Preferência Partidária no Brasil

A desconfiança em partidos e políticos, em geral, não é restrita ao Brasil, nestes tempos agitados sob crescimento do conservadorismo. Recebi de um colega uma pesquisa feita na França (Fractures Françaises_2016) que ajuda muito a entender a configuração eleitoral atual, mas que pode ser lida como um bom subsídio para pensar a situação brasileira.

A pesquisa é muito detalhada. Ressalto somente um aspecto dos resultados: muitos dos indicadores tem valor médio próximos ao que pensam os simpatizantes da FN (Frente Nacional), partido xenófobo que disputa o segundo turno na França. Lá como cá, há necessidade de Frente Ampla da Esquerda contra os neoliberais e a direita.

Ricardo Mendonça (Valor, 04/05/17) informa que pesquisa Datafolha divulgada no domingo (30 de abril de 2017) (clique para download) mostra que o PT está conseguindo recuperar parte dos simpatizantes que havia perdido durante o conturbado e incompleto segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. Conforme o levantamento feito em 26 e 27 de abril, a legenda do PT é citada como a preferida por 15% dos brasileiros. Trata-se da melhor taxa obtida pelo PT desde o fim de 2014. O PSDB e PMDB alcançam 4% cada. Psol, PV, PDT e PTB aparecem empatados com 1%. Os demais partidos não pontuam.

O PT lidera esse tipo de ranking desde o fim dos anos 90, ainda durante o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso. Passou anos com taxa sempre acima de 20%, mas caiu fortemente no seu pior momento, em março de 2015, logo após a segunda posse da ex-presidente Dilma Rousseff. Afundou para 9%, devido ao estelionato eleitoral que representou Joaquim Levy e seu programa neoliberal no Ministério da Fazenda.

Coincide com o período da primeira grande onda de manifestações de rua da direita contra ela. Três meses depois, o PT registrou 11% de preferência (variação na margem de erro) e ficou ainda em uma situação de empate técnico com os 9% alcançados pelo PSDB – o melhor resultado histórico dos tucanos. Em dezembro de 2016, após o golpe e o péssimo desempenho dos petistas nas eleições municipais, a simpatia pelo PT voltou para 9%.

O Datafolha investiga preferência partidária desde 1989. Na série de 26 anos, o melhor momento do PT foi em abril de 2012, quando foi citado por quase um terço dos brasileiros (31%). Esta é a época da Cruzada da Dilma contra os juros altos. Até hoje os economistas neoliberais fazem campanha de ódio contra a Nova Matriz Macroeconômica em suas colunas no PIG. Acham que defendem O Mercado…

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Por que trabalhar? Por que ser Workaholic e não Worklover?

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, afirmam que as explicações para o fato de a média de horas de trabalho não estar em linha com o crescimento do rendimento divide-se em três tipos genéricos. Diz-se que as pessoas trabalham as horas que trabalham:

  1. porque gostam,
  2. porque são obrigadas ou
  3. porque querem cada vez mais.

Lenine proclamou, citando São Paulo: “quem não trabalha não come”!

Keynes seguiu a política econômica do seu tempo, tratando o trabalho como o custo de obter coisas absolutamente essenciais.

Adam Smith escreveu: “o verdadeiro preço de todas as coisas […] é o trabalho árduo e a dificuldade de adquiri-las”.

Jeremy Bentham disse: “Na medida em que o trabalho é visto no seu sentido próprio, o amor pelo trabalho é um paradoxo”.

Não havia nenhuma novidade neste tratamento: a Bíblia diz-nos que o homem foi condenado a trabalhar para expiar dolorosamente a sua desobediência a Deus. A religião é o consolo para os conformistas.

No entanto, mais recentemente, algumas pessoas céticas sugeriram que esta relação ancestral do trabalho com “trabalho árduo e dificuldade” não é válida, ou tem uma validade reduzida. O trabalho já não é esforço no sentido economicista, mas um esforço de amor: uma fonte de estímulo, identidade, merecimento e sociabilidade. Continue reading “Por que trabalhar? Por que ser Workaholic e não Worklover?”

Vício de Tecer Rede de Relacionamentos Profissionais em Horas de Descanso

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, se colocam as seguintes perguntas:

  1. Porque é que Keynes pensou que quanto maior fosse o rendimento das pessoas menos elas quereriam trabalhar?
  2. E porque é que ele fixou um aumento de quatro a oito vezes como “suficiente”?
  3. Porque não duas ou três vezes, ou até dez vezes?

A resposta à primeira pergunta é que Keynes acreditava que as pessoas tinham uma quantidade finita de necessidades materiais que poderiam um dia ser plenamente satisfeitas. Acreditava nisto porque não conseguiu distinguir desejos de necessidades.

Na verdade, ele usou os dois termos alternadamente no seu ensaio. Este erro foi crucial. As necessidades – os requisitos objetivos de uma vida boa e confortável – são finitos em termos de quantidade, mas os desejos, sendo puramente físicos, são infinitamente expandidos, quer em quantidade quer em qualidade. Isto significa que o crescimento econômico não tem uma tendência natural para parar. Se parar, será porque as pessoas decidem não querer mais do que o necessário.

Porque é que Keynes pensou que um rendimento quatro a oito vezes superior ao rendimento médio do seu tempo seria “suficiente”? A resposta é quase certamente que ele estava a pensar em um padrão de vida de classe média, o padrão daqueles que ele considerava que tinham “uma vida confortável”. Continue reading “Vício de Tecer Rede de Relacionamentos Profissionais em Horas de Descanso”