Crescimento da Economia de Serviços e Consumo Supérfluo

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, coautores do livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, afirmam que a consequência da recente influência dominante na distribuição de rendimento foi:

  1. o crescimento da economia de serviços e
  2. a incapacidade de usar a tributação progressiva para compensar a tendência natural de desigualdade de crescimento da renda relativamente ao crescimento relativo dos serviços.

Ambos estabeleceram um limite para a diminuição de horas de trabalho.

No tempo de Keynes, nos países desenvolvidos a indústria representava 80% da produção e os serviços apenas 20%. Atualmente, esta proporção inverteu-se.

Em média, os empregos no setor dos serviços são menos bem pagos do que os empregos na indústria que substituíram, em parte porque não podem ser automatizados até ao mesmo ponto – pensemos nos professores, enfermeiros, cabeleireiros e taxistas – e em parte porque não podem ser sindicalizados com tanta eficácia.

O fracasso na redistribuição de rendimento nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha significou que muitas das pessoas empregadas nos escalões mais baixos do setor de serviços nestes dois países, especialmente no varejo, hospitalidade e serviços pessoais, tiveram de aumentar as horas de trabalho para escapar à pobreza.

As pressões competitivas, combinadas com uma fraca proteção dos direitos dos trabalhadores, levou a que os patrões explorem a mão de obra existente durante mais tempo em vez de dividirem a carga de trabalho por um maior número de trabalhadores. Isto porque a última hipótese implicaria um aumento de custos de treinamento e gestão por parte do empregador, para nem falar das férias obrigatórias pagas, seguro de saúde e outros benefícios.

É muito mais rentável para uma empresa contratar um pequeno número de pessoas durante mais horas do que dividir essas horas por mais trabalhadores que também recebem salários e exigem recolhimento de encargos trabalhistas.

A consequência é que a mão de obra está ficando segmentada em um núcleo cada vez menor de trabalhadores permanentes. Eles provavelmente trabalham mais do que querem. Por sua vez, há uma periferia alargada de desempregados ou parcialmente empregados que trabalham menos do que querem e cujos salários precisam de ser complementados com apoios sociais para se manterem empregados.

Neste tipo de Economia de Serviços com ocupações precárias, o consumo aparece como uma oferta de bens compensatória para os trabalhadores privados do lazer que anseiam. Para aliviar a sua frustração (e mantê-los dóceis), é-lhes oferecida uma série de bens de consumo inúteis e embrutecedores.

As compras são espirituosamente mais bem denominadas “terapia de varejo” ou shopping-terapia – uma compensação por experiências desagradáveis ou deprimentes. A criação de necessidades artificiais garante a lealdade dos trabalhadores à ética no trabalho. Adaptamos as nossas preferências, acabando por desejar o que obtemos e não a obter o que desejamos.

A explicação de esquerda para o compromisso rendimento/lazer não é totalmente persuasiva. É indiscutível que, desde a década de 1980, os rendimentos medianos não acompanharam os rendimentos médios e apenas este fato explicaria uma grande parte do fracasso da diminuição das horas de trabalho desde então.

Mas o relato marxista do comportamento consumista é menos plausível. Mesmo que as preferências dos consumidores possam divergir das necessidades reais, elas não podem estar inteiramente dependentes dessas necessidades, não podem ser simplesmente incutidas em nós pelo aparelho produtivo ou pela publicidade. Afirmar isto é negar aos indivíduos toda a ação, reduzi-los a robôs ou autômatos.

O sociólogo marxista André Gorz parece fazer isto quando escreve acerca do indivíduo sob o capitalismo: “não é o ‘eu’ que age, mas a lógica automatizada de sistemas sociais que trabalham através de mim como Outro”.

A publicidade pode moldar desejos, mas não pode criar desejos do nada. Não pode, por exemplo, persuadir-nos a comprar cocô de cão, exceto, possivelmente, se o associar a algum objeto de desejo já existente. Tem de existir uma tendência anterior na natureza humana para a publicidade se colar. De outro modo, o seu domínio sobre nós seria misterioso.

Assim, as explicações estruturais para o fracasso da diminuição das horas de trabalho têm de ser suplementadas com uma exploração da natureza intrínseca dos desejos e satisfações humanos.

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