Vício de Tecer Rede de Relacionamentos Profissionais em Horas de Descanso

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, se colocam as seguintes perguntas:

  1. Porque é que Keynes pensou que quanto maior fosse o rendimento das pessoas menos elas quereriam trabalhar?
  2. E porque é que ele fixou um aumento de quatro a oito vezes como “suficiente”?
  3. Porque não duas ou três vezes, ou até dez vezes?

A resposta à primeira pergunta é que Keynes acreditava que as pessoas tinham uma quantidade finita de necessidades materiais que poderiam um dia ser plenamente satisfeitas. Acreditava nisto porque não conseguiu distinguir desejos de necessidades.

Na verdade, ele usou os dois termos alternadamente no seu ensaio. Este erro foi crucial. As necessidades – os requisitos objetivos de uma vida boa e confortável – são finitos em termos de quantidade, mas os desejos, sendo puramente físicos, são infinitamente expandidos, quer em quantidade quer em qualidade. Isto significa que o crescimento econômico não tem uma tendência natural para parar. Se parar, será porque as pessoas decidem não querer mais do que o necessário.

Porque é que Keynes pensou que um rendimento quatro a oito vezes superior ao rendimento médio do seu tempo seria “suficiente”? A resposta é quase certamente que ele estava a pensar em um padrão de vida de classe média, o padrão daqueles que ele considerava que tinham “uma vida confortável”.

Na década de 1930, os profissionais de trabalho intelectual ganhavam em média cerca de quatro vezes mais do que a média auferida pelos trabalhadores manuais, mas os médicos e advogados chegavam a receber 5,2 e 7,5 vezes mais, respectivamente. Keynes pensou que, quando a maioria das pessoas tivesse rendimentos não muito superiores aos proventos profissionais, teria o suficiente para viver uma vida boa.

Muito naturalmente, ele teria de ter em conta o aumento generalizado dos padrões de conforto. Porém, ele terá imaginado que ao longo do tempo os pobres aproximar-se-iam dos ricos, à medida que os ricos, estando mais próximos da “Felicidade”, fossem reduzindo as suas horas de trabalho mais depressa do que os que estavam menos bem de vida. Ele não previu que os ricos corressem à frente dos pobres, aumentando as suas horas de trabalho.

A noção de suficiência de Keynes não exigia uma igualdade total de rendimentos. Baseava-se em uma ideia de o que era adequado para um determinado papel social. Esta visão da questão, que remonta a Aristóteles, era comum entre os contemporâneos de Keynes. Assim, o economista Alfred Marshall calculou que 500 libras por ano eram “suficientes” para um pensador. Virginia Woolf pensava que um escritor precisava de 500 libras por ano e “uma sala só sua”. Estes valores podiam ser vistos como requisitos para essas ocupações específicas.

A vida boa podia ser desfrutada com muitos níveis diferentes de rendimento, desde que as necessidades materiais básicas, incluindo níveis de conforto, estivessem satisfeitas para todos.

Por fim, o que aconteceu à “possibilidade” de Keynes – que usaríamos o nosso lazer para viver “sabiamente, agradavelmente e bem”?

Ainda não estamos em posição de responder a esta pergunta, pois nas sociedades ricas dos nossos dias o lazer continua a ser um apêndice do trabalho e não o seu substituto. Depois de um trabalho árduo, a maioria das pessoas só quer “descansar”. As férias são usadas para recarregar baterias para o período seguinte de trabalho.

Logo, a forma como a maior parte do tempo de lazer é usado hoje em dia não é um bom exemplo de como seria usado se as horas de trabalho fossem muito reduzidas relativamente ao que são atualmente, ou até se o tipo da maior parte do trabalho não fosse tão alienante.

Além disso, para os escalões mais altos do mundo empresarial, trabalho e lazer fundiram-se em uma intencionalidade generalizada. O executivo que assiste a reuniões “fora do local de trabalho” em clubes exclusivos, oferece uma festa para “estabelecer contatos” e está em constante comunicação eletrônica com o seu escritório, mesmo quando está de férias, age premeditadamente no sentido de Keynes. Ele faz coisas não por elas mesmas, mas para o benefício de outras coisas.

Na realidade, a cultura das sociedades opulentas dos nossos dias se tornou mais determinada, não menos, mais acelerada, não mais vagarosa. Explicar este paradoxo será um dos objetivos do post que se segue.

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