Debate sobre Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo

Na tarde do dia 18 de abril, na sede da Fundação Perseu Abramo, aconteceu o segundo debate do Ciclo que aprofunda as discussões sobre a mais recente pesquisa da FPA, Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo (clique aqui e conheça o estudo). Com transmissão ao vivo pela internet e participação de internautas, o debate teve a mediação do presidente da FPA, Marcio Pochmann. Os pesquisadores que aceitaram o convite da Fundação – Giovanni Alves, da Unesp de Marília, Andréia Galvão, da Unicamp, e Sérgio Fausto, da USP – refletiram sobre os resultados da pesquisa.

O cientista político Sergio Fausto, superintendente da Fundação Fernando Henrique Cardoso, disse que sua participação em um evento da Fundação Perseu Abramo (FPA), ligada ao PT, não pode ser interpretada como sinal de aproximação entre PSDB e PT ou entre os ex-presidentes FHC e Luiz Inácio Lula da Silva. “Até onde minha vista alcança, não tem nenhum significado [de aproximação]. Eu acho que conversar com as pessoas é uma coisa que vale a pena. Mas eu não tenho representação partidária alguma.”

Fausto participou de um debate sobre a pesquisa qualitativa “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”, estudo com eleitores dessas regiões que deixaram de votar em petistas nas últimas eleições. Os outros debatedores foram a cientista política Andréia Galvão, da Unicamp, e o sociólogo Giovanni Alves, da Unesp. A mediação coube ao presidente da FPA, Márcio Pochmann.

O superintendente da Fundação FHC classificou o gesto da FPA como “uma abertura para uma conversa para além das fronteiras partidárias”. Ele lembrou que os petistas Jorge Bittar e Helio Bicudo, que depois rompeu com o PT, participaram de eventos no iFHC, no início do governo Lula. “Depois as coisas azedaram.” Um ensaio de reaproximação ocorreu no início do ano, quando a Fundação FHC convidou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, para um debate sobre reforma trabalhista. Marques não foi. Dias depois, o diretor técnico do Dieese Clemente Ganz aceitou convite para debater tercerização.

Lauro Gonzalez, professor da FGV e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, e Maurício de Almeida Prado, administrador de empresas e antropólogo, além de diretor executivo do Instituto Plano CDE, foram coautores de um artigo (Valor, 18/04/17) — Direita ou esquerda, o que pensam os pobres? — cujos pontos de vista devem ser incluídos no debate. Reproduzo-o abaixo.

“Os resultados de pesquisa recente realizada pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, têm sido intensamente debatidos por pessoas ligadas a ideias consideradas “de esquerda” ou “de direita”. O estudo foi focado em eleitores do PT que deixaram de votar no partido nas últimas eleições. As leituras que cada um fez dos resultados são obviamente marcadas pela visão de mundo preponderante.

  • Para os que estão de um lado, a pesquisa revela a necessidade de libertar os
    pobres de narrativas hegemônicas que os tornam mais identificados com a ideologia liberal que sobrevaloriza o mercado.
  • Para outros, parece haver um certo triunfalismo em enxergar os pobres como pessoas de bom senso, que valorizam o empreendedorismo e enxergam no Estado um obstáculo.

Entretanto, as visões extremadas de ambos os lados parecem ignorar os múltiplos perfis das classes CDE (1) e tendem a acreditar nos pobres como uma espécie de bloco homogêneo de ideias, valores e preferências. Por que a diversidade existente na população em geral, ou nas classes média e alta, não pode existir entre a população mais vulnerável?

Por exemplo, tomando a questão da incidência de empreendedorismo, diversas pesquisas revelam a existência de pessoas interessadas em desenvolver atividades empreendedoras e outras que preferem um emprego estável. Levantamento recente sobre as classes CDE permite estimar que, a despeito dos diversos perfis de usuários de serviços financeiros, a fração de empreendedores gira em torno de 20% da população mais pobre. Não haveria essa mesma diversidade nas classes mais altas?

Reconhecer esse fato permite ampliar as soluções disponíveis e ir além do microcrédito (2), superando a prescrição generalizada, e simplificada, de solucionar a pobreza através do empreendedorismo.

Poupança, seguros e meios de pagamentos podem se revelar mais importantes para aqueles das classes mais baixas que não desejam ser empreendedores. Esse reconhecimento pode contribuir para melhoria de políticas públicas. Ações complementares de geração de renda e proteção social podem focar perfis específicos de beneficiários do Bolsa Família, assim como o setor privado pode oferecer produtos e serviços mais focados em quem não tem um perfil empreendedor.

Um dos resultados divulgados pela Perseu Abramo aponta que os entrevistados, moradores de bairros periféricos e comunidades da cidade de São Paulo, têm uma rotina intensa e estressante, relegando a formulação política a segundo plano. Ademais, assuntos debatidos com maior frequência, como casos de escândalo de corrupção e a Operação Lava-Jato têm como principais fontes de informação a grande mídia. Na mesma toada, conclui-se que, dentre os pobres, a formulação e debate sobre a política se dão de forma superficial e ainda de acordo com a agenda definida pela mídia hegemônica.

A frase sobre o papel da mídia abre alas para um debate intenso, mas uma questão anterior pode ser se a superficialidade aludida é exclusividade dos mais pobres ou uma característica da era digital na qual até mesmo o conceito de democracia e participação precisa ser rediscutido? (3) Talvez cada leitor possa tirar suas próprias conclusões julgando o grau de superficialidade das opiniões da própria legião de amigos das redes sociais nas quais participa.

A junção das lentes da Economia e da Antropologia tem produzido estudos interessantes sobre as classes CDE, notadamente por buscar vivenciar o dia a dia das famílias e olhar essa população pela sua lógica de vida. Muitas escolhas que não fazem sentido para um observador externo, mostram-se muito racionais quando devidamente contextualizadas.

Um exemplo disso é a decisão de colocar os filhos em escolas particulares. Pesquisa recente com pais de classe C e D de todo país mostrou que as características mais valorizadas numa escola são bons professores e segurança, o que vale para pais das escolas públicas e privadas. Além disso, estas características são os principais fatores de decisão de pais que migram seus filhos da escola pública para a privada. Questões como tráfico de drogas, violência e bullying preocupam muito mais os pais de classes CDE do que avaliação em rankings.

Porém, muitos observadores de fora ainda consideram que estas escolhas seriam baseadas em diferenciação social, ou seja, que os pais estariam fazendo esta mudança apenas por “status” para impressionar seus vizinhos. Ou seja, mais do que uma visão de mundo privatista ou estatista, estes pais estão buscando soluções concretas, dentro das limitadas opções disponíveis, para problemas reais de seu dia-a-dia: mais segurança para seus filhos e professores que não faltem às aulas.

Concluindo, dois pontos essenciais merecem atenção.

Primeiro, as decisões e escolhas fazem sentido para a lógica de vida destas famílias e são baseadas em soluções para problemas concretos de seu cotidiano, tendo em vista as limitadas opções disponíveis no entorno em que vivem.

Segundo, os mais de 100 milhões de pessoas das classes CDE no Brasil não são iguais. Análises simplistas e a tentativa de colocar um grupo tão heterogêneo em um “rótulo” único e homogêneo podem levar a conclusões precipitadas e equivocadas sobre suas escolhas e atitudes. Trata-se da conhecida dificuldade de generalização dos resultados de pesquisa para populações mais amplas.

Enfim, o estudo é muito bem-vindo para suscitar um debate construtivo. Entretanto, as leituras que aparecerem na mídia nos últimos dias, inclusive algumas das conclusões da própria Fundação Perseu Abramo, são recortes específicos que não levam em conta dados e levantamentos já existentes sobre a cabeça da periferia e das classes CDE.”

1-http://cemif.fgv.br/noticias/pesquisa-segmentacao-em-inclusao-financeira-no-brasil

2- http://www.newyorker.com/business/currency/moving-beyond-microcredit

3- http://www.martinhilbert.net/foresight-tools-for-participative-policy-making-in-inter-governmental-processes- in-developing-countries/

 

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