Primeiro, Cortar Crédito à Infraestrutura, Depois, à Agricultura e à Habitação

Cláudia Safatle (Valor, 03/04/17) confirma: desgraça pouca é bobagem, o próximo passo da mudança no custo do crédito direcionado será para o financiamento agrícola. Os juros para o Plano Safra de 2017/2018 já deverão ser atrelados a um percentual da taxa Selic. Tal como foi anunciada a criação da nova Taxa de Longo Prazo (TLP) — que vai variar com base na NTN-B, título público corrigido pelo IPCA, e que substituirá a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) nos financiamentos do BNDES –, os juros para o crédito de custeio e investimento agrícola deixariam de ser fixos a cada safra para variar em função da taxa básica de juros.

A ideia estúpida dos neoliberais, sob o ponto de vista macroeconômico e macrossocial, é estabelecer o percentual de 85% da Selic, mas operar com variações por região e tamanho do tomador. Os médios produtores, por exemplo, tomariam recursos a 70% da Selic e a agricultura familiar (Pronaf) pagaria 55%. Taxas seriam ainda subsidiadas, mas com o crédito parcialmente exposto aos ciclos da economia.

Leia-se: ciclos de aperto monetário ao sabor dos sábios-tecnocratas instalados na diretoria do Banco Central por indicação de O Mercado, tal como o ex-economista-chefe do Itaú-Unibanco em sua presidência.

A direção para a política de financiamento da safra está dada por sábios neoliberais oportunistas se utilizando do golpe de Estado para implementar suas ideias em benefício próprio e prejuízo de toda a Nação. Resta “cair-a-ficha” da casta dos oligarcas regionais representada na bancada ruralista do Congresso Nacional.

Os neoliberais pretendem encurtar a distância entre os juros subsidiados e os praticados pelo mercado. No caso do BNDES, a intenção é acabar com os subsídios à taxa de juros em cinco anos, a contar de 2018, quando começa a vigorar a nova taxa longa. A TLP será calculada com base na variação da inflação medida pelo IPCA e por juros reais pré-fixados mensais, conforme um percentual da variação das NTN-B que começa com 20% até chegar, ao fim dos cinco anos, a sua integralidade.

Ao mudar o custo do crédito direcionado, o governo ataca duas frentes:

  1. reduzindo o peso dos subsídios no Orçamento fiscal e
  2. aumentando o universo do crédito sensível à Selic.

Vai aumentar o alcance e a potência da política monetária, ou seja, o poder de poucos sábios-tecnocratas, detentores de um poder não eleito, determinar todo o futuro econômico da Nação! Tirará os anteparos contra a Grande Depressão que aumenta a renda do capital financeiro em desfavor da renda e emprego do capital  produtivo e dos trabalhadores.

O estoque de crédito contratado em TJLP continuará inalterado até o vencimento, obedecendo à variação trimestral da taxa de juros de longo prazo, de 7% ao ano para o período abril-junho.

Hoje, o crédito direcionado corresponde a 50% do crédito total da economia e é todo com juros subsidiados pelo Tesouro Nacional.

Do total de R$ 1,54 trilhão do crédito direcionado:

  • R$ 190,7 bilhões são concedidos às pessoas físicas e jurídicas do setor agrícola;
  • o BNDES é responsável por R$ 587 bilhões;
  • o financiamento imobiliário por R$ 609 bilhões;
  • o restante é distribuído em microcrédito e outros.

Por sabedoria nacional, esse universo não é afetado pelo aumento da Selic como instrumento de combate à inflação. Os economistas neoliberias argumentam que a taxa básica, nesse caso, tem que ser maior do que seria necessário, caso todo o mercado de crédito estivesse sujeito aos ventos da política monetária. Trata-se, portanto, de reduzir o custo da desinflação, como assinalou o presidente do BC, Ilan Goldfajn.

Evidentemente, é o contrário: aumentar o custo da desinflação, pois ela será mais apressada e profunda. Quanto maior o mergulho da economia, mais demoradamente ela voltará à tona!

Falta aos economistas ortodoxos neoliberais, treinados que são apenas em modelagem de equilíbrios estáticos-comparativos, uma capacitação profissional em:

  1. visão dinâmica da economia e
  2. visão altruísta da sociedade.

Ao mexer na estrutura dos juros do crédito direcionado, portanto, o governo golpista diz, cinicamente, que está contribuindo para que a taxa de juros estrutural da economia – outro conceito hipotético e inadequado (NAIRU) mal traduzido (e incalculável ex-ante) que permitiria o crescimento econômico sem pressionar a inflação – caia e o país possa entrar em um situação de normalidade do custo do dinheiro.

Não há, por enquanto, nenhum grupo do governo neoliberal golpista estudando uma alteração dos juros nos financiamentos imobiliários. Esse seria o último a ser afetado, dado seu custo social explícito: encarecer o custo com o endividamento bancário de famílias que recebem menos de três salários mínimos que mais sofrem com o déficit habitacional. Não seria uma estupidez?!

Os neoliberais com mais de “2 neurônio” (sic) reconhecem que, para que essa nova estrutura de taxa de juros funcione, porém, a Selic também tem que cair para um patamar mais normal. Senão, a economia paralisará completamente e a pressão política derrubará todos eles de cargos ocupados de maneira oportunista em um governo não eleito.

A decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de mudar a fórmula de cálculo da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), criando um novo encargo atrelado à inflação e ao título do Tesouro Nacional NTN-B, a Taxa de Longo Prazo (TLP), dividiu economistas entre os dois polos tradicionais:

  1. à direita, os neoliberais;
  2. à esquerda, os desenvolvimentistas.

Os neoliberais e alinhados ao mercado financeiro elogiaram a medida por entender que terá impacto positivos para as políticas fiscal e monetária provocarem uma rápida e profunda recessão.

Os  desenvolvimentistas e defensores do setor produtivo reclamam que os financiamentos do BNDES ficarão mais caros e preveem redução maior da taxa de investimento.

O presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton Tadini, diz que a substituição gradual, em cinco anos, da TJLP pela TLP é um movimento de natureza estrutural da atual gestão do BNDES e que elimina subsídios financeiros praticados pelo banco.

“Ficamos apreensivos, porque não vejo problema nenhum um banco de fomento ter parte de seu funding com subsídio. Subsídio não é crime. Isso é normal em qualquer país com processo de industrialização tardio ou segmentos que precisam se internacionalizar por natureza estratégica. Mas aí vão dizer que tem o problema fiscal, mas é justamente o crescimento econômico que ajuda a atenuar isso“, afirma Tadini.

Para o diretor de competitividade e tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz Coelho, a decisão do CMN é “totalmente inoportuna”, porque vai tornar mais caros os financiamentos do BNDES num contexto de recessão e investimentos em baixa no país.

“O resultado é que a medida vai afugentar o investidor, que já tem uma série de dúvidas para tirar seu projeto de investimento da gaveta. Mesmo com a TJLP atual, os investimentos ainda estão muito baixos”, diz Roriz Coelho. Segundo ele, se a medida entrar em vigor a partir de janeiro de 2018 muitos projetos não se beneficiarão com a redução da TJLP de 7,5% para 7%, decisão também tomada. “O BNDES demora até um ano para aprovar um financiamento.”

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) vai “encampar uma guerra” no Congresso para evitar que a medida provisória que modifica a TJLP seja aprovada. José Velloso, presidente da entidade, argumenta que o valor da TJLP hoje, considerando todos os custos da operação de crédito embutidos, já é caro e ficará ainda mais custoso com a criação da TLP.

Se considerarmos o Finame, principal linha de financiamento do BNDES com TJLP, que serve basicamente para compra de máquinas, caminhões, tratores, reboques, tem um custo de 7% da taxa básica, 0,5% de custos administrativos e 1,5% da de lucro do BNDES e uma média de 6% do del credere, que é cobrado pelos agentes repassadores dos recursos do BNDES. A soma é uma média de 15% para a compra de uma máquina. Se colocarmos esses custos na nova fórmula de cálculo da TLP vamos para algo entre 18%, 19%. Quem vai comprar uma máquina no Brasil a esse custo?

Já na visão do analista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, o BNDES fica menos suscetível a interferência política com a nova taxa, porque ela estará atrelada a taxas reais de mercado. [?!] Além disso, assinala que a TLP ajudará a reduzir o subsídio implícito entre custo de captação do Tesouro e empréstimos do BNDES, “contribuindo para contas públicas mais sólidas”. A visão de Nação dessa gente vendida não é incrível?!

Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria, cuja maioria de clientes do ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, e do ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, está em bancos, acredita que as novas regras ajudam a criar condições para uma estrutura de juros mais baixa. “Como as operações com crédito subsidiado serão menores, a transmissão de política monetária é potencializada e os juros podem cair como um todo. Até então, as taxas acabam sendo mais altas porque outros segmentos da economia precisam contrabalançar o crédito direcionado”.

Não será isso que acontecerá: os sábios-tecnocratas do Banco Central, indicados por O Mercado, colocarão por tentativas-e-erro o juros na altura que lhes aprouver sem contraponto, já que são — de fato, não de direito — “independentes” de qualquer controle por um poder eleito. A renda do capital financeiro aumentará enquanto a renda do capital produtivo e dos trabalhadores cairá, conjuntamente com o nível do emprego. Dessa feita, sem contraponto do crédito público direcionado para o investimento.

Especialista em bancos de desenvolvimento, Sergio Lazzarini, professor do Insper, observa que a mudança remete às origens da TJLP, “concebida originalmente para refletir o preço de mercado da dívida de longo prazo, mas que acabou desvirtuada por governos que tomaram decisões discricionárias sobre os rumos das taxas”.

Ele acredita que a nova remuneração contribuirá para a redução dos desembolsos do BNDES. “O BNDES precisa ser mais seletivo: emprestar para quem precisa e para quem pode efetivamente gerar impacto na economia.”

 Digamos claramente: é disto que, em última análise, que se trata — encolher o BNDES em favor de bons negócios para o Mercado de Capitais!

One thought on “Primeiro, Cortar Crédito à Infraestrutura, Depois, à Agricultura e à Habitação

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s