Insaciabilidade

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky. “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, dizem que Keynes presumiu que os desejos materiais podiam ser satisfeitos, que nós podíamos “ter o suficiente”. Mas suponhamos que eles não sejam insaciáveis.

Por insaciabilidade referimo-nos ao que o dicionário diz: um desejo contínuo e insatisfeito de mais do que se tem. “Diversão adicional” é o slogan de um anúncio dirigido “a quem tem tudo”. A questão é: por que é que as pessoas que “têm tudo” parecem querer sempre mais?

A resposta a esta pergunta tem duas abordagens:

  1. a primeira das quais começa com a natureza dos desejos humanos no isolamento e
  2. a segunda que os considera em relação aos outros.

A incompatibilidade entre os dois é reconhecidamente muito artificial. Os desejos são individuais. No entanto, a forma como são expressos, encorajados ou reprimidos, é social.

Aborrecemo-nos quando habituamos com o que temos. A satisfação de todas as necessidades, a eliminação de todos os desconfortos, produz um estado, não de tranquilidade satisfeita, mas de insatisfação, que tem de ser aliviada com a novidade do mesmo modo que uma comichão tem de ser coçada para desaparecer.

À medida que a abundância aumenta, cresce o tédio, o que provoca uma procura cada vez mais frenética de experiências estimulantes. A nossa natureza é tal que nunca estamos satisfeitos com o que temos. Por isso, continuamos a trabalhar para estimular os nossos apetites saciados.

Uma segunda explicação individualista para a insaciabilidade centra-se na escassez inerente de determinados bens. Férias em estâncias de luxo, jardins elaborados por arquitetos paisagistas e muitas outras raridades não podem ser desfrutados por todos em uma sociedade, por muito rica que ela seja.

A procura crescente pressiona uma oferta fixa. O resultado é um aumento contínuo do custo desses bens relativamente aos preços médios, que os coloca permanentemente para além do alcance dos rendimentos normais. Porém, em vez de aceitarem este lamentável fato, as pessoas continuam a querer o melhor, que, na natureza das coisas, nem todos podem ter. Por conseguinte, esta é outra importante fonte de insaciabilidade.

Em termos de satisfação individual, o racionamento por fila (“socialista”) é muito inferior ao racionamento por preço (“capitalista”), a termos o melhor que foi criado à disposição para ser apreciado na privacidade da nossa casa.

Os bens oligárquicos não têm de ser só fisicamente escassos. Também têm que ser “socialmente escassos”, o que significa que a sua multiplicação destrói as características que os tornaram desejáveis.

A riqueza democrática poderá nunca alcançá-los. Se prevalecer uma distribuição desigual, as pessoas mais ricas avaliarão essas coisas raras muito acima das possibilidades do homem comum.

Quanto mais igual se tornar a riqueza, menos criados estarão disponíveis e acessíveis. Nenhuma das invenções que poupam mão de obra pode compensar o desaparecimento do serviço pessoal necessário para uma vida agradável.

Os bens oligárquicos são rotulados também como “posicionais”, porque o acesso a eles depende não do nosso nível absoluto de riqueza, mas da nossa posição relativamente aos outros. Como os prêmios principais em um torneio, os bens posicionais não podem ser conquistados por todos. Eles serão sempre acumulados pelos mais ricos da sociedade, seja qual for o nível global de riqueza.

Assim, a competição para obtê-los nunca parará. Na verdade, intensificar-se-á com o crescimento, à medida que uma proporção cada vez maior de rendimento familiar for liberada para gastos posicionais.

A existência de bens posicionais enfraquece a visão de Keynes de uma sociedade onde todos têm “o suficiente”. Pois mesmo que todos ganhassem as necessárias 500 libras por ano, ou o seu equivalente moderno, nem todos conseguiriam, logicamente, viver nas melhores casas ou comprar os melhores lugares nos espetáculos ou shows.

Uma terceira explicação individualista da insaciabilidade inspira-se fortemente na imagem economicista do ser humano como um maximizador de utilidade racional. O trabalho pioneiro aqui é o do economista americano Gary Becker. Keynes considerava que o lazer era um benefício universalmente desejado, mas outra forma de olhar para ele é como um custo de oportunidadeo custo de não trabalhar.

Becker referiu que o custo de uma noite no teatro não é simplesmente o preço do bilhete, mas o custo de não ganhar naquelas horas. O lazer é uma subtração do rendimento hipotético e Becker imaginou o indivíduo a ponderar as vantagens de:

  1. ganhar um rendimento ou
  2. gastar e não ganhá-lo.

Dito desta forma, a escolha entre trabalho e lazer é essencialmente um problema de distribuição de tempo. O lazer não é tempo livre, é tempo dispendioso. E quanto mais alto é o rendimento, mais dispendioso o tempo. Se Becker tiver razão, não existe um motivo a priori para acreditarmos que as horas de trabalho diminuirão à medida que a riqueza crescer. É igualmente plausível acreditar que elas subirão à medida que o custo de não trabalhar aumentar.

A principal forma de aumentar o “lucro” do lazer é enchê-lo de equipamentos. Assim como os trabalhadores se tornam mais produtivos ao trabalharem com mais ferramentas e meios de produção, também os consumidores aproveitam melhor o seu tempo de lazer quando são usados mais aparelhos por unidade de tempo. Por exemplo, iMac, iPad, iPhone, AppleTV, SmartTV, Netflix, Spotify, provedor de internet, banda-larga, modem, etc., que compõem um “pacote básico eletrônico-digital” para o lazer doméstico contemporâneo.

O argumento do desejo de consumo cheio de aparelhos, para a natureza do lazer moderno, pode ser usado para explicar o fracasso da diminuição das horas de trabalho em linha com a previsão de Keynes. Quantos mais bens de consumo duráveis – carros, barcos, caravanas, televisores, leitores de DVD, etc. – forem usados para aumentar o lazer, maiores os rendimentos necessários para poder pagá-los. A seleção cada vez maior de bens necessários para o consumo “produtivo” mantém-nos presos ao trabalho.

Estas explicações individualistas de insaciabilidadeinquietação inata, competição posicional, maximização de utilidade – envolve uma comparação entre o que uma pessoa quer e o que outras têm. A expressão de desejos tem sempre um caráter social.

Assim, a principal explicação sociológica para a insaciabilidade depende do caráter relativo dos desejos. Nunca me sentirei satisfeito com o que tenho em nenhum nível de riqueza material porque alguém terá sempre mais do que eu.

Quando a competição pela riqueza – ou pelo consumo através do qual ela é normalmente expressa – se transforma numa competição por posição, transforma-se em um jogo de soma zero, porque, por definição, nem todos podem ter uma posição alta.

À medida que gasto mais em bens de prestígio, ganho importância, mas faço com que outros a percam. Quando eles gastam mais para recuperar essa posição, reduzem a minha. Não existe um motivo para que a escalada de rendimento para manter e adquirir posição acabe algum dia.

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