Privatização Gradual do Banco do Brasil

Nada tão parecido com o triste fim do governo FHC — e decorrentes quatro derrotas eleitorais seguidas por seus apoiadores neoliberais — como o governo temeroso, imposto à Nação através de um golpe parlamentarista no presidencialismo. Os golpistas retomaram a agenda privatizante pró-mercado, sem apoio eleitoral nas urnas, apressadamente. O script é o mesmo.

Primeiro passo é justificar que “a necessidade de austeridade fiscal impõe a venda de ativos públicos”. Vinícius Pinheiro e Edna Simão (Valor, 08/05/17) informam que a União vai ficar próxima ao limite da participação mínima necessária para manter o controle acionário do Banco do Brasil. O Tesouro determinou a venda das ações do banco público detidas pelo Fundo Soberano. A operação será realizada ao longo dos próximos 24 meses, antes da eleição democrática de um novo governo legítimo.

Após a negociação, a participação da União no capital do BB cairá de 54,4% para 50,73%. O Fundo Soberano detém 3,67% das ações do banco BB, o equivalente a pouco menos de R$ 3,5 bilhões, com base na cotação de fechamento na bolsa no dia 05/05/17. Os recursos com a venda vão ajudar no cumprimento da meta de primário pelo governo central, mas ainda não é possível saber se o efeito da medida será mais concentrado neste ano ou em 2018. O Tesouro recomendou que a operação de venda aconteça de forma gradualista para evitar pressões sobre o preço das ações do BB.

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Qual é o Problema da Economia da Felicidade?

Grandes moralistas disseram-nos vezes sem conta que a felicidade está no amor e na virtude, não na riqueza. A novidade da Economia da Felicidade é a tentativa de embelezar esta antiga sabedoria com um invólucro estatístico ao qual não faltam gráficos e fórmulas. Aparentemente, não podemos admitir que sabemos o que sabemos sem considerar que essa sabedoria seja validada pela Ciência.

Este exercício de autoconfiança é perigoso por dois motivos:

  1. exagera a utilidade dos inquéritos sobre felicidade e
  2. requer que atribuamos um valor incondicional à felicidade em si, independentemente das várias coisas que nos fazem felizes.

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, analisam cada um destes dois erros separadamente. Inicialmente, focalizam os problemas de medição da felicidade:

  • ou a felicidade é extremamente insensível às mudanças no ambiente social,
  • ou as medições de felicidade são extremamente insensíveis às mudanças de felicidade.

Nenhuma destas conclusões é particularmente reconfortante para os economistas da felicidade. Continue reading “Qual é o Problema da Economia da Felicidade?”

Economia da Felicidade

Em 1974, o economista Richard Easterlin publicou um artigo que ficou famoso: “O Crescimento Econômico Melhora a Raça Humana?” Na sequência de um minucioso inquérito sobre felicidade e PIB numa série de países do mundo ele concluiu que, provavelmente, a resposta é «não». Desde então a economia da felicidade expandiu-se, mas a descoberta principal do artigo de Easterlin, o chamado Paradoxo de Easterlin, mantém-se vastamente incontestada.

Robert Skidelsky e Edward Skidelsky, no quarto capítulo do livro “Quanto é Suficiente? – O Amor Pelo Dinheiro e a Economia da Vida Boa”, em princípio, concordam. “Parece que o enorme progresso nos padrões de vida após a II Guerra Mundial não nos trouxe um acréscimo de felicidade. Talvez Rousseau estivesse sempre certo. Mais dinheiro não nos torna mais felizes.”

Conclusões semelhantes repetiram-se em países do mundo inteiro, quer desenvolvidos quer em desenvolvimento.

Para percebermos os números, temos de partir do princípio de que a felicidade é afetada pela riqueza relativa, não pela riqueza absoluta. Dito de outra forma:

  • a felicidade dos ricos é uma expressão da sua satisfação por estarem no topo da pirâmide de riqueza e
  • a infelicidade dos pobres espelha a sua frustração por estarem embaixo.

Como os ricos se mantêm no teto e os pobres se mantêm no piso seja qual for o rendimento da sociedade como um todo, os níveis médios de felicidade não mudam. Como uma analogia, imagine uma dada fila em um elevador: quem está no fim da fila permanece no fim mesmo quando a fila avança. Continue reading “Economia da Felicidade”