Trabalhar para não morrer de tédio… ou de vodka

 

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, coautores do livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, acham que seria um disparate negar que o trabalho remunerado sempre teve elementos de satisfação intrínseca. A maior parte das pessoas não trabalha apenas para comer. As pessoas podem trabalhar muitas horas por companheirismo ou para escapar aos problemas, ou tédio, da vida familiar.

A questão-chave para o cotidiano feliz é se a possibilidade de ser “feliz” no trabalho tem aumentado ao longo do tempo. Isto não é de forma alguma muito claro. Alguns trabalhos tornaram-se mais interessantes. O número de trabalhos vocacionaiso ensino, por exemplo – aumentou.

Diz-se frequentemente que a Internet tornou o trabalho mais divertido e a diversão mais parecida com trabalho. Também alargou as oportunidades de lazer no trabalho, pois o Facebook está apenas a um clique de distância em um celular inteligente com usuários burros. Os ambientes de trabalho são cada vez mais projetados para serem “divertidos”.

Mas a especialização que Adam Smith pensou que tiraria a técnica do trabalho também tornou uma grande parte do trabalho menos gratificante. O que é chamado “técnica” é frequentemente um eufemismo para tornar mecânico o que em tempos requeria pelo menos um pouco de conhecimento, atenção e envolvimento.

As técnicas do artesão, do mecânico, do construtor, do talhante e do padeiro deterioraram-se. Uma grande parte do trabalho, reduzido à pura rotina, continua a ser literalmente estupidificante. As rotinas laborais dos supermercados e call centers modernos foram apelidadas de “taylorismo digital” em homenagem ao inventor do tapete rolante.

Reduções drásticas de custos diminuíram o “tempo presencial”, como a sociabilidade é agora chamada. A “criatividade” de muitos trabalhos é apenas uma imagem de marca: “chefs trabalhadores e empenhados a criar todos os dias” é o anúncio de uma cadeia de comida rápida muito conhecida. Mesmo para os profissionais financeiros de topo, as “alegrias do trabalho” vêm em um distante segundo lugar, depois dos salários e bónus. Os trabalhadores alienados, que não se identificam com o produto de seus trabalhos, dizem que a quebra (mensal) da rotina é o recebimento do holerite

A disponibilidade dos que mais ganham para trabalharem mais horas do que trabalhavam no passado pode confirmar, não o interesse crescente dos seus empregos, mas a insegurança crescente dos seus rendimentos. Uma pequena proporção de empregos, e partes de empregos, pode ter-se tornado cativante. Porém, a maior parte continua a ser mal-amada.

Apesar das pseudoalegrias do trabalho e do medo da ociosidade, mais trabalhadores na maioria dos países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos, prefeririam trabalhar menos do que mais.

Um inquérito recente sobre futuras opções de emprego mostra um desejo generalizado de menos horas de trabalho, mesmo sabendo que isto poderia significar um salário menor – 51% dos inquiridos queriam menos horas e apenas 12% escolheram mais horas. Resultados semelhantes foram obtidos no Japão. Nos Estados Unidos, os números foram mais equilibrados, mas a preferência foi para menos horas e não mais horas: 37% contra 21%.

O que as pessoas dizem que fariam em circunstâncias hipotéticas não é, evidentemente, o que fariam necessariamente se fossem confrontadas com essas circunstâncias. No entanto, mantém-se pelo menos uma predisposição a favor de menos horas de trabalho.

Os prazeres cada vez maiores do trabalho, ou o medo do lazer, podem ser parte da explicação de porque é que as horas de trabalho pararam de diminuir, mas não podem ser a explicação principal. A praga da especialização alienante pode ter-se tornado mais leve, mas não desapareceu completamente.

Os marxistas sempre defenderam que, nos regimes capitalistas, os trabalhadores são obrigados a trabalhar mais horas do que precisam, ou gostariam, porque são “explorados”, isto é, recebem menos do que o seu trabalho vale para os patrões, cujo controle do mercado laboral torna isto possível. Isso significa que eles são privados dos ganhos plenos do aumento da produtividade.

Na Era da Socialdemocracia, em meados do século XX, sindicatos poderosos conseguiram fazer subir os salários reais dos trabalhadores e o Estado usou o sistema de tributação para redistribuir o rendimento não proveniente dos salários dos ricos para os pobres. Mas estas tendências de equilíbrio apossaram-se dos lucros e deixaram os ricos comparativamente pior.

Isto foi invertido na década de 1980, aproximadamente na mesma altura em que as horas de trabalho pararam de cair. A explicação da estabilização das horas de trabalho parece óbvia: os trabalhadores não reduziram o seu tempo de trabalho porque na realidade não alcançaram os ganhos no rendimento real que os teriam levado a trabalhar menos. Os trabalhadores podem determinar os seus compromissos entre trabalho e lazer, mas não em um sistema onde a classe capitalista dita as regras.

Os dados mostram que a desigualdade de riqueza e rendimento nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha cresceu imensamente desde 1980, com os ricos ganhando mais com o aumento da produtividade.

Em 1970, nos Estados Unidos, o ordenado de um diretor-geral de uma grande empresa era quase 30 vezes superior ao da média dos trabalhadores. Atualmente, é 263 vezes mais elevado. Na Grã-Bretanha, em 2000, o salário base de um diretor-geral nas principais empresas cotadas no FTSE era 47 vezes superior à média de salários dos trabalhadores. Em 2010, era 81 vezes superior. Desde o final da década de 1970, o rendimento do quinto de pessoas mais ricas aumentou nove vezes mais depressa do que o quinto de pessoas mais pobres nos Estados Unidos e quatro vezes mais depressa no Reino Unido.

Os ricos estão captando uma parcela cada vez maior do produto interno. Isto explica porque é que, apesar de o rendimento médio ter subido na maior parte dos países, o rendimento mediano – isto é, o rendimento da pessoa no meio da distribuição – não subiu tanto.

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