Tudo Azul em um País com Sentimento de Blues

O blues é mais do que um mero estilo musical. O blues é um sentimento, é uma manifestação pura do sentimento de um povo que recém liberto da escravidão clamava por igualdade, respeito e consideração. O blues nasceu do lamento dos negros africanos escravizados e carrega em si toda a dor e angústia pelo qual este povo de imigração forçada passou nos anos de escravidão nas Américsa.

É interessante ser “testemunha ocular”, como consumidor, de um empreendimento empresarial com inovação bem sucedida: popularizar voos de companhia de aviação aérea. Tem seu plano de negócio baseado em rotas regionais que alimentam alguns “hubs” (terminais de conexão), principalmente em Campinas e Belo Horizonte. Esta é minha cidade-natal, aquela é minha cidade-residencial, talvez por isso eu viajo praticamente só pela Azul desde 2009.

João José Oliveira (Valor, 11/04/17) conta que a Azul foi a quarta companhia de aviação criada pelo empresário David Neeleman, filho de pai holandês e mãe americana, nascido em São Paulo, mas que cresceu no Estado americano de Utah. Antes, ele fundou a americana Morris Air, em 1984 – vendida à Southwest por US$ 130 milhões em 1993 -, a canadense WestJet e a JetBlue, que abriu capital em 2002, levantando US$ 158 milhões, e atualmente é a quinta maior do setor nos Estados Unidos.

Esse histórico ajudou Neeleman a atrair US$ 150 milhões de fundos de investimento – como os brasileiros Gávea e Bozano, ou os americanos Pequot Capital e Weston Presidio – para criar uma companhia aérea no Brasil.

O empreendedor via no território brasileiro um grande mercado mal explorado. De fato, das quase 300 cidades brasileiras que eram atendidas pela aviação de passageiros nos anos 70, restavam menos de 100 com voos regulares no início dos anos 2000.

Em dezembro de 2008, quando David Neeleman fez o primeiro voo da Azul, o mercado doméstico brasileiro que atendia 57 milhões de pessoas era dominado por TAM e Gol, que detinham 93% da demanda nacional. Com a estratégia de operar rotas mal servidas e aeroportos abandonados, como o Viracopos, em Campinas (SP), e cortando preços para atrair quem usava ônibus ou não viajava, a Azul começou a ganhar fatias de mercado.

Em maio de 2011, Neeleman convenceu os donos da empresa aérea regional Trip, das famílias Chieppe e Caprioli, a fundir as companhias. Assim, a Azul, que detinha 10,14% da demanda, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), passou a ter 14,4%, com a incorporação. A fusão também permitiu à empresa praticamente dobrar o número de cidades atendidas, chegando a 100 destinos, quase o dobro dos mercados explorados pelas líderes Gol e TAM.

Com um plano de negócio baseado em rotas regionais que alimentam alguns “hubs” (terminais de conexão), principalmente em Campinas e Belo Horizonte, a Azul manteve a expansão, e chegou em 2017 a 18% de mercado. Hoje, ainda não tem concorrentes em 34 dos 100 destinos que atende.

Essa estratégia só é possível porque a Azul opera uma frota de aviões com diferentes tamanhos e modelos, inclusive da brasileira Embraer. Gol e TAM têm apenas Boeing e Airbus, respectivamente, aeronaves maiores que transportam mais de 160 pessoas.

Graças a essas encomendas, em 2009, o Brasil passou a ser o país com o segundo maior número de pedidos em carteira da Embraer, atrás apenas dos Estados Unidos.

Atualmente, a frota da Azul, de 123 aviões, é formada por 74 Embraer, 39 ATR (turboélices franco-italianos) e 10 Airbus dos modelos A320neo (de um corredor) e A330 (dois corredores). A empresa tem ainda uma encomenda assinada com a Embraer para 50 jatos e outra de 68 modelos com a Airbus.

A expansão operacional acelerada, de um lado, e a demanda dos fundos investidores, de outro, levaram Neeleman a traçar a rota necessária para abrir capital no Brasil já em 2011. Mas o primeiro prospecto só foi efetivado em 2013. E em três oportunidades a aérea abortou a operação por causa das condições adversas no mercado brasileiro de capitais.

A injeção de recursos veio de sócios privados. Em 2015, Neeleman vendeu fatias da Azul para a americana United Airlines e para a chinesa HNA. Os americanos detêm hoje 4,89% dos papéis em circulação e os chineses, outros 28,5%, mas não mandam na empresa por causa da estrutura de capital, na qual os detentores de ações preferenciais têm poder econômico 75 vezes maior que os donos de ações com direito a voto. Essa foi a forma que Neeleman usou para driblar a lei que exige que brasileiros detenham ao menos 80% do capital votante de companhias aéreas locais.

Assim, Neeleman detém 67% do capital votante, mas apenas 4,49% dos papéis em circulação. Os outros dois controladores são os ex-donos da Trip: os Chieppe, com 21,5% do capital votante e 11,2% das ações totais, e os Caprioli, com 11,5% das ações ordinárias e 6,1% das preferenciais.

O desafio da Azul será, a partir de agora, retomar o ritmo de crescimento – desde 2015 a participação de mercado da companhia estacionou na faixa de 16% a 18% – e integrar a operação à onda de consolidação na aviação mundial.

Neeleman já deu os primeiros passos, quando montou o consórcio que venceu o processo de privatização da TAP, em 2015. Hoje, a Azul é a maior acionista individual da aérea portuguesa, com 6% do capital.

O modelo de negócio enxergado pelo empresário agora busca sinergias entre as malhas da TAP, que conecta Europa, Brasil e África, e da Azul, no interior e nas capitais brasileiras, com os Estados Unidos, onde a empresa tem acordos de compartilhamento de voos com United e JetBlue.

Carolina Mandl (Valor, 11/04/17) informa que, depois de três tentativas frustradas, a companhia aérea Azul estreiou na bolsa de valores com suas ações preferenciais valendo R$ 21. O valor corresponde ao preço médio da faixa que a Azul buscava alcançar, que ia de R$ 19 a R$ 23.

O IPO (sigla em inglês para oferta inicial de ações) da Azul movimentou R$ 2,02 bilhões, sendo que R$ 1,323 bilhão foi de recursos novos, que vão para o caixa da companhia.

Outros R$ 698 milhões vão para acionistas da empresa que decidiram vender, pelo menos parcialmente, suas posições.

O volume movimentado pela oferta mostra que a Azul conseguiu vender aos investidores, além do lote inicial, os recursos dos lotes adicional e suplementar, que representam um montante 35% maior que os papéis inicialmente oferecidos.

Os recursos captados, de acordo com informações do prospecto, serão usados em sua maioria para o reforço de capital de giro. A empresa também pretende amortizar parte de suas dívidas com cerca de R$ 315 milhões captados, empréstimos com Banco do Brasil, Bradesco, Itaú BBA e Daycoval.

A Azul tem planos de abrir o capital na bolsa de valores pelo menos desde 2011 e chegou a anunciar ofertas de ações que acabaram frustradas.

Não foi, porém, sem susto que a companhia concluiu desta vez o IPO. Na quinta-feira, quando os banqueiros contratados se preparavam para anunciar o resultado da operação, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) suspendeu a transação. Entre outros motivos, a autarquia afirmou que a empresa aérea divulgou informações não autorizadas a investidores.

A suspensão, porém, valeu por apenas um dia. Não foi suficiente para espantar os investidores. Poucos mexeram nas suas intenções de compra. Empolgados pelo histórico de David Neeleman, presidente e fundador da Azul, em outras companhias aéreas, os investidores estrangeiros queriam se tornar acionistas da empresa de aviação brasileira. Além da Azul, Neeleman criou as companhias aéreas americanas JetBlue e MorrisAir e a canadense WestJet (ver abaixo).

Com aeronaves pequenas, de 70 lugares, a Azul afirma ter planos de operar destinos novos ou pouco atendidos hoje.

Em apresentação a investidores, John Rodgerson, diretor financeiro da Azul, citou como uma das vantagens da companhia em relação a concorrentes ter 100% da empresa de fidelidade Tudo Azul. Gol, com Smiles, e Latam, com Multiplus, decidiram vender uma fatia delas a investidores por meio de um IPO. O executivo disse que isso deixava a Azul numa posição privilegiada, por se aproveitar de 100% do resultado da empresa. Ele não descartou, porém, que no futuro a Azul venha a seguir o caminho das outras companhias aéreas.

A oferta de ações da companhia aérea foi coordenada pelos bancos Itaú BBA, Citi e Deutsche Bank, além de BB Investimentos, Bradesco BBI, Santander, J.P. Morgan e Safra.

Depois de três tentativas frustradas desde 2013, a Azul fechou na no dia 10 de abril de 2017 uma oferta de ações que movimentou R$ 2,02 bilhões.

“Não existe momento certo para casar. O momento certo é quando você casa”, disse Antonoaldo Neves, presidente da Azul, quando questionado sobre o fato de a companhia já ter abortado três vezes a operação. A companhia encerrou o dia com um valor de mercado de R$ 26,5 bilhões, quase 7,5 vezes maior do que a concorrente Gol.

No dia da estreia em bolsa, as ações preferenciais da Azul alcançaram valorização de 6,67%, alcançando R$ 22,4. Ao longo do dia, os papéis refletiram a expectativa da edição de uma medida provisória que liberasse a participação de estrangeiros a até 100% no capital das aéreas. No final do dia, porém, o governo decidiu encaminhar um projeto de lei ao Congresso para tratar do assunto.

O IPO da Azul se somou a outros dois que já ocorreram neste ano – da empresa de medicina diagnóstica Hermes Pardini e da locadora de carros Movida. Ambas acumulavam até ontem valorização acima do Ibovespa. Outras quatro companhias – a energética Alupar, o banco Santander, o grupo de concessões CCR e a varejista Lojas Americanas – também venderam ações na bolsa. Juntas, entre estreias e ofertas subsequentes de ações, as operações movimentaram R$ 13,2 bilhões, já superando o volume movimentado ao longo do ano passado.

Entre banqueiros de investimento e especialistas em mercado de capitais, 2017 não chegará a repetir aquilo que foi 2007, mas será, certamente, um ano que deixará boas lembranças em relação a ofertas de ações. Em 2007, as ofertas somaram R$ 67,3 bilhões, distribuídos entre 79 companhias que foram à bolsa captar recursos ou dar saída a seus acionistas.

Presente àquele que deve ser o último IPO que acompanha como presidente da B3 (antiga BM&FBovespa), Edemir Pinto afirmou que as ofertas de ações podem superar, neste ano, os R$ 25 bilhões que ele projetava no início de 2017.

Segundo Edemir, o volume pode ser ultrapassado especialmente se a reforma da Previdência for aprovada. Isso deve levar a uma “avalanche” de recursos de investidores estrangeiros ao Brasil, afirmou Edemir. Por que, hein?! Aumento da solvência do Estado brasileiro com corte de direitos sociais?!

O executivo prevê 17 ofertas de ações neste ano. O Bank of America Merrill Lynch (BofA) estima que as transações neste ano vão movimentar algo entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões, o que significaria um volume superior ao de 2013, último ano de maior movimentação para as ofertas.

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