Ilusões das Médias

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, ressaltam que, antes de aprofundarmos mais a questão de saber porque é que as horas de trabalho não caíram em linha com o crescimento da economia, devíamos estar conscientes do que é dissimulado pelos nossos métodos de medição.

A média é simplesmente a tendência central de um conjunto de dados. A maioria das pessoas pensa intuitivamente nela como um número “típico”.

Média é uma representação estilizada (e parcial) da situação na Grã-Bretanha e na América dos nossos dias, onde a maioria das pessoas ganha menos do que a média e um pequeno número ganha muito mais. Em 2011, o rendimento médio no Reino Unido foi de 27 mil libras, mas o rendimento mediano foi de 21 500 libras. Isso significa que 50% da população ganhou menos de 21 500 libras e algumas pessoas muito menos do que esse valor.

A falácia de deduzir uma situação “típica” a partir do estudo de médias aritméticas é extremamente relevante para a distribuição de rendimentos. Não é possível dizer se o bem-estar dos cidadãos de um país vai subir ou descer sem sabermos o que aconteceu à distribuição de rendimento. Mas a falácia aplica-se em muitas das situações que nos interessam.

Em primeiro lugar, o número médio de horas trabalhadas esconde variações bastante grandes (e cada vez maiores) entre países, com a diligente América em uma ponta, a “velha Europa” na outra e a Grã-Bretanha mais perto dos Estados Unidos.

Em uma sociedade de imigrantes como é a sociedade americana, ganhar dinheiro era visto como a estrada real para o sucesso. Na Europa, o legado de uma cultura hierárquica que limitava as oportunidades de ganhar dinheiro nos estratos superiores e nos estratos inferiores levou à adoção de formas de vida que menosprezavam o ganho de dinheiro como um objetivo. A Grã-Bretanha é um caso intermediário, mais aberto à criação de riqueza do que a Europa Continental, menos igualitária em termos sociais do que os Estados Unidos.

Estas diferenças culturais estão gravadas nas instituições específicas do sistema de impostos, sistema de proteção social e mercado de trabalho e são reforçadas por elas. É muito possível que o número superior de horas italianas deixe de fora aqueles que trabalham apenas horas intermitentes na economia informal. Esta parece ser uma característica de todos os países mediterrânicos.

Em segundo lugar, a diminuição da média de horas de trabalho esconde uma discrepância em horas trabalhadas por diferentes grupos dentro de países. Apesar de as horas globais de trabalho terem estagnado, muitos dos trabalhadores mais mal pagos trabalham menos do que querem, enquanto muitos dos ricos trabalham mais do que precisam.

É um fato marcante que as horas de trabalho entre os ricos aumentaram, especialmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, invertendo a relação negativa entre trabalho e rendimento que, até há muito pouco tempo, se pensava geralmente que se mantinha.

No tempo de Keynes, o estrato superior da sociedade trabalhava menos horas do que o estrato inferior. A aristocracia não se dedicava a qualquer trabalho remunerado. Os profissionais liberais ou assalariados passavam muito menos horas no consultório ou escritório.

Hoje em dia, os ricos “viciados em trabalho” substituíram os ricos “ociosos”. A posição social já não é determinada pela imunidade ao trabalho. Na nossa sociedade extremamente competitiva, pessoas de talento, mas sem fortuna, têm de trabalhar mais duramente do que nunca para atingir a posição que era desfrutada sem qualquer esforço em épocas passadas por pessoas com fortuna, mas sem talento.

Esta inversão da relação tradicional entre trabalho e rendimento é um bom motivo para acreditarmos que não caminhamos tendencialmente para um futuro sem trabalho.

Em terceiro lugar, a média de horas trabalhadas por ano mostra uma queda mais acentuada que a média de horas trabalhadas por semana, porque incluem o período de férias. Na Europa, as férias pagas previstas na lei quadruplicaram desde a época de Keynes, de uma para quatro semanas por ano – um ganho evidente para o lazer.

Todavia, a contrabalançar este ganho está o aumento do tempo passado nas viagens (transporte) de casa para o emprego e no trabalho doméstico. Surpreendentemente, o trabalho doméstico no Reino Unido absorve mais meia hora por dia do que em 1961, apesar de todos os novos aparelhos que poupam trabalho. E, além disso, muitas mais mulheres trabalham fora de casa do que no tempo de Keynes, pois a grande procura de mão de obra depois da guerra levou as mulheres para o mercado de trabalho e criou carreiras para elas. Nos Estados Unidos, a proporção de mulheres que trabalhavam em 1930 era de 25%; atualmente, é de 70%, uma tendência refletida noutros países industrializados.

A versão moderna da dona de casa, ao contrário da vista por Keynes, tem uma probabilidade menor de ter um esgotamento nervoso devido à ociosidade involuntária do que devido ao stresse de combinar trabalho remunerado com o tempo extra que tem de dedicar às compras. Este inclui a viagem de ida e volta para supermercados e a fila para pagar. E também se dedicam aos filhos com a supervisão de brincadeiras, que antigamente não eram vigiadas, e o transporte de e para a escola.

Além disso, como as estatísticas de horas de trabalho, quer semanais quer anuais, incluem apenas pessoas que trabalham, não refletem os anos dedicados à educação ou o fosso, chamado aposentadoria, cada vez maior entre o trabalho ativo e o falecimento.

Deveríamos contar os anos dedicados à educação como uma extensão do trabalho ou do lazer? Provavelmente, dependerá do tipo de educação. Se for treinamento para o trabalho, como a maior parte do ensino parece ser hoje em dia, deveria contar como trabalho. Se for uma preparação para a vida boa, deveria contar como lazer.

A aposentadoria é mais naturalmente considerada parte do lazer. O seu prolongamento poderá, assim, ser contado como uma adição à possibilidade da vida boa.

No entanto, deve ser seguramente errado concentrar tanto lazer nos últimos anos da vida de uma pessoa. Não só as pessoas tiveram pouca preparação nas suas vidas ativas para o lazer que as espera no futuro como a sua capacidade para desfrutar dele pode ter diminuído.

Também não podemos concluir que o lazer para a sociedade como um todo vai continuar a aumentar simplesmente em consequência do aumento da longevidade. Como o investimento financeiro e/ou imobiliário de sobras do rendimento não acompanhou o ritmo do custo de vida cada vez mais elevado da aposentadoria, quer em termos de anos, quer de despesas médicas, os anos de trabalho estão aumentando, inexoravelmente, e as políticas de não discriminação etária dão força legislativa a esta tendência.

Assim, o colapso da poupança doméstica durante a vida ativa reduzirá inevitavelmente os anos de aposentadoria, a menos que os estilos de vida pouco saudáveis das sociedades ricas produzam o mesmo resultado invertendo o aumento da esperança de vida.

Porém, por muito que analisemos as médias, o quebra-cabeças central mantém-se: no mundo rico, a população está em média com rendimento quatro ou cinco vezes melhor do que seus habitantes estavam em 1930, mas a média das suas horas de trabalho caiu apenas um quinto desde então.

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