Demanda dirige Oferta de Crédito

No anos 90, participei de um debate entre pós-keynesianos, quando eu argumentava que a oferta da moeda é endógena, i.é, criada pelas forças do mercado. Há, nos bancos, uma oferta de moeda potencial, mas ela só se torna efetiva quando se apresenta uma demanda por crédito nas condições fixadas, seja de taxa de juros, seja de exigência de garantias dentro de determinada avaliação de risco. Bem, os colegas debatedores nunca conseguiram refutar meu argumento com razão ou evidência contrária. Simplesmente, classificaram-me como “horizontalista” e deram-me um “gelo” por eu não ser dogmático ao criticar o conceito keynesiano de preferência por liquidez aplicado à decisão bancária. Mais uma vez, a história mostra quem tinha razão… 🙂

Fernando Torres (Valor, 17/04/17) apresenta a defesa da gestão de Maria Silvia Bastos Marques à frente do BNDES. Ela vinha sofrendo críticas de empresários e de integrantes do governo diante de estatísticas que apontam queda 35% nos desembolsos anuais do banco, ao mesmo tempo em que a instituição fechou o ano com R$ 129 bilhões “parados no caixa” – mesmo depois de devolver R$ 100 bilhões antecipadamente ao governo federal em dezembro.

Apesar de haver casos conhecidos de empresas que tiveram crédito recusado – sem falar na interrupção de desembolsos de financiamentos já aprovados em linhas de exportação de serviços -, os dados internos do BNDES sobre o andamento dos pedidos de crédito não sancionam a tese de que a instituição estaria com uma postura pró-cíclica, no sentido a agravar ainda mais a crise atual.

O argumento da cúpula do banco é que os desembolsos estão menores por falta de demanda dos empresários, que estão com capacidade ociosa e sem planos de investimento.

Fracasso da Reforma Neoliberal da Previdência

Puxado pelas despesas previdenciárias, o gasto primário do governo central, como proporção do PIB, aumentou fortemente nas últimas décadas, passando de 10,8% do PIB em 1991 para 19,7% do PIB em 2016. No ano passado, o déficit da previdência rural foi de R$ 103,4 bilhões e da urbana atingiu R$ 46,3 bilhões, totalizando R$ 150 bilhões. O déficit da Seguridade Social chegou a R$ 258,7 bilhões. Veja dados em 2017-04-17 Apresentação de Henrique Meirelles no Seminário do Valor

O debate sobre a Previdência Social é legítimo. Porém, é ilegítimo um governo golpista propor os termos da reforma e um Congresso Nacional acuado pelas investigações de financiamento corrupto de suas principais lideranças a aprovar.

O golpe parlamentarista no presidencialismo desqualifica o atual Congresso como tivesse legitimidade ou mandato para cortar direitos sociais. Na prática, 94% da Câmara dos Deputados, 70% do Senado Federal e 55% dos governadores estaduais não foram atingidos delação da Odebrecht. Mas a grande maioria não será quando as investigações atingirem outras empreiteiras de obras públicas, p.ex., o relacionamento entre a Andrade Gutierrez e o Aécio Neves? No total, os inquéritos abrangem 12% da totalidade dos membros do Congresso Nacional, mas submete seus líderes ao Poder Judiciário.

Vale ver o que está ocorrendo em outro país que adotou uma reforma neoliberal da Previdência: a proposta de reformar o sistema de Previdência Privada do Chile prevê contribuição das empresas. Será submetida ao escrutínio eleitoral, pois dificilmente será aprovada se o próximo presidente for de direita, pois agirá em favor da casta dos mercadores. Continue reading “Fracasso da Reforma Neoliberal da Previdência”