Estratégia para Contratação de Câmbio para Exportação

José de Castro (Valor, 10/04/17) informa que os fluxos de exportação da safra agrícola recorde do Brasil deste ano devem representar um importante ponto de suporte ao câmbio ao longo de abril e possivelmente dos próximos meses, a despeito de pressões vindas de temas políticos e fiscais. Mesmo períodos de alta pontual do dólar já vão servir de estímulo para que exportadores vendam mais moeda, o que exercerá mais pressão de baixa sobre a cotação da moeda americana.

Abril é tradicionalmente um mês de crescimento da contratação de câmbio para exportação. Mas, neste ano, a expectativa dos analistas é que o aumento seja ainda maior. Números do Banco Central mostram que, entre 2006 e 2016, a contratação de câmbio para exportação nos meses de abril cresceu, em média, 26% sobre a média do primeiro trimestre. Na mesma base de comparação, as operações de Adiamento sobre Contrato de Câmbio (ACC) — linha de financiamento para produção das mercadorias — aumentam 22%. E as operações de Pagamento Antecipado (PA) – quando o produtor recebe antecipadamente do importador os valores da exportação – saltam 51%.

No caso da exportação de soja, por exemplo, abril é o mês que mais concentra as vendas externas. Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) mostram que, desde 2013, o mês responde pela maior parcela das exportações de soja em grão. Em 2016, a participação de abril foi de 21% das exportações de todo o ano, o equivalente a US$ 5,74 bilhões.

A expectativa de avanço mais intenso do fechamento de câmbio do que o padrão dos últimos anos se deve a uma espécie de “represamento” nas operações de fechamento de câmbio. Isso tem ocorrido pelos preços ainda não tão atrativos, em moeda local, dos produtos agrícolas. Os valores mais baixos são resultado da queda da cotação de algumas commodities agrícolas no mercado internacional e da valorização do real — combinação que diminui as receitas em moeda local da venda desses produtos ao mercado externo.

Porém, à medida que a colheita da safra ganha tração, as companhias vão precisar fechar operações de câmbio de exportação, especialmente aquelas com menor capacidade financeira e que não elevaram suficientemente caixa no pico das vendas externas do ano passado.

Há expectativa de que o mercado de derivativos fique bastante movimentado ao longo deste mês, conforme as empresas que fazem intermediação entre produtores e importadores — conhecidas como “tradings” — tendem a acelerar a contratação de instrumentos de “hedge” cambial para a exportação.

Como se trata de venda de mercadoria ao exterior, o risco do produtor é de queda do dólar. Por isso, as “tradings” procuram bancos para vender dólares no mercado de derivativos como forma de anular ou minimizar perdas potenciais com a variação do câmbio. A contratação do “hedge”, portanto, equivale a uma venda de dólar no mercado, o que exerce pressão de baixa sobre a cotação. “Acredito que teremos bastante venda de dólar neste mês por essa via”, diz Machado.

Um dos instrumentos mais utilizado para fazer “hedge” de exportação é o contrato a termo de câmbio, conhecido no mercado internacional como Non Deliverable Forward (NDF). Como o dólar futuro da BM&F, o NDF protege o investidor das oscilações cambiais, mas por ter condições acordadas entre as partes – diferente do contrato da BM&F, que é padrão -, esse instrumento se adequa às variadas demandas das empresas, tornando-se mais atraente.

Além do adiamento do fechamento do câmbio para exportação, chama a atenção o fato de alguns exportadores estarem também protelando o recebimento dos valores já negociados. Isso está ocorrendo por causa da taxa de câmbio ainda desfavorável aos exportadores.

A decisão de adiar o recebimento se refere ao fechamento de câmbio que não foi “hedgeado” (protegido da variação cambial), já que esses exportadores trabalham com expectativa de alta da cotação nos próximos meses. A tomada de fôlego do dólar, porém, ainda não ocorreu. A moeda perde 3,3% neste ano, depois de ter recuado 18% em 2016. A taxa média do primeiro trimestre cedeu 19% frente à do mesmo período do ano passado.

Não é possível dizer que todo esse fluxo represado virá em abril. Mas no mínimo espera-se que os próximos meses haja um aumento de oferta de dólar no mercado tanto com o fechamento do câmbio para exportação quanto para recebimento de recursos das vendas.

A perspectiva de maior sobra de dólar também inclui as exportações fora do setor agrícola. O dólar baixo não tem contrabalançado a fraqueza da economia, que acaba limitando a demanda por importações. Com os preços do minério de ferro e do petróleo, por exemplo, ainda performando bem, há percepção de que as exportadoras desses produtos têm melhorado seu balanço comercial, o que significa mais oferta de dólar no mercado.

O importador está esperando o dólar cair ainda mais. Do lado do exportador, um dólar mais perto de R$ 3,20 poderia estimular um volume maior de fechamento de operações de câmbio, o que voltaria a pressionar a moeda para baixo.

 

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