.

A conciliação deu-se no cotidiano das relações humanas, mas foi frequentemente substituída pela inconformidade, a contestação e a revolta nas relações políticas, econômicas e sociais. O que caracteriza o nosso itinerário no tempo é um permanente divórcio entre a Nação e o Poder, entre o que a sociedade quer e o que o governo faz ou, na verdade, deixa de fazer…

A paz entre os donos do Poder acerta-se, geralmente, pelo adiamento do debate, sua redução aos termos mais simples, ou a ocultação dos problemas.

Em nome da concórdia, protela-se. Por exemplo, o então presidente Sarney dizia que havia apenas dois tipos de problemas no mundo: aqueles que o tempo resolve… e os insolúveis!

A conciliação pela inércia sempre empurrou para o futuro os grandes problemas nacionais. Só os enfrentamos, temerosos e prudentes, quando não há mais jeito de evitá-los. Isso ocorre com grande atraso, portanto, com soluções e remédios que já perderam o prazo de validade.

Não se busca a concórdia pelo respeito à diversidade de ideias e pela aceitação de que governe um partido – e de que os outros dele discordem sem golpeá-lo.

O que se procura é diluir ou, se possível, anular o dissenso. Por isso, perdoam-se e reabsorvem-se os revoltosos, sempre que esses são tidos por iguais (contra elite ou dissidentes da elite), como os dos Farrapos. O mesmo não ocorre quando são magotes de escravos ou negros, caboclos, mulatos e cafuzos sem eira nem beira, como os cabanos ou, já na República, os beatos de Canudos.

Há que converter os dissidentes. E que acalmar os insubmissos. A política da conciliação serviu para reforçar, revitalizar e renovar, periódica e parcialmente, a minoria dominante, quase todas as vezes em que esta se encontrou ameaçada por opositores ou insatisfeitos, chamando-os para integrar o círculo interno do poder.

Mantêm-se, assim, coesos ou, quando menos, cúmplices da inação os vários grupos que aspiram a conduzir o País. Por isso, na história do Brasil, abundam os que pregam as reformas, porém, no mando, não as fazem: o consenso dá-se sempre em favor do status quo.

Mesmo nossos líderes populistas, como Vargas, nunca acreditaram na maioridade do povo. A autonomia deste significaria, segundo Kant (1724-1804), adquirir a capacidade apresentada pela vontade humana de se autodeterminar segundo regras morais por ela mesma estabelecida, livre de qualquer influência exógena subjugante.

Essa conciliação, ainda que infecunda, infelizmente foi recém substituída pela recusa ao diálogo, pelo desrespeito aos opositores, pela intolerância mútua e pela intransigência. Houve quebra da coesão social, na Nação brasileira, com discursos de ódios mútuos proferidos na imprensa e rede social.

Michel Debrun, no livro A Conciliação e Outras Estratégias (1983), critica a famigerada fisiologia brasileira, isto é, o senso de compromisso, do favor, do jeitinho, às vezes do “deixa disso” – ou até da negociata. Existe mesmo, no Brasil, a ideologia da fisiologia, ou seja, a ideologia da conciliação. Ela pretende fundamentar, legitimar, certos comportamentos oportunistas.

Até o final do regime militar, face o autoritarismo, tinha-se como única opção, aos grupos dominados e às elites dissidentes, a escolha, ou melhor, a contínua oscilação, entre a acomodação ao que chama de “estrutura brasileira de autoridade”, daí a fisiologia, e a tentativa de volta por cima com a ruptura radical com o “sistema”. Daí o ideologismo e seus repetidos fracassos, pelo menos no plano sócio-político.

No plano sócio-político, um indivíduo ou uma coletividade não podem se declarar, a não ser brincando, ao mesmo tempo, fisiológicos e ideológicos. Há de escolher: as duas vertentes implicam modalidades de ação incompatíveis entre si.

A criação da identidade cultural de base nacional brasileira se desenvolveu através do samba, do carnaval, do futebol, da culinária e, depois da TV em rede nacional, da telenovela. Não foi porque muitos gostam dessas manifestações culturais, mas porque cada um sabe que outros gostam, e todos sabem que isso nos diferencia em relação ao resto do mundo. Em casa, há comunhão em torno dos televisores. Na rua está o dissenso.

Muitos membros da classe dominante também ficam “envolvidos” pelo futebol, ou seja, pela rede nacional. Esta conciliação sociocultural é uma das razões pelas quais a sociedade brasileira não explode, apesar das suas extremas desigualdades e injustiças. Estabelece-se uma fraternidade mínima.

A conciliação no âmbito sociocultural serve para disfarçar o que ocorre no âmbito sócio-político. O comportamento real, no Brasil, corresponde só muito parcialmente às normas formais sem que ninguém queira dispensar as informais. Há sempre oscilação entre valores “proclamados” e valores “reais”. Confundindo-se a ordem e a desordem se torna bastante difícil distinguir o lícito do ilícito.

A conciliação sociocultural, que é uma manifestação de relaxamento, revestiu ideologicamente a “conciliação” política, que é um mecanismo de disciplinamento. As castas dominantes praticam as duas, passando de maneira oportunista do rigor autoritário que rege o enquadramento dos párias subalternos, principalmente no processo de trabalho, para a tolerância em relação a inúmeros aspectos do dia-a-dia, cobrando com a reciprocidade desta para aquela submissão.

Entre o rigor e a tolerância, essa oscilação confunde e facilita a cooptação política apresentada como sendo fruto da nossa tradicional mistura sociocultural entre valores heterogêneos. O que existe de coesão ou de coerção via cooptação passa a ser percebido sob o prisma do paternalismo do “pai dos pobres”, do “padrinho político” ou de algum outro suposto protetor.

No passado, aproveitou-se da organização apenas incipiente das classes subalternas para esmagar os inconformismos ou preveni-los pelo aliciamento de certos “líderes representantes”. Getulismo, ademarismo, janismo, lacerdismo, chaguismo, malufismo, etc., se enquadram em demagógico populismo de direita, arquétipo na história política brasileira, como “conciliação” política que se destina a encher os currais eleitorais.

Outra “conciliação” (contrapartida dessa política clientelista) envolve recrutar apadrinhados “confiáveis”. Como é raríssimo encontrar parceiros dotados de igual vocação para independência e submissão, na medida em que, prevalecendo sentimentos de mobilidade individual, eles levarão de roldão a fidelidade, os padrinhos acham melhor contemplar apenas os adesistas fieis, que nem ideologia da autonomia advogam, por exemplo, os sarneysistas, os quercistas, os tucanos, os lulistas, etc., na montagem periódica de quem toca a máquina pública. O Homem Cordial com suas escolhas baseadas em relações familiares e/ou afetivas, tipo “toma lá, dá cá”, é uma longa tradição na política brasileira.

O fosso de riqueza e poder entre o topo e a base da pirâmide social tende a se esvair em clientelismo. Para funções de direção – dar ordens – estariam predestinados os membros da elite política, inclusive sindical, religiosa e midiática, “personalidades” ou “celebridades” cuja liderança, ou melhor dito, popularidade, teria o consentimento ativo dos outros, isto é, de “os de fora”, a maioria do povo: os párias. A membros deste restam funções de execução, isto é, cumprir ordens.

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