A Força do Povo X Em Nome do Povo

Enquanto aqui se luta contra o retrocesso em conquistas sociais, na França se propõe no debate eleitoral um avanço em direção a novas conquistas sociais.

No Brasil, o relator da reforma trabalhista, deputado do PSDB, portanto, representante das castas dos mercadores e dos sábios-neoliberais, propõe a flexibilização do mercado de trabalho. Seu relatório amplia o principal ponto do projeto do governo golpista, que é fazer os acordos entre sindicatos e empresas prevalecerem sobre a legislação em alguns pontos, como o cumprimento da jornada de trabalho, desde que respeitadas a Constituição (máximo de 44 horas semanais); banco de horas; adicional por produtividade; participação nos lucros e resultados. A oposição criticou e disse que muitos sindicatos são “capturados” pela empresa e aceitam regras prejudiciais aos trabalhadores. As centrais sindicais reclamam ainda que o projeto fortalece a negociação coletiva ao mesmo tempo que enfraquece os sindicatos, ao acabar com o pagamento obrigatório do imposto sindical.

Compare com as propostas em debate na França. Assis Moreira (Valor, 12/04/17) informa que a possibilidade de a eleição presidencial na França ser decidida por “dois populistas”, um de extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon, e outra de extrema-direita, Marine Le Pen, em maio de 2017, elevou o nervosismo nos mercados financeiros e o risco de uma crise política sem precedentes na segunda maior economia da Europa.

A ascensão de Mélenchon como o terceiro mais forte candidato, a menos de duas semanas do primeiro turno, no dia 23 de abril, fez investidores internacionais venderem ações e títulos soberanos franceses. O prêmio dos títulos da dívida francesa de dez anos subiu para quase 1%, enquanto que o dos títulos da Alemanha, vistos como ativo seguro, é de apenas 0,2%. Os bancos BNP Paribas, Crédit Agricole e Société Générale perderam ontem mais de 1% em valor de mercado.

O cenário de um voto “anti-establishment na eleição francesa cresceu com Mélenchon passando a 19% das intenções de voto no primeiro turno, em empate técnico com o candidato da direita tradicional, François Fillon, que tem 18,5%, e se aproximando do centrista Emmanuel Macron, com 23%, e de Marine Le Pen, 24%, segundo pesquisa do instituto Ifop.

No momento, Macron ainda é o favorito para ir ao segundo turno com Le Pen e ganhar a eleição em maio. Mas as reações do mercado implicam a avaliação de que a possibilidade de vitória de um dos candidatos extremistas superou 30%, percentual maior do que era dado ao voto do Brexit ou da possibilidade de Donald Trump vencer a eleição nos EUA, observa Oliver Jones, de Capital Economics.

O avanço incontestável de Mélenchon é impulsionado por um programa que parece sonho para classes de trabalhadores e populações de regiões desindustrializadas, e é capaz de evitar perdas da esquerda para Le Pen:

  1. ele promete um plano de investimento e novos gastos públicos totalizando € 273 bilhões;
  2. restringir demissões pelas empresas;
  3. passar poder de acionistas para trabalhadores;
  4. generalizar uma sexta semana de folga por ano;
  5. reduzir a semana de trabalho a quatro dias, em direção a 32 horas por semana;
  6. restaurar o direito à aposentadoria aos 60 anos;
  7. taxar em 100% o valor dos salário que superar 20 vezes a renda média;
  8. desmontar programas de austeridade na Europa;
  9. reestruturar a dívida pública;
  10. combater a independência do Banco Central Europeu (BCE); e
  11. desvalorizar o euro para voltar à paridade inicial com o dólar.

Enquanto Marine Le Pen fala de “protecionismo inteligente“, que dá preferência aos franceses contra os estrangeiros, Mélenchon promete “protecionismo solidário“, pelo qual os países europeus autorizariam subvenções para setores estratégicos da economia.

Para Charles Wyploz, professor de economia da Universidade de Genebra, a maioria das promessas são irrealistas. Outros analistas o comparam a populistas da América Latina, que acham que podem ignorar limitações externas e todas as regras ortodoxas da economia de livre-mercado. Analise do Société Générale avalia que uma intenção de Mélenchon na prática é tirar a França da zona do euro.

Sempre vestido com túnica tipo Mao Tsé-tung, folgada, abotoada até a gola, de colarinho alto, até recentemente Mélenchon não passava do quinto lugar. Mas começou a crescer após os debates na televisão, onde saiu com a imagem de o mais sincero e convicto nas propostas. Ele aproveitou bem o colapso do candidato do Partido Socialista, Benoît Hamon, e os escândalos envolvendo o candidato da direita, Fillon.

Candidatos de ruptura, Melenchon faz campanha com o lema “a força do povo” e Marine Le Pen “em nome do povo“. Eleitores de Le Pen podem achar interessantes as propostas econômicas de Mélenchon, mas em questões de sociedade, como imigração, ele propõe exatamente o contrário da líder da Frente Nacional, o que reduz sua capacidade de atrair eleitores rivais.

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