Dick Farney e a Americanização da Música Popular Brasileira: Cantor de Jazz + Samba = Samba-Canção

Ruy Castro quis escrever o livro A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção para suprir uma falta que ele sempre sentiu. Nunca entendeu por que o samba-canção foi tão desprezado pela historiografia da música brasileira. É como se fosse um pecado o samba ter sido produzido e apreciado também em ambientes sofisticados.

Extremamente sofisticados, é preciso que se diga. Apesar de um dos primeiros sambas com características de canção ter sido feito ainda em 1929 (“Amizade”, de Ary Barroso, lançado por Francisco Alves), foi nas luxuosas boates que infestaram a noite de Copacabana no fim dos anos 1940 que o gênero viveu sua era de ouro.

Esta nova música, cuja gestação vinha de longe, tomou aos poucos espaços como a boite Vogue ou o Golden Room do Copacabana Palace, com seus compositores e cantores de quem não se sabia onde terminava a arte e começava a vida. Eram lugares onde se podia chegar a qualquer hora da noite, sem hora certa para fechar, para beber, jantar, ouvir boa música, dançar e se informar.

Era onde negócios eram fechados e os casos românticos fervilhavam. Ruy Castro leu muitas memórias de embaixadores, diplomatas, políticos para reconstituir essa vida privada dos ricos, dos poderosos e as farras do Clube dos Cafajestes, grupo famoso de playboys filhinhos-do-papai rico.

Após Dick Farney gravar “Copacabana”, na Continental, a música brasileira nunca mais seria a mesma. Como não se considerava capaz de interpretar sambas, Dick parecia condenado a perpetrar perfeitas imitações de Bing Crosby cantando música americana com o conjunto Milionários do Ritmo — e a não chegar a lugar algum. Continue reading “Dick Farney e a Americanização da Música Popular Brasileira: Cantor de Jazz + Samba = Samba-Canção”

Ruy Castro e A Noite do Meu Bem: A História e as Histórias do Samba-Canção

Depois de reconstituir o mundo da bossa nova no já clássico Chega de Saudade: a história e as histórias da bossa nova, Ruy Castro mergulha no universo do samba-canção e das boates cariocas dos anos 1940, 50 e 60 no livro A noite do meu bem: a história e as histórias do samba-canção.

Até 1946, quando o presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu os jogos de azar no Brasil, a noite carioca girava em torno dos grandes cassinos: o da Urca, o do Copacabana Palace, o Atlântico, ou mesmo, subindo a serra, o Quitandinha, em Petrópolis. Eram verdadeiros impérios da boemia, onde a roleta e o pano verde serviam de pretexto para espetáculos luxuosos, atrações internacionais e muito champanhe.

A canetada presidencial gerou uma legião de desempregados – músicos, cantores, dançarinas, coristas, barmen, crupiês – e um contingente ainda maior de notívagos carentes. Os cassinos fecharam para sempre, mas os indestrutíveis profissionais da noite, sem falar nos boêmios de plantão, logo encontraram um novo habitat: as boates de Copacabana. Continue reading “Ruy Castro e A Noite do Meu Bem: A História e as Histórias do Samba-Canção”

Mudança na Psicologia: Medo do Cobrador de Penalty Diante do Goleiro

Meu orientador de teses, o admirável Professor Wilson Cano, corajosamente, levantou certa hipótese em auditório lotado: “o individualismo da Era Neoliberal levou até jogadores de futebol a tremer diante do goleiro na hora da cobrança de penalty!” Todo mundo riu, devido ao inusitado raciocínio, invertendo “o medo do goleiro diante do penalty”: hoje, ele é a chance de sua consagração!

Victor Mather (NYT, 15/05/2017) informa que o futebol internacional está tentando algo de novo nas decisões por pênaltis.

No campeonato europeu masculino sub-17, que se realiza na Croácia, e no campeonato europeu feminino sub-17, que acontece na República Tcheca, os jogos de mata-mata que terminarem em empate serão, como de hábito, decididos por pênaltis. E, como de hábito, a ordem de cobrança será decidida no cara ou coroa. Mas apenas para a primeira série de pênaltis. Em lugar de o mesmo time cobrar primeiro em cada série de pênaltis, os times se alternarão na primeira cobrança, a cada série.

Em lugar de as cobranças acontecerem no formato AB, AB, AB, AB até que um vencedor seja determinado, elas acontecerão no formato AB, BA, AB, BA, e assim por diante. Sim, mais ou menos como nas regras de seleção de jogadores usadas nas ligas de fantasia dos esportes norte-americanos.

A mudança é experimental. As autoridades do futebol estão mexendo nas regras de decisões por pênaltis para tentar resolver aquilo que veem como uma questão básica de justiça. Continue reading “Mudança na Psicologia: Medo do Cobrador de Penalty Diante do Goleiro”

Dica: Série “In My Shoes”

O chileno Cesar Hidalgo é um dos mais importantes cientistas latino-americanos em atividade. Ele tem 37 anos, aparência de rockstar, com cabelos grandes, barba, bigode e jaqueta de couro de motociclista (sua vestimenta oficial). Ele é um dos mais conhecidos professores do MIT.

Se fosse há 20 anos, muita gente descreveria seu trabalho como “epistemologia“, ou seja, a ciência que estuda a própria ciência. No entanto, como vivemos na era da internet e palavrões como esse são cada vez mais raros, sua especialidade é usualmente descrita como “data visualization” (visualização de dados).

[Fernando Nogueira da Costa: adoro fazer isso, a transformação de grande planilhas estatísticas em conhecimento, ou seja, a complexidade em simplicidade!]

Em suma, ele transforma imensos arquivos do conhecimento humano (especialmente dados científicos) em gráficos interativos e acessíveis, que permitem que até um leigo compreenda as informações só de bater o olho. Para fazer isso, obviamente, ele precisa ter um conhecimento profundo dos dados com que trabalha, e da própria ciência de modo geral.

César lançou um seriado sobre sua própria vida de cientista, chamado “In My Shoes” (algo como “No meu lugar”). São oito episódios, de cerca de 18 minutos cada um. Eles não estão no Netflix (deveriam estar!), mas podem ser assistidos gratuitamente on-line (inmyshoes.info) com legendas em espanhol no Vimeo.

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Benevolência enquanto Valor Escolhido

E alguém que é pobre, deficiente ou incapaz de se sustentar? O que fazer? É uma pergunta válida, segundo os objetivistas egoístas, “desde que não seja a primeira pergunta que fazemos sobre um sistema social”. Esta pergunta, necessariamente, tem de ser feita pelo filósofo objetivista David Kelley em ensaio publicado no livro organizado por Tom G. Palmer, A Moralidade do Capitalismo.

É um legado do altruísmo pensar que o padrão principal para avaliar a sociedade é a maneira como trata seus membros menos produtivos. “Bemaventurados são os pobres de espírito”, disse Jesus, “bem-aventurados são os mansos”.

Mas, para o Objetivismo, não há razão justa para destinar qualquer estima especial aos pobres ou mansos ou considerar suas necessidades como principais. “Se tivéssemos que escolher entre uma sociedade coletivista na qual ninguém é livre, mas ninguém passa fome, e uma sociedade individualista em que todos são livres, mas algumas pessoas passam fome”, o  filósofo objetivista David Kelley  argumentaria que, nessa dicotomia reducionista, obviamente, a segunda, a sociedade livre, é a escolha moral. Ninguém pode exigir o direito de fazer com que os outros o sirvam involuntariamente, mesmo que sua própria vida dependa disso. Continue reading “Benevolência enquanto Valor Escolhido”

Brasil como Sistema Complexo: Interações de Castas

Cabe uma revisão da história social e política do Brasil à luz do modo que, antigamente, a casta dos sábios brasileiros via a sociedade, ou seja, através da historiografia clássica brasileira.

A sociedade nem sempre era vista a la credo liberal como um aglomerado de indivíduos atomizados, nem tampouco como as classes econômicas de Marx, segundo as quais as pessoas são categorizadas conforme suas propriedades, lutando entre si.

O Poder não deve ser visto, no Brasil, como fosse simplesmente apropriado por partidos político-ideológicos, mas sim por grupos profissionais, cada um dos quais gerando seu próprio éthos, isto é, espírito, caráter, mentalidade.

Isso permitiria ver os grupos sociais não só como organismos que buscam o interesse próprio e a vantagem econômica, mas também como encarnações de ideias e estilos de vida, que com frequência procuram impor aos outros.

Tentei elaborar o início de um esboço do que seria “uma nova história do Poder no Brasil” através do jogo de alianças, ascensão e queda de coalizões governamentais entre representantes das castas dos comerciantes, guerreiros, sábios e trabalhadores no seguinte Texto para Discussão (clique para download)TDIE 299 Brasil Complexo por Interações de Castas.

Dentro da dependência de trajetória caótica e não linear desse sistema complexo, há predominâncias de comportamentos de acordo com os valores impostos por cada casta. São os principais nódulos dos relacionamentos entre as castas brasileiras: conciliação, autoritarismo, elitismo, populismo, culto à personalidade, e corrupção.

Obs.: este TDIE 299 complementa o postado anteriormente: TDIE 294 Instituições e Valores das Castas no Brasil.

Panorama da Economia Mundial

A Carta IEDI 786 informa que o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou recentemente, no “Panorama da Economia Mundial” (World Economic Outlook – WEO) de abril, seu cenário atual para o desempenho econômico global, que prevê uma retomada de dinamismo, em contraste com o tom pessimista das duas edições anteriores. Este contexto, se confirmado, favorecerá a economia brasileira após a pior recessão da sua história, muito embora o Fundo tenha reduzido a projeção de crescimento da economia brasileira em 2017 de mero 0,5% para 0,2%.

O FMI projeta uma expansão de 3,5% da economia mundial em 2017, implicando um impulso após dois anos de desaceleração (3,4% em 2014, 3,2% em 2015 e 3,1% em 2016) e o melhor desempenho desde 2012. Além disso, o Fundo espera que essa trajetória ascendente persista em 2018 (+3,6%). Notar, todavia que o ritmo de expansão global continuará num patamar inferior ao registrado no boom que precedeu a crise financeira global (2003 a 2007), bem como no biênio imediatamente posterior (2010-2011). Em contraste, o Banco Mundial, no seu relatório anual “Perspectivas para a Economia Global” (Global Economic Prospects) divulgado em janeiro estima um crescimento de 2,7%, ou seja, uma desaceleração de 0,4 p.p. frente ao ano anterior. Continue reading “Panorama da Economia Mundial”