Lazer versus Ócio = Trabalho Não Alienado versus Descanso

O livro de Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, não é uma defesa da ociosidade. O que os cidadãos querem ter mais é lazer, uma categoria que, devidamente compreendida, está tão longe de coincidir com ociosidade que é praticamente o seu oposto polar.

O lazer, no seu sentido verdadeiro e agora quase esquecido, é atividade sem um fim extrínseco, “intencionalidade sem intenção”, como disse Kant. O escultor ocupado a cortar mármore, o professor decidido a transmitir uma ideia difícil, o músico a debater-se com uma partitura, o cientista a explorar os mistérios do espaço e do tempo – essas pessoas não têm outro objetivo para além de fazer bem o que estão a fazer. Podem receber uma remuneração pelos seus esforços, mas não é essa remuneração que os motiva.

Na opinião de Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, eles estão envolvidos em lazer, não em trabalho árduo. É evidente que isto é uma idealização. No mundo real, as recompensas extrínsecas, incluindo recompensas financeiras, nunca estão inteiramente esquecidas.

No entanto, na medida em que a ação deles deriva não da necessidade, mas da inclinação, na medida em que é espontânea, não servil e mecânica, o trabalho árduo está no fim e o lazer a começou. Este – não a ociosidade – é o ideal. Só a pobreza de imaginação da nossa cultura leva a acreditar que toda a criatividade e inovação – em oposição àquele tipo específico destinado a melhorar os processos econômicos – precisa de ser estimulada pelo dinheiro.

“Tudo isso é muito esplêndido”, poderia retorquir o crítico, “mas não é nada provável que uma redução de atividade externamente motivada leve a um aumento do lazer. Preguiçosos como nós precisam do estímulo do dinheiro para serem incentivados a fazer alguma coisa. Sem ele, a nossa preguiça natural fica em evidência, conduzindo não apenas à vida boa, mas também ao tédio, à neurose e à garrafa. Se lerem alguns romances russos, perceberão o que quero dizer”.

Essa dúvida só pode ser considerada com uma declaração de fé. Nunca foi tentada uma redução universal de trabalho, por isso não sabemos ao certo quais seriam as suas consequências. Mas não podemos pensar que elas são tão horríveis como o nosso crítico sugere, nem que o projeto central da civilização europeia moderna, o de melhorar o bem-estar das pessoas, é vazio e vão.

Se o objetivo supremo da indústria é a ociosidade, se trabalhamos e criamos apenas para que os nossos descendentes possam enroscar-se eternamente a ver televisão o dia inteiro, então todo o progresso é, como Orwell disse, “uma luta frenética para um objetivo que [nós] esperamos e rezamos para que nunca seja alcançado”.

Estamos na situação paradoxal de nos incentivarmos para novos feitos de iniciativa, não por pensarmos que valem a pena, mas porque qualquer atividade, por muito inútil que seja, é melhor do que nenhuma. Nós temos de acreditar na possibilidade do lazer genuíno – caso contrário, o nosso estado é de fato desesperado.

Outra reflexão dá-nos esperança. A imagem do homem como um ocioso simpático, que só faz alguma coisa se tiver a perspectiva de lucro, é exclusiva da era moderna. Especialmente os economistas veem os seres humanos como animais que precisam do estímulo de uma cenoura ou de um porrete para fazerem alguma coisa.

“Satisfazer os nossos desejos ao máximo com um mínimo de esforço” foi como William Stanley Jevons, um pioneiro da teoria econômica moderna, definiu o problema humano. Essa não era a visão antiga das coisas. Atenas e Roma tinham cidadãos que, apesar de economicamente improdutivos, eram extremamente ativos – na Política, na Guerra, na Filosofia e na Literatura.

Porque não os usar, e não ao burro, como nosso guia? É evidente que os cidadãos atenienses e romanos eram ensinados desde tenra idade a usar sabiamente o lazer. O nosso projeto implica um esforço educativo semelhante. Não podemos esperar que uma sociedade treinada nas utilizações servis e mecânicas do tempo se torne uma sociedade de homens livres de um dia para o outro.

Disse Bertrand Russell: “Anteriormente, havia uma capacidade de alegria e diversão que foi até certo ponto inibida pelo culto da eficiência […] Os prazeres das populações urbanas tornaram-se essencialmente passivos: ir ao cinema, ver jogos de futebol, ouvir rádio, etc. Isto resulta do fato de as suas energias ativas serem totalmente dedicadas ao trabalho; se tivessem mais lazer, desfrutariam de novo de prazeres em que teriam um papel ativo”.

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky acrescentam que é em grande medida porque o lazer perdeu o seu verdadeiro significado de atividade espontânea e degenerou em consumo passivo que nos atiramos, como fosse evitar o pior de dois males, ou seja, como alternativa ao trabalho.

“Uma pessoa tem de trabalhar”, escreveu Baudelaire nos seus Diários Íntimos, “se não por gosto, pelo menos por desespero. Pois, para reduzir tudo a uma única verdade, o trabalho é menos aborrecido do que o prazer”.

Outra dúvida assume a forma de uma defesa qualificada do objetivo de ganhar dinheiro: é verdade, dizem os críticos da diminuição do trabalho alienado, que não é a mais nobre das atividades humanas, mas é o menos pernicioso dos principais objetivos dos esforços humanos.

A última, e mais profunda, dúvida relativamente ao projeto de mudar a relação trabalho / lazer diz respeito ao seu carácter supostamente iliberal. John Rawls e outros ensinaram-nos a acreditar que um Estado liberal não incorpora uma visão positiva, mas apenas os princípios que são necessários para pessoas de diferentes gostos e ideais viverem juntas em harmonia. Promover, como uma questão de política pública, uma ideia positiva da vida boa é por definição iliberal, talvez até totalitário.

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky voltarão a esta questão mais adiante no livro. Por enquanto, dizem apenas que ela se baseia em um conceito completamente errado do liberalismo. Ao longo da maior parte da sua longa história, a tradição liberal esteve impregnada de ideais clássicos e cristãos de dignidade, civilidade e tolerância.

Devemos lembrar que “liberal” designava originalmente o que era apropriado para um homem livre, um uso que sobreviveu em frases como “artes liberais”. No século XX, liberais prototípicos como Keynes, Isaiah Berlin e Lionel Trilling tomaram como certo que apoiar a civilização fazia parte das funções do Estado.

O conceito de liberalismo que o vê como um sinônimo de neutralidade entre diferentes visões do bem é um conceito superficial. Em todo o caso, a neutralidade é uma ficção. Um Estado “neutro” entrega simplesmente o poder aos guardiões do capital para manipularem o gosto público de acordo com os seus interesses pessoais.

A principal barreira intelectual à concretização da vida boa para todos é talvez a disciplina da Economia, ou antes, a ortodoxia mortal que dá por esse nome na maioria das universidades no mundo inteiro.

Na realidade, estamos condenados à penúria, não por falta de recursos, mas pela extravagância dos nossos apetites. Como o economista Harry Johnson afirmou em 1960, “vivemos em uma sociedade rica, que, não obstante, em muitos aspectos insiste em pensar e agir como se fosse uma sociedade pobre”. A perspectiva da pobreza, e com ela uma ênfase na eficiência a todo o custo, está arraigada na Economia moderna.

Porém, nem sempre foi assim. Adam Smith, o fundador da Economia moderna, assumiu que o nosso desejo inato de progresso acabaria por confrontar-se com limites naturais e institucionais e nos deixaria em um “estado estacionário”.

Em uma definição clássica, Lionel Robbins descreveu a Economia como “a ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos que têm utilizações alternativas”. A definição de Robbins coloca a escassez no centro da Economia e coloca entre parênteses os julgamentos de valor. “Se a escassez está sempre presente, então a eficiência, a utilização ideal de recursos escassos, e a Economia, a ciência que nos ensina eficiência, serão sempre necessárias”.

No entanto, a escassez, como a maioria das pessoas a entende, diminuiu muito na maior parte das sociedades nos últimos 200 anos. As pessoas em países ricos e até medianamente ricos já não morrem de fome. Tudo isto significa que a importância social da eficiência declinou, e com ela a utilidade da Economia.

O princípio de bom senso nesta questão é pensar na escassez relativamente às necessidades, não aos desejos.

A premissa do que se segue é que as condições materiais da vida boa já existem, pelo menos nas regiões ricas do mundo, mas que a busca cega do crescimento as coloca continuamente inacessíveis. Nessas circunstâncias, o objetivo da política e de outras formas de ação coletiva deveria ser o de garantir uma organização econômica que coloca as coisas boas da vida – saúde, respeito, amizade, lazer, etc. – ao alcance de todos. O crescimento econômico deve ser aceito como um resultado residual ou colateral, não como um objetivo principal.

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