Profecia Não Realizada: Devenir Feliz

Devenir ou devir se refere ao processo de transformação constante pelo qual passam todos os seres e todas as coisas. É o processo de vir a ser. Tanto Marx, no socialismo, quanto Keynes, no capitalismo, acreditavam em um devir feliz.

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, dizem que “o desemprego tecnológico apontava para um futuro sem trabalho, mas voluntário, não forçado”.

Com a elevação da produtividade, produzida com força do trabalho e tecnologia, a humanidade seria capaz de satisfazer todas as suas necessidades materiais por uma fração do esforço de trabalho existente – no máximo, três horas por dia.

Keynes, certamente, esperava um momento em que a atitude espontânea e feliz perante a vida que estava então confinada a artistas e espíritos livres se difundisse pela sociedade como um todo. Seu ensaio culmina em um arroubo de retórica, entrelaçando Aristóteles e o Novo Testamento:

“Vejo-nos livres para voltarmos a um dos princípios mais seguros e certos da religião e da virtude tradicional – que a avareza é um vício, que a usura é uma infração e o amor pelo dinheiro é detestável, que aqueles que caminham mais verdadeiramente nos caminhos da virtude e da sabedoria são aqueles que pensam menos no dia seguinte. Valorizaremos novamente os fins acima dos meios e preferiremos o bom ao útil. Honraremos aqueles que podem ensinar-nos a aproveitar virtuosamente e bem a hora e o dia, as pessoas encantadoras que são capazes de apreciar diretamente as coisas, os lírios do campo, que não trabalham arduamente nem correm”.

Uma palavra para este estado paradisíaco é chamar-lhe, simplesmente, de “Felicidade”.

Assim, o capitalismo, a vida de prosperidade econômica e de ganhar dinheiro, era um estado transitório, um meio para atingir um fim, sendo esse fim a vida boa. Como poderia ser essa vida boa?

Enquanto economista e especulador, Keynes viveu a maior parte da sua vida no inferno da ação capitalista, mas teve sempre um olho no paraíso da arte, do amor e da busca de conhecimento, personificado para ele pelos seus amigos de Bloomsbury. O ensaio “Possibilidades Econômicas” é a sua tentativa de conciliar estes dois lados da sua personalidade – o resoluto e o espontâneo – ao projetá-los para o presente e para o futuro, respectivamente.

Possibilidades Econômicas” foi virtualmente ignorado na época, sendo considerado demasiado fantasista para uma discussão séria. De fato, era uma pièce d’occasion, um jeu d’esprit. A sua visão e argumento estavam condensados em apenas 12 páginas. Havia muitas pontas soltas, objeções levantadas, mas esquecidas.

“Aqui estava Keynes no seu melhor e no seu pior”, escreveu um dos seus alunos. “No seu pior, porque algo da sua teoria social e política não resistiria a um escrutínio demasiado minucioso, pois não é provável que a sociedade fique sem novos desejos enquanto o consumo for conspícuo e competitivo. No seu melhor, devido à mente errante, curiosa, intuitiva e provocadora do homem”.

Porém, apesar de todo o seu futurismo, “Possibilidades Econômicas” está diretamente associado à principal preocupação de Keynes: o problema do desemprego em massa persistente. Esse desemprego proporciona a motivação “ideal” para a revolução na política econômica pela qual ele é acima de tudo conhecido: o pleno emprego contínuo, não interrompido por crises, era o caminho mais rápido para a utopia a que o ensaio aludia. Keynes queria garantir que o sistema capitalista funcionava em pleno para apressar o dia em que chegaria ao fim.

Passaram-se mais de 80 anos desde que escreveu este ensaio; nós somos os seus “netos”, até os seus bisnetos. Por isso, até que ponto é que a profecia de Keynes se realizou?

O ensaio de Keynes apresentou duas profecias e uma possibilidade. As previsões relacionavam-se com crescimento e horas de trabalho. Simplificando um pouco, Keynes pensava que, naquela altura, nós, no Ocidente, estaríamos prestes a ter o “suficiente” para satisfazer todas as nossas necessidades sem termos de trabalhar mais do que três horas por dia.

A possibilidade – não uma previsão, porque Keynes sugere o cenário alternativo da “dona de casa aborrecida ou entediada” – era que aprenderíamos a usar o nosso tempo extra de lazer para vivermos “sabiamente, agradavelmente e bem”. Como correram estas especulações?

O crescimento do rendimento real per capita foi bastante semelhante ao que Keynes esperava. A verdade é que a coincidência é um feliz acaso. Keynes não previu quaisquer grandes guerras nem crescimento populacional significativo nos países abrangidos. Na realidade, houve outra guerra mundial e a população cresceu em cerca de um terço.

Mas ele subestimou o crescimento da produtividade. Os dois erros anularam-se, com o resultado de que os rendimentos per capita quadruplicaram de facto nos 70 anos desde 1930, até ao limite inferior de Keynes.

O que aconteceu então às horas de trabalho? A previsão de Keynes de que, nessas condições, as horas de trabalho cairiam em linha com o crescimento da produtividade dependia da suposição aparentemente lógica de que o rendimento tinha uma utilidade marginal decrescente – que cada pedaço extra de rendimento produzia um pouco menos de satisfação extra –, de tal forma que à medida que as sociedades se fossem tornando mais ricas prefeririam cada vez mais o lazer a maior rendimento. À medida que o rendimento de uma pessoa aumentasse, devido à sua produção extra por hora, as suas horas de trabalho diminuiriam até a utilidade de uma hora extra de rendimento ser igual à de uma hora extra de lazer.

Mas as coisas não funcionaram assim. Entre 1870 e 1930, as horas de trabalho por pessoa caíram rapidamente e Keynes presumiu que esta tendência de queda continuaria.

As horas de trabalho por pessoa estão longe de ter caído três quartos desde 1930. Em 1930, as pessoas no mundo industrial trabalhavam cerca de 50 horas semanais. Hoje, trabalham 44 horas por semana. Pelos cálculos de Keynes, neste momento devíamos estar perto das 15 horas de trabalho semanal, se não estivéssemos já lá.

Se projetarmos as tendências atuais para 2030, poderemos chegar às 35 horas de trabalho semanal, mas nada que se assemelhe a 15 horas de trabalho semanal. O problema é compreender porque é que as horas de trabalho caíram muito menos do que o crescimento da produção por hora trabalhada o levou a esperar.

Keynes não estabeleceu qualquer limite geográfico para a sua previsão. Provavelmente, pensou que, em 2030, os países pobres estariam quase a alcançar os países ricos. E não estava completamente errado. Um pequeno grupo de economias asiáticas alcançou os padrões de vida ocidentais e há uma série muito maior de países de rendimento médio que chegarão lá a médio prazo.

Porém, o crescimento populacional, que ele não previu, manteve um quarto da população mundial desesperadamente pobre. Em 1930, a população mundial era de 2,7 bilhões. Atualmente é de 7 bilhões, um aumento de mais de duas vezes e meia. Mesmo no mundo rico, a população é superior em mais de 30%.

A pergunta embaraçosa que Keynes não enfrentou foi até que ponto deveriam ir os ricos no adiamento da sua própria “felicidade” para ajudar os pobres.

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