Como a Estatística Perdeu seu Poder

O seguidor deste blog pessoal percebe que sempre tento mostrar estatísticas para comprovar meus argumentos. Aprendi isto com a mestra Maria da Conceição Tavares: “Nunca afirme nada sem ter evidências empíricas para embasar sua afirmação”. E pratiquei no meu primeiro emprego: IBGE de 1978 a 1985.

Porém, nesta tenebrosa Era da Pós-Verdade, deparamo-nos com algo inesperado desde o Iluminismo racionalista do Século XVIII. Pós-verdade é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Na cultura política, se denomina política da pós-verdade (ou política pós-factual) aquela na qual o debate se enquadra em apelos emocionais, desconectando-se dos detalhes da política pública. Apela para reiterada afirmação de pontos de discussão nos quais as réplicas fáticas – os fatos revelados pela evidência estatística – são ignoradas.

A pós-verdade difere da tradicional postura científica em busca da falsificação da hipótese, dando-lhe uma “importância secundária”. Resume-se à ideia de que “algo que aparente ser verdade é mais importante que a própria verdade”.

Para cientistas, a pós-verdade é simplesmente mentira, fraude ou falsidade encobertas com o termo politicamente oportunista de “pós-verdade”. Simplesmente, ocultaria a tradicional propaganda política.

Portanto, está declinando a capacidade que a estatística tem de representar o mundo com precisão. Como consequência, uma nova Era de Dados (big data) controlados por empresas privadas está assumindo o controle – e colocando a democracia em perigo. William Davies (The Guardian) publicou o artigo “Como a estatística perdeu seu poder – e por que devemos temer o que virá“. Vinicius Duarte Figueira (IBGE/GPR) fez a tradução abaixo.

A sociedade pós-estatística é uma proposição potencialmente assustadora, não porque nela não haveria padrões de verdade ou de expertise, mas porque tais padrões seriam individualizados avidamente. As estatísticas são um dos muitos pilares do liberalismo clássico, i.é, do Iluminismo.

Os especialistas que as produzem e usam têm sido hoje apresentados como arrogantes, e alheios às dimensões emocionais e locais da política. Não há dúvida de que há maneiras pelas quais a coleta de dados poderia ser adaptada para melhor refletir as experiências vividas na “escola-da-vida”, que “vê a árvore mas não enxerga a floresta”.

Mas a batalha que precisará ser travada no longo prazo não é entre:

  1. uma política de fatos liderada por uma elite científica e
  2. uma política populista de percepções e de sentimentos.

É entre:

  1. de um lado, quem tem compromisso com o conhecimento público ou com o ponto de vista público, e,
  2. de outro, quem lucra com a contínua desintegração desse conhecimento factual e estatístico.

Está sendo questionada a visão holista, isto é, a abordagem científica que dá prioridade ao entendimento global dos fenômenos, descartando o procedimento analítico em que seus componentes são analisados ou tomados isoladamente sob o limitado ponto de vista individual.

O demagogo apela, em sua propaganda política, para ação política por meio da qual se tenta obter o poder ou nele permanecer, explorando as paixões das massas, baseando-se na sua limitada capacidade de análise crítica, e fazendo promessas vãs e irrealizáveis.

Leia o artigo completoRev.Trad. Vinicius Figueira – The Guardian – How statistics lost their power

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